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1 de janeiro: Oitava do Natal

                           1 de janeiro:  Oitava do Natal 

                           (Festa de Maria Mãe de Deus) – Lc 2, 16-21

 A Palavra Divina se faz carne em nossas coletividades

                 Na Liturgia deste tempo de Natal, se repete muito esta palavra do Evangelho: “A Palavra se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). É o evangelho lido durante o dia 31 de dezembro. É o nosso modo de reconhecer a presença divina na pessoa do homem Jesus de Nazaré. Dom Pedro Casaldáliga pedia para que alargássemos o mais possível a compreensão dessa verdade de fé. Ele afirmava: “O Verbo se fez índio”. “O Verbo se fez carpinteiro na oficina de José”.  Isso significa que o Cristo, como Palavra de Deus assume nossas realidades, nossas famílias, nossas culturas. 

Até que ponto, você que está lendo essas linhas acredita profundamente nisso? 

O nosso irmão e companheiro de comunidade Gildo Xucuru nos diz que, nesses primeiros dias do ano novo, os sábios do povo Xucuru costumam ir para a serra sagrada do Ororubá (município de Pesqueira, PE). Na montanha, os sábios indígenas passam a noite em vigília à espera do amanhecer. Quando, no horizonte, aparece a primeira barra do dia, ao olharem o céu, dizem algo sobre o ano novo que se está iniciando. Em sua sabedoria ancestral, escutam a voz da natureza e reconhecem nela uma revelação divina sobre a vida para este ano novo. Aqui fica o convite para acolhermos as sabedorias ancestrais como expressões da encarnação da Palavra de Deus que se faz carne e continua sua encarnação entre nós e em nós. 

 

Nesse primeiro dia do ano, as Igrejas antigas celebram o oitavo dia da festa do Natal quando a tradição recorda a circuncisão, rito no qual, com oito dias de nascido, o menino recebe oficialmente o nome de Jesus. A partir de uma tradição antiga, a Igreja Católica dedica esse dia a Maria, mãe de Jesus e os últimos papas consagraram o 1º de janeiro como “dia mundial da paz”, assim como a ONU fala em “dia da irmandade universal”. 

De acordo com o lecionário ecumênico, o evangelho lido nas comunidades é Lucas 2, 16- 21. Começa pelas palavras “Quando os anjos se afastaram, os pastores disseram uns aos outros: Vamos a Belém para ver o que aconteceu”. Parece final de festa. O extraordinário parece ter passado e agora se trata de ver a realidade. Os pastores ouviram uma palavra maravilhosa de promessa de salvação. Foram a Belém, mas o que encontraram ali foi uma realidade muito simples, muito pobre e sob certo ponto de vista decepcionante. O desafio foi ver aquela família pobre e sem teto e ver ali o começo da realização de um projeto maravilhoso de Deus. 

Em nossas vidas, muitas vezes, é preciso que também os anjos tenham se afastado. Às vezes, ao ver e ouvir pessoas religiosas, temos a impressão de que ainda se imaginam na presença de anjos. Não se deram conta de que os anjos se foram embora. A missão nos envia à inserção no meio do povo, sem anjos nem sinais do céu. Só mesmo a abertura para ver a presença e atuação do amor divino no meio da vida como ela é...

Este evangelho é praticamente o mesmo lido nas celebrações da aurora e da manhã do dia 25. Acrescenta-se apenas o verso 21: 

Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo, antes de ser concebido”.

Em nossos dias, vemos a circuncisão como rito de culturas patriarcais. A chamada circuncisão das meninas é uma crueldade violenta contra a mulher e o seu corpo. No entanto, se formos ao sentido original do rito praticado com os meninos machos recém-nascidos, ele simboliza que, desde muito crianças,  somos tocados no que há de mais íntimo de nós mesmos, na própria identidade sexual, para que todo o nosso ser e o nosso corpo entrem em sintonia com o mais profundo do nosso projeto de vida. 

Ao lembrar a circuncisão de Jesus em seu oitavo dia de vida, podemos dar graças, ao ver como Deus assume a cultura humana de um povo, mesmo com aspectos culturais, como o patriarcalismo, que, hoje devemos criticar e superar. 

Ao dizer que aos oito dias de nascido, Jesus foi circuncidado, o Evangelho mostra que ele se inseriu plenamente na cultura do seu povo. Ao inserir-se na cultura coletiva e pertencer ao povo judeu, ele assume seus valores e também suas limitações e lacunas. E é nesse processo de inserção cultural e histórica que recebe o nome de Jesus. Ieoshuá significa “Deus é Salvação”. Hoje podemos traduzir o nome de Jesus como “Deus Amor é Libertação e Bem-viver”. A própria vida de Jesus tornou sempre verdadeiro o nome que lhe foi dado como missão. 

Hoje vivemos em um mundo no qual muita gente que diz ter fé testemunha um Deus patriarcal, violento, cruel e exclusivista, ou seja, amigos dos que lhe obedecem e inimigo dos que não seguem a lei que Ele, Deus teria imposto. 

Cada vez mais é preciso deixar claro que se cremos em Deus só pode ser um Deus que é Amor e Compaixão. Se, de fato, Deus é Deus, nunca pode ser fonte de ódio, intolerância e exclusivismo. O irmão Roger Schutz dizia: Deus só pode amar. De acordo com o evangelho, essa foi a missão de Jesus. Testemunhar isso seja a nossa missão neste ano novo.   

Desde antigamente, a Igreja Católica costuma celebrar nesta Oitava do Natal a maternidade de Maria. Contemplar em Maria, a mãe de Jesus é ver nela a imagem de toda comunidade de fé que gera Cristo em nós. Se não fosse Maria, não teríamos Jesus que nasceu de Maria. Se não fosse a comunidade de fé (a nossa comunidade) o mesmo Jesus não é gerado em nós, em nossas vidas e nossa missão. Então, ao contemplar Maria como mãe de Jesus deixemos que assim como este evangelho diz, também nós, como Maria, “guardemos todas essas coisas, meditando-as no coração”(v. 19).  

 

 uma prece da espiritualidade indígena

 “Ao despertar para um novo dia 

ou iniciar um caminho novo,

 olhamos para o Avô Sol 

e para o Espírito presente 

em todo o mundo que nos rodeia. 

 

Não o vemos, mas cremos que ele está ali 

e quer tomar conta de tudo 

através do comportamento certo que nos inspira. 

 

Se trilhamos pelo lado certo do bem e do amor, 

somos como os braços e as pernas 

do Espírito que nos move 

e vai mexendo com a gente para o lado bom, 

sem nem a gente notar” 

(Testemunho de um velho cacique Kayapó).  

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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