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!4a circular desta Quarentena - Nos 80 anos de vida do padre Henrique

Quando a noite se sucede à noite

(14ª circular da Quarentena)

Mesmo as trevas não são trevas para Ti. A noite é clara como o dia” (Sl 139, 12). 

Queridos irmãos e irmãs,

Acabo de saber pelo nosso irmão Valmir Assis, um dos meus assessores (da Comunidade Bremén, antiga secretaria ecumênica): hoje, o padre Antônio Henrique Pereira Neto, mártir da nossa Igreja de Olinda e Recife, se estivesse vivo, completaria 80 anos de vida. Pelo fato de que sua vida foi violentamente ceifada aos 28 anos, pelos algozes da Ditadura Militar em 1969, somos nós que temos de continuar a luta pacífica pela qual Henrique deu a vida.  

Lembro-me com emoção de quando, alguns dias depois do martírio de Henrique, o nosso arcebispo, Dom Helder nos chamou a mim, ao padre Ivan Teófilo (salesiano) e à irmã Pompea Bernasconi (agostiniana) e nos pediu que assumíssemos juntos a coordenação da PJ na arquidiocese para garantir a continuidade do trabalho de Henrique. Mas, é claro, Henrique só pode ser o mártir que foi, porque o seminário no qual foi formado, os padres que o acompanhavam e toda a Igreja da qual ele fazia parte era uma Igreja que vivia a profecia da renovação e uma opção libertadora. 

Nesta mesma data, no dia 28 de outubro de 1958, em Roma, os cardeais elegiam Angelo Roncalli como papa. Ele escolheu o nome de João XXIII, ficou conhecido como “o papa bom” e em sua bondade, abriu -se à inspiração do Espírito, a Divina Ruah, convocou o Concílio Vaticano II, que iniciou a renovação da Igreja que depois foi interrompida nos papados de João Paulo II e Bento XVI. Henrique nunca teria sido mártir se o seu modelo de Igreja fosse o que hoje é vigente e dominante na maioria de nossas dioceses, mesmo em tempos do papa Francisco que quer fazer a Igreja retomar o evangelho de Jesus.  

Menos de um ano antes do seu martírio, a conferência dos bispos latino-americanos em Medellín assinava e propunha o seguinte texto: “Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade” (Medellin. 5, 15 a).

Quantos de nossos bispos e padres na nossa Igreja atual assinaria ainda tal qual este texto? Graças a Deus, ainda os temos, mas como minorias abraâmicas. Pois foi este apelo dos bispos que custou a vida de Henrique e pede de nós clareza e radicalidade evangélica neste momento que vivemos. 

 - a nova onda do vírus no mundo e no Brasil

Quem de nós imaginaria que oito meses depois de termos sido obrigados a “ficar em casa” para nos protegermos (a nós mesmos e aos outros), as notícias atuais sejam de que temos de retomar a quarentena, reforçar os cuidados e ter mais um tempo indeterminado de retiro forçado? 

Ao mesmo tempo que pagamos pelo fato de que os governos e a sociedade preferem garantir o comércio e o lucro do que a vida das pessoas, vemos que entramos nesta segunda fase da quarentena mais fragilizados e nos sentindo mais carentes uns dos outros do que em março, quando começamos esta grande Quaresma, cuja Páscoa parece que não chega nunca.  

Será que não deveríamos nós, como Igreja, tomarmos a iniciativa de sermos exemplos de quem privilegia a vida e aceita viver esta quarentena como um deserto bíblico, no qual Deus nos chama a renovar o namoro com Ele e com o seu projeto divino no mundo? No lugar das saudades das cebolas do Egito e de cedermos aos encantos da normose em que vivíamos antes, somos chamados a retomar o nosso primeiro amor (Ap 2, 5) e aí sim nos prepararmos para sair da quarentena para outro modelo de vida social. 

– Mais um chamado à objeção de consciência 

 A preocupação com o Coronavírus não pode nos deixar esquecer os vírus da indiferença social com os mais pobres. Nestes dias, espalham-se pelo Brasil o vírus da intolerância e do fanatismo violento. 

Ontem aceitando pedido de um centro Dom Bosco, organização de católicos de extrema direita, um juiz proibiu que o grupo de mulheres “Católicas pelo direito de decidir”  possam continuar usando o nome de “católicas” no nome do grupo. Se já denunciamos que ministros eclesiásticos não são e não podem se arvorar em proprietários do nome de Deus nem da fé das pessoas, menos ainda podemos aceitar que juízes decidam quem pode usar o nome de católicos/as ou não. A partir de que eclesiologia ou que compreensão da fé tem ele como critério? 

Está se espalhando pelas redes sociais a proposta de que todas as pessoas possam colocar “sou católica” ou católico em seu nome e nas suas propostas. Mas, não basta. Precisamos articular um grande movimento de objeção de consciência contra a lei quando ela é injusta, iníqua e prepotente. A objeção de consciência é direito reconhecido pela ONU quando se invoca razões de fé e de consciência para desobedecer. Ao fazermos isso, estaremos libertando Deus do uso desonesto e desamoroso do seu nome cada vez mais profanado por religiosos que usam Deus para propagar o seu machismo doentio, uma homofobia hipócrita e mostrar que não aceitam verdadeira sinodalidade na Igreja.    

Henrique, meu irmão e mestre de fé, 

Neste seu aniversário de 80 anos de vida, eu e meus irmãos que estão comigo neste caminho da fé, renovamos nossa disposição de continuarmos o teu martírio (testemunho) pela clareza de nossas opções de fé e de vida. Lembro-me sempre do seu humor permanente e de como você gostava de brincar e a mim aquilo naquele tempo me parecia pouco sério. Era muito mais sério do que a seriedade dos monges do meu Mosteiro. Prometemos a você que cada dia procuraremos transformar o seu martírio em kerigma, isso é, anúncio libertador do reino de Deus no mundo. Do céu nos ajude a viver isso. Amém. Axé. Awuerê, Aleluia. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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