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Sinais e instrumentos de esperança (6a circular da quarentena)

Arriscar a esperança em uma sociedade do medo

(6ª circular desta Quarentena)

(Dedicada ao irmão e amigo Dimas Galvão – CESE – Salvador, BA) 

Recife, 6ª feira, 19 de junho 2020

                       Queridos irmãos e irmãs,  

Não se aflijam como as pessoas que não têm esperança”, pedia o apóstolo Paulo aos cristãos da cidade de Tessalônica, na Grécia de sua época (1 Ts 4, 13). Do mesmo modo, outro escrito apostólico afirma: “Vocês devem estar sempre prontos a dar a razão da esperança que vocês têm a qualquer pessoa que lhes pedir isso” (1 Pd 3, 15). 

Na realidade atual que vivemos e olhando o panorama do mundo, não é fácil cumprir estas recomendações vindas da fé. No entanto, mais do que nunca, precisamos de esperança. Há quem faça distinções entre o verbo esperar e esperançar. Na linguagem atual, podemos fazer esta distinção. O esperar pode significar uma postura passiva e o esperançar é agir na força da esperança. Afinal, há mais de 50 anos, Vandré cantava: “Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer”. No entanto, em termos bíblicos, esperar já é atitude revolucionária de vigilância e ação transformadora. 

Embora viva de modesta aposentadoria e nada possua de bens materiais, não me sinto com direitos de, sentado em meu quarto, pedir esperança a quem está dando a vida em meio a uma luta inglória e a trabalhos não reconhecidos. O que posso fazer é partilhar com vocês sinais e instrumentos da minha esperança. Razões da esperança existem. Como dizia Rubem Alves: o otimismo é por causa de... e a esperança, apesar de... A minha vem da fé e da confiança de que o reino de Deus é, como disse Jesus, uma sementinha de mostarda (ele falava da mostarda selvagem). Se como praga, cai no campo, o proprietário pode fazer tudo para acabar com ela, não consegue. De fato, na história da humanidade, em várias situações, quando as coisas pareciam ter chegado ao pior possível, algo provocou mudanças na linha da libertação. No auge da ditadura militar brasileira, aquela realidade parecia que nunca iria acabar. Acabou. O império romano com um poder imenso no mundo caiu. O nazismo perdeu a guerra. O Capitalismo e este modelo de sociedade podem ser transformados. Mais do que razões da esperança, procuro sinais que a confirmam e instrumentos que a fortalecem. 

O primeiro sinal que me dá esperança é o testemunho de vários irmãos e irmãs: neste contexto da pandemia e do grande sofrimento para tanta gente, a solidariedade também tem crescido e se manifestado de modo surpreendente. É impressionante ver a dedicação de muitos/as profissionais de saúde nos hospitais e centros de saúde. Podemos também falar nas pessoas de área de serviço, como nas equipes formadas para dar ajuda às pessoas mais vulneráveis nas periferias. E muita gente da área artística tem gravado shows gratuitos para que as pessoas fiquem em casa; se têm facilitado acesso a obras de arte e assim por diante. Há poucos dias, um artigo de Emmanuel Almada, biólogo, afirmava: “O amor também é fenômeno biológico, como belamente demonstrado por Humberto Maturana. Segundo o neurobiólogo chileno, “o amor é fenômeno biológico que não requer justificação”. É o amor a emoção que fundamenta a socialização, uma vez que é ele que permite os encontros recorrentes entre os indivíduos. Para Maturana, o movimento contrário ao amor é a rejeição e a indiferença. 

Ao alargar o espectro do amor para os outros sistemas vivos, é possível compreender o amor como base de todas as alianças, não só entre humanos. É essa tendência de viver juntos, de atenção e aceitação da diferença que permitiu, ao longo da história ecológica da terra, o encontro entre espécies, inclusive entre parasitas e seus hospedeiros. Foi assim, num processo amoroso, como nos ensinou Lynn Margulis, que há bilhões de anos, na imensidão dos mares primevos, uma bactéria aeróbica penetrou em outra anaeróbica (como parasita ou como alimento, não se sabe), formando os primeiros eucariotos dos quais descendemos (Lynn, 1967, p. 14). (...) É o jogo autopoiético[1] que caracteriza o encontro entre sistemas vivos descrito também por Maturana e Varela, onde se muda para continuar a ser (o mesmo)[2].

 Então, se o coronavírus contamina, o contágio do amor é maior e mais profundo. E assim como temos esta manifestação do amor em doses do cotidiano na vida de tanta gente, podemos também contemplar este mesmo amor solidário em projetos de dimensão maior e na vida de pessoas que lutam em palcos mais amplos. 

No âmbito do Brasil, é consolador testemunhar o esforço de alguns jovens que começam a animar pela internet o surgimento do MEL (sigla do Movimento de Espiritualidade Libertadora) e como abelhas trabalhando na colmeia, animados com muito amor pela querida Rose Fernandes e, na medida em que posso, por mim, estão construindo algo que, já no plano das relações pessoais e do modo de pensar a vida, começa a mudar a vida de vários destes rapazes e moças. 

Assim, poderia falar do MST, Caritas e tantos outros grupos e movimentos inseridos nas ações solidárias em várias regiões do Brasil. Mas, gostaria de sublinhar aqui o testemunho de pessoas e especificamente desta vez de alguns irmãos e irmãs que, apesar da idade, continuam a viver o profetismo da esperança e da jovialidade do espírito. Poderia citar nosso patriarca Pedro Casaldáliga, tão alquebrado e sempre optando pela vida. E com o testemunho de toda uma vida consagrada ao povo mais empobrecido. E assim, que alegria me sentir amigo de pessoas como Luiz Alberto Gomez de Souza e Lúcia, me lembrar da caminhada em comum desde os anos 70 com meu amigo Pedro Ribeiro, sentir nos olhos de Leonardo Boff e Márcia, que estamos sempre juntos no mesmo caminho de amizade e parceria. E poderia citar tantos outros irmãos e irmãs. Mas, queria me deter nesta circular em duas figuras paradigmáticas e representativas de muitas outras. 

