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Toda dívida será cancelada

Toda dívida será cancelada

                  Neste XXIV domingo comum do ano A, o evangelho de Mateus 18, 21 a 35 nos traz uma das parábolas mais estranhas e deslocadas do evangelho. Desde jovem, aprendi com Joachim Jeremias que Jesus não inventou suas parábolas. Tirou-as de fatos que ocorriam no cotidiano da vida. E aprendi também a diferença entre parábola e alegoria. Na alegoria, (por exemplo a história das dez moças que, como damas de honra, esperam o esposo chegar para as bodas), cada termo da parábola tem um significado. Na parábola não adianta querer associar cada termo. O sentido é geral e a história tem apenas uma meta. E é contada mesmo se em seio houver incoerências. Apesar disso, se eu pudesse quando lia o evangelho, pulava esta parábola que, conforme Mateus, Jesus contou para explicar a Pedro e aos discípulos o dever de perdoar sempre mutuamente as dívidas econômicas, sociais e morais. 

Provavelmente, neste domingo, baseados nesta parábola, muitos bispos, padres e pastores/as pregarão sobre Deus como um senhor de escravos que vendeu como escravo um servo, sua mulher e todos os seus filhos. O tal senhor fez isso para se vingar do fato de que este servo tinha sido perdoado pelo patrão de uma dívida imensa e não perdoou o pequeno débito de um companheiro. E muitos pregadores repetirão a palavra que o evangelho de Mateus pôs na boca de Jesus: “Assim o Pai do céu tratará a vocês se não perdoarem de coração a seus irmãos e irmãs” ( v. 35). 

Muitos destes bispos, padres e pastores continuarão a pensar que só quem faz leitura fundamentalista dos textos bíblicos são grupos pentecostais ou católicos carismáticos muito conservadores (criacionistas da teoria da Terra Plana). Não sei muito qual é a diferença disso com esta imagem de Deus absolutamente oposta à imagem que Jesus dá do seu Paizinho (Abba) quando diz no discurso da montanha: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem. Assim vos tornareis filhos e filhas do vosso Pai dos céus, pois ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5, 44- 45). 

A leitura fundamentalista desta parábola do servo infiel dificilmente vai perceber a contradição entre o que Jesus tinha dito poucos versículos antes do mesmo evangelho e a história que a comunidade de Mateus fez ele contar. Ele tinha acabado de ensinar que “se teu irmão pecar contra ti o corrige em um diálogo a sós com ele, se ele não ouvir ainda tem a chance de ouvir duas ou três testemunhas e finalmente a comunidade reunida” (Mt 18, 15). E quando Pedro pergunta “quantas vezes tem de perdoar ao outro que errou”, Jesus responde “até setenta vezes sete vezes”. Mas, o tal senhor do servo infiel não admitiu segunda chance. Mandou vender a família inteira como escravos. E a parábola termina comparando isso com a forma como Deus fará conosco, se não perdoarmos uns aos outros. É claro que esta parábola foi inserida neste contexto do final do discurso de Jesus sobre a comunidade, mas ficou deslocada e a conclusão é inadequada. Dificilmente, Jesus teria dito isso deste modo. 

É claro que a parábola retrata a realidade social de uma Palestina na qual as pessoas podiam ser vendidas como escravas por causa de dívidas impagáveis. Jesus ensina que não devem existir dívidas impagáveis e que todos temos uma dívida com Deus e este nos perdoa, mas pede e espera que nós também perdoemos aos nossos devedores. Perdoar não é apenas uma atitude moral ou de bondade. É opção de fé e de quem quer transformar o mundo. Jesus nos revelou que o seu Abba (Paizinho) não quer que ninguém se perca e, sobretudo, vive nos perdoando, sempre, setenta vezes sete. Nós todos somos pequeninos/as e pecadores/as perdoados/as. Sem esta consciência não há Igreja. Não há reino, ou seja, projeto de Deus no mundo. Por isso, na oração do Pai Nosso, pedimos: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12). 

A história contada pela comunidade de Mateus nos anos 80 é da sociedade política da época. Hoje no mundo, países inteiros são esmagados por outros e impedidos de proporcionar uma vida digna ao seu povo por causa da dívida externa. O Banco Mundial, o FMI e governos ricos exigem de juros anuais da dívida o triplo do que foi emprestado. 

Nesta terça feira, através de vídeo-mensagem, o papa Francisco falará à assembleia geral da ONU sobre como podemos reorganizar a vida depois da pandemia. Conforme o Vaticano, o eixo central da palavra do papa é: "De uma crise se sai ou melhor ou pior. Depende de nós. Não podemos, na ordem mundial e local, repetir os mesmos modelos socioeconômicos de um ano atrás, nem ajustá-los ou envernizá-los um pouco. Isso seria pior."  

O papa proporá o total e imediato cancelamento da dívida externa ds países pobres. Proporá o fim da fabricação e consumo de armamentos e pedirá novo compromisso da ONU em relação ao cuidado com a Terra. 

               Não adianta dizermos estar de acordo com as propostas do papa para a sociedade internacional se, na nossa vida pessoal e nas relações interpessoais, agimos de forma contrária. É importante sim nos perdoarmos uns aos outros e cancelar as dívidas e perdoar as culpas uns dos outros/as, para vivermos a gratuidade do reino de Deus. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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