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O programa que interessa a Deus

O programa que interessa a Deus

               Nesse domingo (33º do ano), o evangelho lido nas comunidades (Marcos 13, 24- 32) é parte daquilo que, no evangelho, é chamado de “discurso sobre o fim de um mundo” (prestem atenção que não se trata do fim do mundo e sim de um mundo e, portanto, possibilidade do começo de outro). São palavras retomadas de textos do primeiro testamento no estilo que no Judaísmo se chama “apocalíptico”, ou seja carregado de símbolos e de mensagens de esperança através de símbolos e sinais fortes. Como alguns desses símbolos e sinais são próprios do mundo antigo, nem sempre sua significação para nós é transparente. 

No trecho do discurso que lemos nesse domingo, Jesus aponta para dois sinais: um no céu e outro na terra, perto de nós. Ele diz que no céu, o sol perde a sua claridade, a lua se torna escura e as estrelas caem do céu. A maioria dos estudiosos e intérpretes estão de acordo que, na literatura apocalíptica, os astros do céu simbolizam os poderes políticos e imperiais daquele tempo, poderes divinizados como eram os astros nas culturas antigas. De fato, os poderosos do mundo antigo se diziam “filhos do sol”, as rainhas eram “encarnações da lua” e os ricos eram ricos porque tinham uma boa estrela. Os magos que vêm a Belém para ver o menino Jesus viram uma estrela e na cultura deles era normal pensar que aquela estrela representava um novo rei que tinha nascido. Então, quando Jesus diz que os astros perderão o seu poder, está dizendo que os impérios do mundo serão abalados e vencidos. Afirmar que os astros do céu se abalarão era um modo claro de anunciar a queda dos poderosos que mandavam no mundo da época. E esse sinal continua com o anúncio da  vinda do reino de Deus em figura humana. “Virá sobre as nuvens um como  Filho do Homem”. Que beleza descobrir que o reino de Deus tem uma cara humana. O livro de Daniel já tinha dito isso (Dn 7, 13). Deus se manifesta humano e o seu reino é para nos humanizar. 

Ao mesmo tempo que Jesus anuncia esses sinais tão fortes no firmamento, chama também atenção para um sinal na terra, muito mais próximo de nós: a figueira que se enche de folhas. Quando a figueira se enche de folhas, é sinal de que o verão está chegando. Todos sabemos que, na Bíblia, a figueira é imagem da comunidade messiânica. No capítulo 11, Jesus tinha dado uma palavra que fez uma figueira secar (Mc 11, 13). Secou não porque Jesus tivesse feito alguma magia cruel ou pouco ecológica. Secou porque era estéril. Não dava mais frutos. Essa figueira representava a religião do templo que se tinha tornado uma estrutura conivente com o império opressor. Era igual a uma figueira que antigamente dava frutos bons e doces, mas agora só produz galho seco e gravetos espinhosos. (Atenção, cuidado, Igrejas e comunidades que se ligam ao poder opressor e ao mundo capitalista divinizando o lucro, a competição e as normas de moral que as próprias Igrejas inventam em nome de Jesus). A figueira, representada pela religião do templo que criava discriminações em nome de Deus, secou. Agora o evangelho de Marcos fala de outra figueira. Essa se enche de folhas novas e renasce para mostrar que o verão está chegando. É a figueira capaz de anunciar que o verão do reino divino está chegando ao mundo. Na língua original do evangelho, o grego, o verbo “aprendam da figueira” é o mesmo termo que “sejam discípulos”. Essa figueira representa nossas comunidades, nossos grupos, as Igrejas de base e todos os grupos (de qualquer religião) que se coloquem como sinal do reino divino que vem (o verão) e não como instituições fechadas em si mesmas. Será que as nossas comunidades e nós mesmos somos esse tipo de figueira?

Esse evangelho parece pensado para o momento atual que vivemos no Brasil. Nesses dias, a cada momento, a imprensa especula sobre as pessoas escolhidas pelo novo presidente para compor o seu governo. Essas pessoas ungidas pelo poder  fazem declaração sobre suas intenções em cada ministério e para o caminho que pretendem dar ao Brasil. Os movimentos sociais organizados, os grupos de Igrejas cristãs inseridos no mundo e todas as pessoas comprometidas com a transformação do mundo têm consciência da tragédia que é esse governo e lamentam cada proposta, cada encaminhamento, cada declaração oficial. É difícil chegar a um ponto tal no qual somos obrigados a reconhecer: Nada parece ser no sentido do programa social e político no qual acreditamos ser na linha do que Jesus propôs no evangelho. E o mais espantoso é perceber que muitos ministros das Igrejas se deixam aliciar e não parecem acordados para aquilo que o evangelho chama de “sinais dos tempos”.

Nesse domingo, já é o segundo ano, no qual o papa Francisco celebra e propõe às Igrejas de todo o mundo que celebrem “O dia mundial dos pobres”.  Não sei em quantas dioceses e paróquias católicas, isso tem entrado no calendário, como algo que faz parte da fé e da esperança. É o projeto divino. Nessa direção vai o nosso projeto ou programa de vida. Que o nosso jeito de viver a fé dê forma e organize uma espiritualidade sócio-político libertadora, sinal do mundo novo que Jesus veio ensaiar. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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