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O mistério da partilha

Vim a Salvador, BA, para assessorar o encontro amanhã com as pastorais sociais sobre Igreja em Saída e Políticas Públicas. Estou junto com Zé Vicente, hospedado na Comunidade da Trindade, coordenada pelo irmão Henrique e mais uma comunidade (aliança ) de duas irmãs, dois padres e alguns leigos/as voluntários que acolhem e convivem com pessoal em situação de rua. Há 19 anos, essa comunidade se instalou em uma velha Igreja de Salvador, na zona portuária. A Igreja estava abandonada e eles conseguiram ocupá-la. Nas duas alas laterais da Igreja colchões no chão e em leitos improvisados dormem de um lado homens e do outro mulheres. E na nave central um círculo de banquinhos fazem um espaço de oração No altar principal, o ícone da Trindade (de Rublev). Ocuparam a antiga casa paroquial e ali estamos hospedados, de modo muito simples, mas muito afetuoso e não falta nada. 

 No jantar, estavam mais de 30 pessoas. Nós nos reunimos em um espaço que chamam de Oca e serve de refeitório e sala de reunião. Os moveis foram reciclados de material encontrado no lixo. As pessoas que estavam na rua e hoje fazem parte da comunidade assumem os trabalhos por rodízio. A cada dia com os que chegam para comer passam uma bolsa para comprar mistura. Hoje entre aquelas 34 pessoas juntaram 86 reais. Todo mundo comeu e me parece que sobrou. Arroz, macarrão e um ensopado de frango... 

Depois a oração da noite. Para mim foi comovedor orar o salmo 31 (Eu me entrego, ó Pai, em tuas mãos e espero pela tua salvação) com irmãos e irmãs sofredores de rua que cantavam com toda a sua voz e com muita piedade. Alguns faziam gestos com as mãos. 

  No fim da oração, um deles se levantou, foi ao meio da comunidade e disse: Eu peço desculpas por ter tido uma reação de raiva na hora da janta. Eu que estava longe não compreendi bem o que tinha acontecido, nem porque ele tinha se irritado, mas fiquei impressionado com a disciplina de pedir desculpas diante de todos/as. Na rua eles vivem com medo e durante todo o tempo preparados para se defender. Aqui eles podem se desarmar e conviver como irmãos e irmãs com pessoas que em nome de Jesus os ajudam a reencontrar a sua dignidade humana de filhos e filhas de Deus e assim descobrirem que a vida pode ser diferente. Amém. Aleluia. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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