Ao menos de nome e de fama, muitos de vocês conhecem o querido irmão e mestre Chico Whitacker. Aos quase 90 anos, continua animando o Fórum Social Mundial, do qual é um dos fundadores. Desde jovem, e como me disse uma vez “motivado pela fé”, Chico se dedica a transformar o mundo. Foi exilado do Brasil pela ditadura militar. Quando voltou, foi vereador em São Paulo. Por muitos anos, foi presidente da Comissão de Justiça e Paz da CNBB. Em anos mais recentes, trabalha incansavelmente contra as armas nucleares e a política nuclear brasileira. Quando ainda hoje, o encontro nos fóruns e reuniões da vida, sempre vislumbro nele um olhar de amor solidário e profunda esperança na vida. 

Outra figura é Riccardo Petrella (77). Economista e cientista social, foi dos intelectuais do chamado “grupo de Lisboa”. Fundou o Fórum Alternativo Mundial da Água. Liderou campanhas italianas como “Tornemos ilegal a pobreza”. Desde 2017, coordena um movimento para que a sociedade civil se organize como “Ágora dos/das Habitantes da Terra”,  em torno de três eixos básicos:

1º - Ao lado da ONU, que se possa constituir uma OMHU: Organização Mundial da Humanidade, que possa falar não só em nome dos governos, mas em nome da humanidade, das pessoas comuns.

2º - Que todos os seres humanos possam receber uma “carteira de cidadão/ cidadã da Terra e esta carteira lhe dê o direito de viver e ser reconhecido como irmão e irmã em todos os continentes. 

Em vários países, simbolicamente, já se conseguiu apoio de prefeitura ou governos estaduais e já se distribuíram algumas destas carteiras, mesmo se ainda não são reconhecidas pelo poder nacional. Estas carteiras foram dadas simbolicamente a pessoas cuja cidadania e cujos direitos não estão sendo reconhecidos (migrantes, pessoas da rua, etc). O fato de dar a carteira não os tirou da situação de precariedade, mas lhes deu força e legitimidade para prosseguir na luta com mais força. 

3º - Junto a todas as organizações da sociedade civil, se trabalhe uma Carta dos Direitos da Vida, na mesma linha da Declaração dos Direitos Humanos e da Carta da Terra. Esta carta declare que a terra, a água, o ar, a saúde, a educação, as sementes crioulas e outros elementos sejam considerados bens comuns da humanidade e não possam ser comercializados. 

Agora, neste contexto da pandemia, se quer chegar à próxima assembleia geral da ONU em setembro com a proposta de que as vacinas contra o Covid 19 e contra todos os vírus que ameaçam a humanidade sejam gratuitos para todos/as os/as habitantes da Terra. Esta campanha está colocada em um manifesto, a ser espalhado. Todos nós podemos assinar e divulgar. Nestes dias sairá oficialmente o novo site: ágora brasil. Este site trará todas as informações sobre como cada pessoa pode participar e como associar a organização da qual faz parte nesta campanha maior. 

Este processo da Ágora dos/das Habitantes da Terra já tem grupos formados em vários continentes. Na América Latina, conta com a participação de Monsenhor Luis Infanti, bispo da diocese de Aysén, na Patagônia chilena e de um grupo do Chile. Na Argentina, Anibal Facciendini é professor da cátedra da Água na Universidade de Rosario e coordena um grupo da Ágora ali. No Uruguai, é um jovem (Diego Pereira) que começa este trabalho no país. Na Venezuela, um ex-ministro de Hugo Chávez está na coordenação internacional. No Brasil, a equipe nacional conta com Marcos Arruda, que não preciso apresentar, o professor Luiz Rena de Betim, MG, Terezinha Cravo, do Movimento Fé e Política, representantes do Fórum de Saúde e Segurança Pública, Fórum Panamazônico, pessoas da Caritas, da PJ e assim por diante. 

Poderia continuar descrevendo outros sinais de esperança. Nas Igrejas o Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL) continua ativo e se preparando para participar do próximo fórum social marcado para janeiro de 2021, na Cidade do México. Ainda não há certeza se este fórum poderá ser presencial ou se terá de ser ainda virtual e como processo que se vai engravidando até um dia dar à luz a este novo mundo possível que desejamos e do qual precisamos cada vez mais. De todo modo, são rostos da esperança para alimentar a esperança de cada dia em nossos corações e nossas vidas. 

No final desta circular, como sempre feito na madrugada, me despeço com uma bênção do apóstolo Paulo na carta aos romanos: “O Deus da perseverança e da consolação vos dê plena compreensão uns dos outros ... Que o Deus da esperança vos encha de toda a alegria e paz na fé pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15, 5. 13).

Deus os/as abençoe e vamos juntos como peregrinos/as da esperança maior. Abraço carinhoso do irmão Marcelo    



[1] - A autopoesis é a capacidade dos organismos vivos se autoproduzirem em uma relação de interdependência e permanente renovação. É um fenômeno biológico das células, mas atinge também a vida em todas as suas dimensões (Maturana, 1998). 

 

[2] - Cf: https://kaiporabiocultural.com/2020/06/07/nao-e-um...

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações

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