Blog Aqui vamos conversar, refletir e de certa forma conviver.

O rosto divino da amizade

Na literatura e na história da humanidade há um imenso repertório de "cartas de amor". Acho que uma vez eu vou juntar as muitas cartas de amizade que tenho elaborado na vida. Mas, talvez as mais profundas nem consegui explicitar na escrita. Estão inscritas no coração em letras de sangue e de profundo amor. Sei que na cultura dominante, amizade é uma espécie de amor menor, menos importante e menos comprometedor do que o amor conjugal. Se eu pudesse, testemunharia que não é assim. Amor é amor e todo amor é total e radical. Não existe mais nem menos nessa quantificação de amor. Há sim expressões que diferem: amor conjugal e amor de mãe ou de pais e filhos. Mas, qual é o maior ou o menor? Quem sabe? Se é amor, é amor e todo amor bebe na mesma fonte: Deus.  
Nos séculos XII e XIII, monges cistercienses como Elredo de Rievaulx elaboraram uma verdadeira Teologia cristã da Amizade. Os cristãos tinham elaborado uma mística para dizer que o casamento, a união do homem e da mulher, é um sacramento (sinal maravilhoso) do amor de Deus pela humanidade. Na Idade Média, alguns místicos revelaram que a amizade também do seu modo é um sacramento da presença divina na vida da gente e é também sinal do amor divino para a humanidade. Santo Anselmo de Cantuária ficou conhecido pela famosa teologia sobre a redenção (hoje horrível e inaceitável). Mas, ele fez uma bela e profunda Teologia da Amizade.
Esses místicos chegaram a instituir um rito de aliança para amigos (Não estamos falando em relações homoeróticas que, hoje sabemos, têm também a sua dignidade própria. Estou falando da amizade como de uma relação afetuosa profunda, mas caracterizada pela gratuidade da relação e pela abertura quase universal. O círculo da amizade não se fecha em dois ou em três. Na relação de tipo conjugal, seja como for, sempre tem certa exclusividade - Mesmo se atualmente alguns círculos falam em relação aberta ou em coisas como o políamos, a relação conjugal sempre é feita de uma postura com certa exclusividade. Na amizade, isso não é assim. O que constitui a amizade é a relação mais gratuita. Nessa há uma predileção, mas aberta. De fato, Deus nos manda sermos irmãos de todo mundo. Irmão temos de ser de todos. Amigos, a gente escolhe e tem liberdade de ser ou não. A amizade é caminho. No encontro com o outro, cada pessoa amadurece e se torna mais pessoa. Em um mundo individualista e sempre interesseiro, a amizade verdadeira é profecia de outro modo de viver e de outra política possível. A amizade é a forma concreta de se cuidar do Bem Viver mútuo e como economia política de comunhão. Viva a nossa amizade.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações

contato@marcelobarros.com