Blog Aqui vamos conversar, refletir e de certa forma conviver.

O sacramento da inserção

O sacramento da inserção

             Em todas as Igrejas cristãs, há uma mística (ou espiritualidade) da inserção no meio dos pobres e no coração das lutas por mais vida e mais dignidade humana para todos. Acreditamos que essa luta é prolongamento e atualização do movimento de Deus ao “descer” na sarça ardente para fazer o seu povo subir da escravidão para a terra da liberdade (Ex 3). É o prolongamento do fato de que cremos que Deus se tornou humano. Manifestou-se presente na pessoa humana de Jesus. Encarnou-se. A inserção é o modo atual de vivermos a encarnação. 

No começo do século XX, Charles de Foulcaud se converteu e passou o resto de sua vida na busca da mística de Nazaré. Chamava assim a inserção no mundo do trabalho e como simples operário igual aos outros, como, em Nazaré, Jesus viveu anos e anos, a inserção na vida cotidiana e real, trabalhando na oficina do pai, antes de sair em missão. 

A partir dos anos 50, portanto ainda antes do Concílio Vaticano II,  em vários países como a França e a Itália, essa mesma mística motivou e deu força ao movimento dos padres operários. Depois do Concílio, principalmente na América Latina, fecundou a busca de inserção nas bases, por parte de religiosos e religiosas que deixaram os grandes conventos e passaram a morar nas periferias. Em 1968, os bispos latino-americanos aprovaram e deram força a essa compreensão da fé e da espiritualidade. 

A partir dos anos 80, com o esforço em contrário do Vaticano, essa mística se enfraqueceu e pouco a pouco foi sendo substituída pela mística dos grupos e movimentos carismáticos. Esses valorizam o aspecto sentimental e vertical da espiritualidade, mas sem lembrar que Jesus uniu profundamente a dimensão carismática (pentecostal) e a revolucionária da fé. 

Neste domingo, as Igrejas antigas celebram a festa do Batismo do Senhor. Nas Igrejas orientais, essa celebração é profundamente ligada à Epifania e em muitas Igrejas, o batismo de Jesus é celebrado no 06 de janeiro. A partir da renovação litúrgica, a Igreja latina diminuiu muito a importância dessa festa e a celebra no domingo seguinte à Epifania. Nesse ano, lemos o relato do batismo de Jesus segundo Lucas (Lc 3, 15 – 16 e 21 – 22).

A primeira parte do evangelho é o testemunho de João Batista e a segunda é o testemunho do evangelho sobre o que ocorreu depois do batismo ou em consequência do batismo de Jesus. Batismo é o termo grego para mergulho, inserção. No tempo de Jesus, o mergulho nas águas do rio Jordão, proposto e coordenado pelo profeta João, era símbolo de purificação e de banho regenerador para uma vida nova. Comumente se diz que o batismo de João era para o perdão dos pecados. Mas, que pecados? Para nós, a noção de pecado é moral. Naquela cultura, o pecado era social e cultural. Era viver uma situação que afastava a pessoa do templo e da pureza ritual. Pecadores eram os trabalhadores pobres que dependiam dos estrangeiros ricos para sobreviver. Eram as mulheres que ficavam impuras quando menstruavam e quando davam a luz. Eram as pessoas que abatiam animais para vender... Isso significa que eram os pobres marginalizados. Batismo para perdão dos pecados era para libertação das marginalizações que, em nome de Deus, deixavam os pobres fora da fé. 

No texto original de Lucas, a referência ao batismo de Jesus está escrita com os verbos no passado. Pode-se interpretar que João batizou Jesus antes de ser preso, mas Lucas conta a prisão de João Batista antes de narrar o batismo de Jesus (v. 20). O evangelho de Lucas não conta em si o batismo. Faz a ele uma referência como já tendo ocorrido. Provavelmente, na época das comunidades do evangelho, contar que João batizou Jesus seria dizer que Jesus se tornou discípulo de João, o que o evangelista não quer afirmar. 

Mateus teve de confessar isso. Diferente de outros evangelhos, a comunidade de Lucas deixa claro que Jesus começa quando João encerra sua missão. No evangelho de Lucas, João Batista diz que ele mergulha as pessoas na água, mas o Messias as mergulhará no Espírito Santo. Na intimidade divina e no projeto que Deus tem para o mundo. Enquanto João é apresentado de forma solene no começo do capítulo, Jesus entra na história quase anonimamente: “quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também...”O batismo ou mergulho em águas correntes era o sinal da renovação de vida que Deus faria na vida de cada pessoa e do mundo. Se quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também, isso significa que ele se inseriu e assumiu a condição de pecador social (marginalizado da religião, impuro). E naquela ocasião, de acordo com esse evangelho, Jesus recebeu do Pai a confirmação de sua missão e a consciência da sua filiação messiânica: Tu és meu Filho. 

Foi ao se identificar com os pobres marginalizados da religião, que Jesus escuta Deus lhe dizer: Tu és meu filho. Quando o texto diz: “os céus se abriram”, o povo compreendeu a alusão ao fato de, que desde os tempos do cativeiro da Babilônia, não havia mais um grande profeta. Os céus estavam fechados. A comunicação com Deus era indireta. Agora, os céus se abrem. A partir da inserção de Jesus, os céus estão abertos para todos. Já não existem mais regras e leis para sermos aceitos por Deus. Ele é inclusão total e todos/todas são incondicionalmente acolhidos/as. 

Lucas salienta que isso aconteceu no momento em que Jesus orava. Deus escuta e atende a oração de Jesus lhe dando o Espírito Santo. O Espírito desce e pousa para permanecer sobre Jesus. É o mesmo Espírito que plainava sobre as águas na criação (Gn 1). É o Espírito que, ao ligar céu e terra, inicia uma nova criação. Como a pomba que, com um ramo verde no bico, anunciava o fim do dilúvio e o renascimento da vida no mundo (Gn 8, 12), o Espírito desce como se fosse uma pomba (suavemente). Em alguns círculos rabínicos, a pomba era o símbolo nupcial do casamento de Israel com o Senhor. No Cântico dos Cânticos, várias vezes, o namorado chama a amada de “minha pomba” (1, 15; 4, 1; 5, 2; 6,9). 

Hoje, essa celebração do batismo de Jesus deve nos ajudar a renovar nosso compromisso de inserção. Nesse compromisso, atualmente, buscamos novas formas de união cósmica entre o céu e a terra. A destruição ecológica revela uma ruptura. O projeto divino pede que procuremos unir novamente céu e terra, humanidade e natureza. 

Quero encerrar essa meditação com uma palavra da sabedoria religiosa do povo guarani: 

“O verdadeiro Pai Ñamandu, o primeiro, estando para fazer descer à morada terrena o bom conhecimento para as gerações dos que levam a insígnia da masculinidade e o emblema da feminilidade, disse a Jakirá Ru Eté: (…) Olha meu Filho Tupã Ru Eté, aquele que eu concebi para o meu refrescamento, faz com que Ele se aloje no centro do coração de nossos filhos. Unicamente assim, os numerosos seres que se erguerão na morada terrena, ainda que queiram desviar-se do verdadeiro amor, viverão na harmonia”– (ver LEÓN CADOGAN, Ayvu Rapyta, Textos Místicos dos Mbyá-Guaraní del Guairá, Asunción del Paraguay, Biblioteca Paraguya de Antropologia, vol XVI, 1997, p. 57).

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações

contato@marcelobarros.com