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Que o Espírito de Deus recrie em nos o amor e a festa sem fim

Que o Espírito Mãe da Ternura, faça em nós uma festa sem fim

                Neste domingo, se completam os 50 dias da festa anual da Páscoa. Conforme o livro do Êxodo, 50 dias depois da Páscoa, o povo hebreu, libertado do Egito, se reúne no meio do deserto, no monte Sinai. Ali,  recebe a aliança de Deus e a proposta de sua lei. Neste 50º dia, (em grego Pentecostes) até hoje, as comunidades judaicas dão graças a Deus pela aliança de casamento com Deus. Conforme o livro dos Atos dos Apóstolos foi em uma destas festas de Pentecostes que os discípulos e discípulas de Jesus receberam a confirmação do Espírito. O texto bíblico diz que estavam reunidos como um grupo no qual todos se pertencem uns aos outros (os Atos dizem: estavam unidos em um só espaço) e todos/as receberam o Espírito de Deus. O Espírito se manifestou como línguas de fogo, isso é, como luz que dá novo vigor à vida e nova capacidade de comunicação amorosa. Assim, entendiam cada um em suas línguas o que Pedro e os apóstolos falavam no aramaico galileu. 

A primeira observação é que precisamos ir além da letra e afirmar que, no dia de Pentecostes, os discípulos e discípulas de Jesus receberam a confirmação de uma presença do Espírito que eles já tinham mas não sabiam ou não acessavam. Neste dia, descobriram que o Espírito de Deus se manifestava neles. No entanto, o Espírito está presente e atuante na natureza, desde a criação. O Espírito de Deus é a energia de amor ativa em cada ser vivo e na história da humanidade, em cada movimento de vida e libertação. 

Jesus chamou a atenção do seu grupo para o fato de que o mundo tem outro espírito e que não podemos ter nada em comum com este espírito do mundo. Nestes dias, o Brasil inteiro viu que espírito move o presidente e o seu ministério do ódio no Planalto, assim como os que dominam o Congresso e nada fazem contra isso e os do Judiciário que contemporizam e se tornam todos responsáveis pelo crime de tantas mortes que estão ocorrendo por omissão e descuido dos que governam para com o povo. 

A novidade do Pentecostes que hoje celebramos é que o Espírito, presente nos discípulos e discípulas de Jesus os/as confirma no testemunho de Jesus e do seu projeto do reinado divino no mundo. Como o próprio livro dos Atos conta, Jesus tinha prometido: Vocês receberão o Espirito e serão minhas testemunhas em todo o mundo (At 1, 8).   

Outra observação importante é que esta manifestação do Espírito se dá na sala alta, ou seja, no primeiro andar de uma casa (que a tradição chama de cenáculo). A casa é o espaço fundamental das primeiras comunidades cristãs. Pentecostes não se deu no templo ou no lugar considerado sagrado (sinagoga). Nestes dias da pandemia, estamos vivendo mais do que nunca o sentido da casa não só como moradia ou como lugar da pequena família e sim como uma comunhão que pode nos ligar com o mundo todo, isso que no tempo das primeiras comunidades se chamava de “Igreja doméstica”, a Igreja que se reunia nas casas...

O evangelho que ouvimos nesta festa (João 20, 19- 23) nos repete que o dom do Espírito é consequência da ressurreição de Jesus e do encontro nosso com o Ressuscitado. Ele nos dá a paz, nos devolve a alegria profunda do coração, nos confirma o perdão de Deus e pede que sejamos testemunhas deste perdão. “Recebam o Espírito. A quem perdoarem...” , Jesus não abre a possibilidade da comunidade não perdoar alguém. Temos de perdoar todo mundo. Ele deu tudo de sua vida para reconciliar com Deus até os seus inimigos. Trata-se da prática que os primeiros cristãos tinham de “ligar e desligar” a pessoa do pecado: responsabilizar ou des-responsabilizar. O perdão é gratuito, mas é preciso refazer o que foi destruído. Ele nos diz: “A responsabilidade das divisões e das guerras é do modo como vocês organizam este mundo”. Ele nos perdoa totalmente, mas nos dá a tarefa de nos empenhar e nos consagrar como testemunhas e construtores da paz. 

Se nos abrirmos hoje ao Espírito Santo, seremos mesmo, eu e cada um/uma de vocês, profetas, profetizas de Deus. Portadores do Espírito. E com a tarefa de dizer o que “o Senhor nos manda dizer e fazer” nas Igrejas e no mundo. Mesmo se podemos nos alegrar com essa presença em nós do Espírito, a Igreja nos aconselha a sempre de novo pedirmos que ele venha, venha e venha e nos impregne com o seu amor. Em uma poesia, Dom Pedro Casaldáliga orava:  “Vem, Espírito Santo, Vem, ou melhor, vamos:

Faze que nós vamos aonde Tu nos levas. Tu nunca Te ausentas,

ar que respiramos,  vento que acompanhas, clima que aconchegas.

Vem, Para levar-nos por esse Caminho, o Caminho vivo, que conduz ao Reino.

 Vem, para arrancar-nos, numa ventania de verdade e graça, 

 de tantas raízes de mentira e medo que nos escravizam.

Vem, feito uma brisa, para amaciar-nos, feito um fogo lento, um beijo gostoso, 

a paz da justiça, o dom da ternura, a entrega sem cálculos, o amor sem cobrança,

a Vida da vida. Vem, pomba fecunda, sobre o mundo estéril 

E suscita nele a antiga esperança, a grande utopia da Terra sem males, 

a antiga, a nova, a eterna Utopia! Vem,  vamos, Espírito!”   Dom Pedro Casaldáliga 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações

contato@marcelobarros.com