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Para construir uma nova humanidade

                Cinco da tarde da terça-feira, 05 de junho. No centro histórico de Roma, o calor do verão se misturava com  agitação política própria daquele dia. No palácio da Câmara, tomava posse o novo presidente do Conselho de Ministros. A uma quadra, na rua Dogana Vecchia, 5, fica a sede da Fundação Lelio e Lisli Basso, profundamente marcada pela atuação de um pequeno grupo de irmãs brasileiras, expulsas do Brasil pela ditadura militar, no começo dos anos 70. Libertadas da Congregação que não as apoiou, elas se estabeleceram em Roma e continuaram como comunidade de vida consagrada. A coordenadora delas (Linda Bimbi) foi o braço direito do senador Lelio Basso que criou a fundação para os direitos humanos em todo o mundo e o Tribunal Internacional Permanente dos Povos. 

Nessa terça-feira, no encontro sobre a realidade brasileira, a sala da Fundação tinha umas 50 pessoas. A maioria era de brasileiros/as, residentes em Roma e alguns italianos/as, amigos e solidários com o que se passa em nosso país. Eu estava lá, convidado para uma roda de conversa, organizada por duas amigas brasileiras que, em Roma, fazem uma verdadeira revolução cultural de simpatia e solidariedade com o nosso povo: Clarice Coppetti e Paola Ligasacchio. O assunto a ser tratado era  a realidade atual do Brasil e o que seria possível fazer para ajudar a partir da Itália e de outros países. A jornalista italiana (da Agência de Notícias ADISTA) me entrevistaria e depois as perguntas seriam abertas a todos que quisessem. 

Não vou aqui reproduzir toda a conversa, muito rica e instigante. Clara Fanti, muito bem informada sobre o Brasil, fazia boas introduções. E me possibilitou dizer claramente coisas que, hoje, todos sabemos: 

Na América Latina e no Brasil, vivemos uma guerra contra-insurgente, de natureza econômica, política, diplomática, psicológica, dirigida e financiada pelo governo dos Estados Unidos. Isso que hoje se chama de "guerra de baixa intensidade" mantém em vários países da América Latina uma estratégia de golpismo. Isso tem sido o modo como agem com a Venezuela desde 2002. Isso tem ocorrido e ocorre em vários de nossos países, como um projeto pesado de colonização do continente em pleno século XXI.

Em México, são dezenas de mortes diariamente e na Nicarágua de abril para hoje já se contam mais de cem mortos e 800 feridos. Na Colômbia, Argentina, Paraguai e outros países, conseguem que seja eleito um governo de direita e com forte presença militar norte-americana.  

O que é característico o Brasil é que os três poderes se juntaram e hoje vivemos uma espécie de ditadura judiciária, comandada não pelo Supremo Tribunal Federal que se tornou secundário e sim do juiz Sérgio Moro que trabalha para o Departamento de Estado dos Estados Unidos e tem ao menos profundas ligações com a CIA. 

É preciso insistir com todos com os quais convivemos: o presidente Lula é um prisioneiro político, vítima de uma armação política e que não teve direito de se defender de forma justa e isenta. É o seu direito se candidatar e nós vamos votar nele para a presidência da República. 

Várias pessoas presentes colocaram em dúvida a possibilidade de haver eleições presidenciais em outubro. Minha resposta é que compete a nós agirmos como se nada pudesse impedir as eleições e o direito cidadão do presidente Lula ser votado e eleito. Não há dúvida de que, no tempo de campanha eleitoral pela televisão e pelo rádio, pela primeira vez, em todo esse processo, os candidatos de esquerda (especificamente Boulos e Manuela) terão oportunidade de esclarecer o povo brasileiro (apenas informado pela Globo e seus aliados) sobre a realidade, sobre a injustiça da qual o presidente Lula é vítima e sobre o que de fato está acontecendo com o nosso país. Penso que isso poderá rapidamente determinar a libertação de Lula, já que juridicamente nada justifica a prisão ilegal e injusta. 

No mesmo dia em que deixo Roma de volta para o Brasil (a quarta, 06), chega em Roma Adolfo Peres Esquivel, prêmio Nobel da Paz. Ele continua aqui a dizer a todos: Lula é um prisioneiro político do império norte-americano representado no Brasil pelo Moro e seus asseclas. E é candidato ao prêmio Nobel da Paz. 

Pessoalmente, penso que a comissão internacional é muito conservadora. Apesar de ter dado esse prêmio a pessoas maravilhosas como o papa João XXIII, Esquivel, Martin-Luther King, Rigoberta Menchu e outros, tem concedido também o prêmio a políticos como Obama, Nixon e até Henri Kissinger, com todos os genocídios de pobres dos quais é culpado. Sei que quando os que conferem o Nobel da Paz negaram a Dom Helder Camara esse prêmio que ele teria merecido mais do que qualquer pessoa no mundo, um movimento internacional lhe deu o Prêmio Popular da Paz, um prêmio alternativo ao Nobel, mas mais livre e significativo dos movimentos sociais. Sem desistir do primeiro, penso que devemos começar a articular a candidatura de Lula para esse prêmio. Vamos começar?  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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