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Trinta dias da páscoa de Pedro Casaldáliga

Um mês da Páscoa de Pedro

                 Na conjuntura pesada em que vivemos no Brasil, com a pandemia que já matou quase 130 mil pessoas e atingiu mais de três milhões de pessoas contagiadas, mas principalmente com o descalabro que tomou conta do país em termos políticos, é compreensível que a morte de Pedro Casaldáliga tenha comovido muita gente e as comemorações e homenagens a ele continuem se multiplicando. Pedro representa para nós todos os nossos melhores sonhos e esta possibilidade maravilhosa da fé ser vivida como força revolucionária de transformação do mundo. 

Do meu distanciamento social no Recife, acompanho lives, videoconferências e liturgias virtuais em homenagem a Pedro. Vejo e escuto milhares de testemunhos sinceros e fico comovido com o carinho merecido que milhares e milhares de pessoas expressaram a ele neste mês que passou desde sua partida. 

Na cultura bororo, próxima a São Félix do Araguaia nas reservas de Meruri e outras ligadas a Barra dos Garças, os índios continuam praticando o antigo costume de sepultar os mortos em covas rasas durante um mês, a cada dia fazer ritos fúnebres com o choro ritual. Depois de um mês, o desenterram, limpam os ossos, sepultam definitivamente e fazem uma festa de comunhão. De fato, há uma sabedoria nisso. Quando morre alguém nosso, no primeiro momento, somos tomados pelo choque e, de certa forma, parece que não conseguimos ainda visualizar a perda e processar o luto. Só com o tempo (por isso é bom a celebração dos 30 dias), começamos a viver o tempo depois da partida que não deixa de ser de comunhão e saudade, mas não de choque e inaceitação. 

Durante anos, convivi com Pedro muito de perto. Desde que cheguei à diocese de Goiás em 1977, trabalhamos juntos na CPT e no CIMI, sem falar nas muitas assessorias que prestava à prelazia nestes quase 30 anos (de 1977 a mais ou menos 2003). Naqueles anos, várias vezes, ele e a equipe da prelazia me convidaram para participar de assembleias e encontros bíblicos e de pastoral. Penso que preguei dois ou três retiros anuais da prelazia. Minha experiência sempre foi de que nesses encontros, eu era muito mais ajudado do que podia ajudar, muito mais formado por eles do que podia dar alguma assessoria. Nas assessorias de CPT e CIMI, no começo dos anos 80, muitas vezes, viajamos juntos de ônibus de Goiânia a Salvador e ao interior de Minas. Não esqueço o seu malabarismo para sempre viajar de Goiânia à prelazia, tomando ônibus durante a noite toda até São Miguel do Araguaia e lá o aviãozinho de linha que o levava a São Félix. 

Uma vez,  no começo dos anos 90, ele tinha me convidado para um retiro em São Félix e eu cheguei na tarde do domingo. À noite daquele mesmo domingo, Pedro tomou o ônibus em Goiânia para São Miguel. Ele  vinha de uma assembleia dos bispos da região. Tinha sido uma assembleia tão tensa e tinha lhe deixado tão triste e abatido que lhe atacou uma febre e mal estar. No meio da noite, no ônibus, ele se sentiu mal e pediu ao motorista para dar uma parada e desceu. O motorista achou que ele ficaria lá e foi se embora com o ônibus e com a mala e tudo o que ele levava na viagem. Chovia muito. Ele ficou sozinho e, sem mala, nem dinheiro, às duas da madrugada, no meio da chuva e do nada de um ponto qualquer do Cerrado. Eram mais ou menos duas da madrugada. Ele andou na chuva e no frio (com febre) até encontrar um casebre onde um casal de lavradores o acolheu, lhe deu roupa enxuta e ali Pedro passou o resto da noite. De manhã cedo, acorda com o casal escutando o rádio e ouvia a sua própria voz explicando o evangelho. E o homem lhe informou: “Diariamente, pela manhã,  só vou para o trabalho depois de ouvir a palavra do nosso bispo Pedro”. E ele hesitou em lhes dizer que ele era o próprio bispo Pedro. Lá em São Félix, eu e todos o esperávamos sem saber o que tinha acontecido e ele só chegou no avião seguinte (24 horas depois). 

Podia contar muitos casos assim dos quais me lembro com reverência filial e saudade. Mas, esse meu testemunho é para falar dele e não de mim. Poucos bispos que conheci atravessaram o túnel dos tempos de João Paulo II e Ratzinger, incólumes à sua fé,  fieis à orientação do Concílio Vaticano II e Medellín; perseverantes no testemunho do reino, mesmo quando a maioria dos outros bispos católicos não era. 

Nos meados dos anos 80, quanto bem você, Pedro, fez, em sua missão pela Nicarágua sandinista, por El Salvador, pela América Central e ainda Cuba... Quanta dor em ver que o próprio papa não o apoiava. Alguns bispos locais pressionavam o Vaticano. E o Cardeal Sodano, secretário de Estado, o ameaçava e exigia, em nome do papa que você abandonasse aquela missão. Na ocasião, você confessava aos mais próximos: “Obedeço quando é para cumprir o evangelho, mas não quando é para me descumpri-lo e falhar com os irmãos que sofrem. Nesse caso, serei obrigado a renunciar ao ministério de bispo, mas continuarei junto deles”. 

Como resumir tudo o que os Xavantes, Tapirapés e Karajás da ilha lhe devem na defesa de suas terras e suas culturas? Obrigado por ter aprendido de você esse amor reverencial que até hoje me comove, quando encontro um índio e, nele ou nela, posso adorar a figura de Jesus, meu mestre e Senhor. Você sempre uniu a sua profunda fé  orante e a certeza de que não há caminho de justiça e paz dentro dos padrões do Capitalismo e nessa farsa de Democracia que ainda temos. Sempre deu apoio total e profundo à nossa investigação teológica (da ASETT) sobre o Pluralismo Religioso e os muitos nomes de Deus. 

Quantas coisas eu e tantos/as cristãos/ãs lhe devemos nesse caminho de uma espiritualidade social e política libertadora? Só podemos agradecer lhe confirmando hoje que vamos sim nos manter firmes no caminho, vamos sim, mesmo conscientes de nossa pobreza, continuar a sua profecia nesse mundo e, mesmo sem ter sua veia poética e sua profunda inteligência espiritual, vamos  lutar para permaneça sempre viva a sua chama mística e revolucionária. Qualquer pessoa que, alguma vez, o tenha encontrado, sentiu em você, como que exalando de sua pele, a presença viva do Espírito de Ternura que sempre o inspirou e o moveu. Muito obrigado, PEDRO, profeta da ternura revolucionária, mártir que não conseguiram matar...

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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