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Ser livres como Jesus

                 No evangelho lido nas Igrejas nesse 9o domingo do ano B, (Marcos 2, 23- 3, 7), o que me impressiona é de um lado a liberdade que Jesus revela ter em relação à lei e a tudo quando se trata de se colocar em defesa das pessoas que sofrem ou que são marginalizadas. E como ele manifesta essa liberdade até o ponto de provocar os adversários. 

Para a tradição judaica, a instituição do Sábado é o auge da criação divina, o sinal mais característico da aliança com Deus. É o que há de mais santo e deve ser sempre observado e vivido. De fato, é difícil imaginar no mundo antigo uma instituição que garanta o descanso semanal de todos, do patrão ao escravo e até aos animais. Até hoje, o hebraico moderno traduz greve por shabbat. O sábado é o direito religioso e libertador que garante o descanso do trabalhador. No entanto, na época de Jesus, o rigor da lei tinha transformado o sábado em uma prescrição que oprimia. Os rabinos discutiam se uma mulher entrasse em trabalho de parto no sábado, se a parteira deveria atender ou não... E para mostrar que o sábado só seria de Deus se for da libertação, Jesus passa a curar só em dia de sábado. Segundo Lucas, um chefe de sinagoga critica a Jesus: "Existem seis dias para trabalhar. Venha, então, em um desses dias curar as pessoas e não justamente no dia de sábado"  (Lc 13, 14). 

Mas, Jesus rejeita as prescrições religiosas e os ritos se esses não servem para libertar as pessoas. "O sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado. Portanto, o Filho do Homem, (na língua original, todo ser humano) é senhor do sábado..."(Mc 2, 28).

Essa é a fé de Jesus: uma mística libertadora que testemunha um Deus que não é narcisista. É apaixonado pela pessoa humana e por isso é defensor e libertador de toda pessoa oprimida. Como seria bom que esse evangelho proclamado em todas as Igrejas e santuários do mundo católico e evangélico tradicional pudesse libertar as pessoas, inclusive os padres e pastores, de tantas prisões nas quais, em nome de Deus, eles se colocam e prendem as pessoas às quais deveriam ajudar a se libertar. 

Nesses dias, o Sínodo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. É provável que isso traga problemas na relação ecumênica com outras Igrejas cristãs que não interpretam o evangelho como boa nova da liberdade e é provável que traga conflitos mesmo nas bases da própria Igreja anglicana na qual, muitas vezes, as comunidades absorvem os códigos de ética da sociedade burguesa como se tivessem vindo diretamente do evangelho de Jesus. 

Independentemente do que cada um pensa ou deixa de pensar, é incrível que uma Igreja estabeleça em nome de Deus o que a Igreja pode ou deve abençoar e o que não deve. Parece um cardeal do Vaticano que contestou o papa Francisco afirmando: A misericórdia tem limites. E o papa respondeu: Qual misericórdia? A de Deus ou a sua?

Aqui na Itália, recebi por uma rede social a notícia de que o padre reitor do Santuário de Aparecida está sofrendo pressões de superiores e de setores tradicionais católicos e teve mesmo de se retratar pelo fato, de ter expressado no santuário uma prece pelo ex-presidente Lula. O que Jesus diria sobre isso? 

O evangelho de hoje continua com a cena da cura de um homem entrevado (um homem que tinha a mão ressequida). De acordo com as leis, ninguém com defeito físico podia entrar no recinto sagrado do templo, nem de uma sinagoga. Teria de ficar do lado de fora das grades, porque, de acordo com o pensamento dominante religioso, se tem uma doença ou defeito físico, esse foi dado por Deus e isso significa que Deus não o quer no santuário. Jesus toma o homem doente pela mão e diz o texto "o coloca no centro da sinagoga". Eu me lembro de uma senhora de comunidade de base em Goiás que me perguntou: "O próprio evangelho diz que não saiba a tua mão direita o que faz a esquerda. Jesus não podia ter curado esse homem em segredo, sem chamar a atenção de ninguém?" Pois é. Não foi o que ele quis. Quis provocar. Quis fazer um ato público de provocação, passando por cima do costume religioso e afrontando os mestres da lei presentes na sinagoga. Diz o texto de Marcos: "Colocou o homem no centro e olhou em volta para os assistentes. E olhou-os com raiva, com indignação".Nunca vi uma imagem ou pintura de Jesus com expressão de raiva. Vocês já viram? 

            Espero que ele não olhe com raiva quando vê que representantes da Igreja, em nome dele, se pronunciam sobre a realidade atual do país, mais com diplomacia do que com profecia. Mais com posições conservadoras e pensando no seu poder e prestígio do que no bem e na libertação do povo pobre. Que o Espírito de Deus nos converta e nos dê a graça de viver a liberdade profética de Jesus e com Jesus.  

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Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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