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Seguir Jesus para a Amazônia da vida

Seguir Jesus para a Amazônia da vida.

(Leitura orante e militante do evangelho Lucas 13, 22- 30)

                Na preparação do  Sínodo da Amazônia,  a REPAM fala em amazonizar toda a Igreja no sentido de torná-la uma Igreja dos pobres e que pensa sua missão a partir da periferia. É a porta estreita da qual fala o evangelho. Estou voltando de Cametá no interior do Pará, nas margens do Tocantins, a cinco horas de barco  de Belém. Viagem exigente para quem tem problemas de locomoção e ainda se recupera de cirurgia no quadril. No entanto, se, como diz o evangelho desse domingo, “a porta é estreita” e o caminho é árduo, a alegria do encontro e das comemorações dos 50 anos das comunidades eclesiais naquela diocese merece o esforço como resposta à graça divina e alegria que não tem preço. 

No evangelho lido pelas comunidades nesse 21º domingo comum do ano (Lucas 13, 22- 30), Jesus continua com seus discípulos e discípulas a caminhada para Jerusalém. Jesus está consciente de estar marchando para a cruz. Nesse contexto, alguém lhe pergunta: se são muitos ou poucos os que se salvam. Parece ironia perguntar isso a quem sabe que caminha para a condenação e morte.  O povo diria: é falar de corda em casa de enforcado. 

Essa questão se são poucas ou muitas as pessoas que se salvam era muito debatida nos círculos religiosos judaicos. Um rabino de Israel dizia: “Pode ser considerado um filho do mundo futuro quem habita no país de Israel, fala a língua santa e recita de manhã e à tarde a oração do Shemmá”[1]. Jesus investe contra essa falsa segurança. Diz que não existem privilegiados. Religião não salva ninguém. O reino de Deus é gratuito e universal e o único critério de participar dele é praticar a justiça ( Sl 6, 9). 

A imagem da “porta estreita” pode dar uma impressão rigorosa e dura de Deus e da salvação. Provavelmente, essa imagem vem da tradição judaica. "Em hebraico, o termo usado para "lugar estreito" (mitsraim) é como o povo antigo denominava o Egito, isso é o lugar de onde os hebreus tiveram de sair para se libertar"[2].  De fato, o livro do Êxodo conta que os hebreus tiveram de passar por um estreito, entre o Mar Vermelho e o deserto ardente. Ao transformar a imagem de "lugar estreito" em  "porta estreita", a comunidade de Lucas diz que Jesus indica que o reino é acolhida, mas o lugar a partir do qual ele é aceito e a pessoa se insere no projeto divino é o Egito, a porta estreita, isso é, a inserção no mundo dos que sofrem. Esse é o lugar onde Deus e o reino podem ser acolhidos. Quando no final da semana passada, junto com Zé Vicente, fiquei hospedado na Comunidade da Trindade e pude durante aqueles dias conviver com os/as sofredores de rua e os irmãos e irmãs que se dedicam a cuidar deles e delas, a todo momento, eu sentia que podia tocar a Deus com o dedo: ele era palpável e ao meu alcance ali naquelas pessoas. E eu me sentia como se estivesse permanentemente no sacrário. Claro que eu podia dizer isso mistificando a luta e a realidade a um ponto irreal e mítico. Quem me conhece sabe que procuro não fazer isso. Não desconheço os impasses, a dialética da história e o rumo que vai além de simplesmente inserir-se no meio dos pequeninos para transformar a realidade e fazer o que seria a revolução de tudo. O evangelho de hoje simplesmente nos lembra que o ponto de partida é essa passagem estreita, a inserção como base para a saída, (êxodo), passagem para a libertação. 

Quantos de nós aceitamos viver a fé e a espiritualidade de êxodo, de saída, de ânsia e busca de libertação, não somente para si mesmo e sim para todos e todas? A imagem da porta estreita e a resposta de Jesus é para uma pessoa, mas a comunidade de Lucas fala isso para a comunidade. De fato dá impressão de rigidez (se esforcem, cuidem de entrar) . Mas, ter  de passar pela porta estreita não é exigência de Jesus. É condição histórica, social e política para "passar ao reino" quando se vive em um mundo que é o anti-reino, quando se vive nesse Brasil dominado pelo contrário de tudo o que é a proposta divina para a humanidade. O papa Francisco propõe uma Igreja em saída. Isso é a passagem estreita. Aceitar profeticamente se colocar na direção contrária à política opressiva em que vivemos. 

Para sublinhar ainda mais isso, Jesus usa a imagem do banquete no qual quem devia estar dentro fica de fora e quem era visto como de fora entra... A imagem do banquete vem de Is 25, 6- 8. Até hoje cada Igreja e muitas religiões continuam se colocando como garantias de salvação. Jesus diz: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente e se sentarão à mesa do reino”.Pessoas de todas as  religiões, ou muitos sem nenhuma religião, sentar-se-ão à mesa do reino, enquanto muitos que se consideram dentro poderão ouvir: “Não vos conheço!”. Esse trecho do evangelho é uma lição de macro-ecumenismo. O banquete do reino divino é muito mais amplo e aberto do que nossas Igrejas. Vai até além das religiões. As religiões só ajudam se, de fato, servem para nos tornar pessoas empenhadas com a justiça e o direito. 

Para mim, me delicio nesse banquete por viver e sentir a amizade de tantos irmãos e irmãs, no qual me apoio humanamente e com os/as quais sinto que posso ser eu e possibilito que eles/elas sejam o que são e como são. Que festa esse amor profundo que é a koinonia, comunhão, para além de quaisquer instituições. Como é bom me sentir assim com vocês. 

Nessa terça-feira, 27 de agosto, no Brasil, fazemos memória da Páscoa de três bispos profetas que, coincidentemente, partiram para Deus nesse dia: Dom Helder Camara, do qual celebramos 20 anos de sua Páscoa (1999), Dom Luciano Mendes de Almeida (2007) e há dois anos (2017), vimos partir o querido Dom José Maria Pires. Esses pastores eram bem diferentes um do outro, mas tinham algo em comum: cada um do seu modo e com seu estilo próprio, se colocaram como servidores do povo pobre e testemunhas do Amor Divino nas lutas pela justiça e pela paz. 

Atualmente, para nós brasileiros, o banquete do bem-viver, ao qual Deus nos conduz é concretamente a passagem estreita da defesa da Amazônia, a luta pacífica contra as mineradoras que escravizam o povo simples e destroem as águas e a terra, a luta em comum contra o agronegócio que, apenas para obter lucro destrói a saúde da população com alimentos envenenados pelos agrotóxicos, destrói a natureza e a vida, mas principalmente a defesa dos povos indígenas e de todas as comunidades originárias e de ribeirinhos. É ali que mora Deus e nos espera para nele e com ele nos sentarmos na festa da Vida.   

 

 



[1]- Cf. RINALDO FABRIS,  Il Vangelo di Luca, in OBRA COLETIVA, I Vangeli, Assisi, Cittadella, 1978, p. 1- 144. 

[2]- Cf. NILTON BONDER, A alma imoral, Rio de Janeiro, Rocco, 1998, p. 47. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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