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Os riscos e as chances de viver

Estou em uma pequena cidade entre Ancona e RiminI. Colocaram-me em um hotel em frente a uma praia imensa e neste começo de outono frio, totalmente vazia.   Alguém me disse que, nessa praia, no início dos anos 70, Frederico Fellini filmou algumas cenas de Amacord que no dialeto daqui significa “eu me lembro” e é uma memória da Rimini de sua infância com suas personagens exóticas e as fantasias das crianças e adolescentes. Amarcord é um filme que se alguém de vocês não viu não deixe de passar em uma locadora e pegar o DVD. Apesar de feito há mais de 30 anos, parece atual e interpelador. 

É claro que quando olho hoje esta praia, a interpelação é mais urgente e terrível. Penso nas muitas pessoas que, no escuro da noite e no escondido da madrugada, aqui e ali, nessa região ou mais ao sul (mas ouvi falar que Ancona é um dos portos escolhidos) aportam em barcos clandestinos. Pequenos barcos de pesca feitos para três ou quatro pescadores e que atravessam o Mar Vermelho da Tunísia ou outros países do norte da África com vinte ou até trinta pessoas fugindo da fome, da escravidão, da guerra ou simplesmente do desespero de uma vida sem futuro nem perspectiva. E alguns chegam morrendo, mulheres dando a luz e enfim, contando com a sorte da polícia que vigia as praias não vê-los porque se não serão presos e devolvidos ao mar. Diante dessa desumanidade humana, o que adianta evocar a Convenção de Genebra ou mesmo a Declaração de Direitos Humanos da ONU que já em 1948 dizia que toda pessoa humana tem direito a habitar em qualquer lugar da terra que lhe pareça melhor. Como a luta da vida pode ser assim, algo que depende de cada momento... Ontem, quando vinha para cá, à tarde, Antônio dirigia o carro (eu estava ao lado dele) em uma superestrada italiana. De repente, depois de uma curva, surgem enormes cavaletes na estrada indicando que há trabalhadores na pista. Ele viu em cima demais e jogou o carro em cima dos cavaletes, mais pesados do que se poderia pensar. O choque e a parada forçada. Vidro dianteiro totalmente quebrado. Os dois retrovisores reduzidos a nada, alguns destroços na frente e nós dois nos olhando assustados. Graças a Deus, nenhum ferimento. Só o choque, as coisas que estavam dentro do carro que pularam nas nossas costas. Pouco diante do muito que poderia ter ocorrido. Mas, o que é esse risco diante da vida posta em questão a cada momento pelos milhares de migrantes que tentam nova vida? Que possamos constituir uma opinião pública internacional que mude essa situação e torne a terra um planeta que seja pátria comum para toda a humanidade. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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