5º Domingo Quaresma – ano A: Jo 11, 1-45
A boa nova de Jesus, amizade como força de vida.
Neste 5º Domingo da Quaresma, meditamos no relato de como Jesus faz o seu amigo Lázaro voltar à vida (Jo 1, 1- 45). No quarto evangelho, esse relato é contado como o sétimo sinal que Jesus dá aos discípulos e discípulas, para que creiam nele como caminho para vida e ressurreição e acolham a sua missão.
Como todos os sinais do Evangelho de João, o relato da reanimação de Lázaro também é escrito de modo simbólico. É como se fosse uma peça teatral que se passa, simultaneamente, em dois planos: o da frente do palco é a história contada, mas, por trás do texto, está a realidade das comunidades do evangelho no final do século I.
O texto trata de uma cena da vida de Jesus, quando ele já estava na Judeia, aproximando-se de Jerusalém para viver a sua Páscoa. Por trás do texto, essa história parece querer responder às dificuldades e crises das comunidades cristãs no final do primeiro século da era cristã.
O texto fala de três personagens principais desse encontro com Jesus. Lázaro, Maria e Marta são três irmãos, amigos de Jesus que moram em Betânia, aldeia próxima a Jerusalém. No entanto, ao contar essa história, o evangelho pode estar falando de Marta, Maria e Lázaro, como três tendências ou correntes dentro das comunidades cristãs do final do século I.
Tradicionalmente, a tradição cristã sempre afirmou que Marta representa a corrente cristã mais prática e inserida nos trabalhos, enquanto Maria representa o direito da mulher ser discípula, cidadã, dedicada à escuta e à intimidade com Jesus. Lázaro era nome comum entre sacerdotes judaicos. Representa a parte das comunidades cristãs, ainda presa ao Judaísmo rabínico e, por isso, ainda, fechado no túmulo da lei.
Com a atenção despertada para os dois planos da leitura, o da comunidade que lê e o plano do relato que as comunidades contam, vamos seguir a história como é contada, para descobrir uma boa notícia, hoje, para nós.
Essa história conta que, ao se aproximarem de Jerusalém, os discípulos de Jesus estavam com medo. Sabiam que os sacerdotes e religiosos queriam matar Jesus. Por isso, não tinham querido vir com ele a Jerusalém. De fato, para eles, era muito perigoso serem vistos, como pessoas ligadas a Jesus. O texto não alude às discípulas que faziam parte do grupo.
No capítulo 11 de João, não se fala dos discípulos. Em Betânia, Jesus está sozinho. Só aparecem os três irmãos, aos quais Jesus vem visitar. Para Jesus também, o ambiente de Jerusalém era muito perigoso, principalmente, por ocasião da festa da Páscoa, na qual a população da cidade triplicava. Por isso, o evangelho conta que ele se escondia do outro lado do rio Jordão. Estava clandestino. Mesmo assim, vai a Betânia para estar com Marta e Maria, que choravam a morte de Lázaro, seu irmão. É em Betânia, (em hebraico, casa dos pobres) que viviam os discípulos e é na casa dos pobres que Jesus se hospedava, até quando foi preso e condenado.
O evangelho acentua que o processo de reanimação de Lázaro foi como aventura de amizade. A partir da amizade de Jesus por Lázaro e pelas duas irmãs, ele fez o anúncio da vida e da ressurreição para toda a humanidade. Assim ele nos confirma que, por meio da amizade com ele, qualquer relação de amizade pode ser força e luz para enfrentarmos o medo e a morte. Em nossa vida, podemos ter a feliz experiência de uma amizade que, em determinado momento, torna-se para nós cenário, através do qual Jesus nos diz, como disse ao amigo Lázaro: “Vem para fora! Sai desse túmulo, no qual estás prostrado” .
O que significa Jesus dizer que a doença ou a morte de Lázaro é para a glória de Deus? Como a doença de alguém pode ser para a glória de Deus? Talvez a tradução mais correta e atual dessa palavra seja: A glória de Deus se expressa quando enfrentamos a doença e até a morte.
Jesus chega tarde a Betânia. Lázaro já tinha sido sepultado havia quatro dias. Jesus diz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá” (Jo 11,25).
Para nós, discípulos e discípulas de Jesus, a ressurreição não pode ser algo do futuro. Tem de ser experiência presente e vivida agora e já. Para muita gente, a fé liberta do medo, porque traz uma revelação de confiança e proteção divina. Mas, a palavra de Jesus traz uma promessa de ressurreição que nos faz vencer a morte, como Jesus. O grito de Jesus “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43) hoje, traduz-se de outras formas. Ele nos chama “para fora”. Para fora de quais túmulos e de quais situações de morte?
De fato, o que Jesus fez não foi ressuscitar o amigo, já que depois Lázaro morreu de novo. A reanimação simbólica de Lázaro foi sinal e anúncio da ressurreição de Jesus. Jesus nutria por Lázaro um amor de predileção (o evangelho usa raramente este termo grego phileo). Ao restituir a vida ao amigo, Jesus acarreta a ira dos religiosos e esses decidem matá-lo. Jesus coloca em risco a própria vida para restituir a vida a um amigo.
No romance “Crime e Castigo”, Dostoeivski conta que o jovem Raskonikov tinha cometido um crime terrível: matou uma senhora idosa só para sentir-se acima da lei. Depois disso, ele encontra Sonya, jovem prostituta, pela qual está apaixonado. A moça está com o evangelho aberto, na página que conta que Jesus tira Lázaro do túmulo e o restitui à vida. Os dois jovens se amam, mas ele sente que tem de ir para a prisão pagar por seu crime e ela, por ter sido prostituta, jamais será aceita pelas pessoas como esposa dele. Ele revela a Sonya o seu desânimo e ela se refere a esse evangelho e comenta:
- Fazia quatro dias que Lázaro já estava morto. Mesmo assim, Jesus tirou-o do túmulo e o fez reviver. Então, para nós, mesmo se sou prostituta e você um assassino que matou alguém, há esperança...
Daqui a uma semana, estaremos começando a Semana Santa. Ela pode ser o momento para acolhermos uma Palavra, que nos ressuscite de nossos medos, de nossos desânimos e nossos fechamentos interiores.
Precisamos intensificar o desejo e a preparação interior para celebrar a Páscoa como profecia que nos ajuda a viver na vida cotidiana e no nosso modo de ser um caminho pascal. A ceia de Jesus tem de ser vivida a partir do compromisso de trabalhar para que todos e todas tenham segurança e soberania alimentar e a fome seja superada no Brasil e no mundo. Que essa nova celebração da Páscoa nos faça descobrir o modo de viver a fé como expressão de solidariedade e união.
A cada ano, no 22 de março, a ONU celebra o Dia internacional da Água que, para as espiritualidades originárias, mas também para a espiritualidade judaica e cristã representa a fonte da vida e é, no mundo, o primeiro sinal do Espírito Divino. Neste ano de 2026, a ONU propõe como tema para este dia a relação entre Água e Gênero. Com a crise hídrica que o Capitalismo depredador provoca, as maiores e primeiras vítimas são mulheres e meninas que, em muitas culturas, são encarregadas de buscar água e providenciar água para a família ou para a comunidade.
A fé não pode ser individualista e sim vivida como comunhão na diáspora, ou seja, na dispersão do mundo. É assim que, como discípulos e discípulas de Jesus, revivemos, hoje, em nossas vidas, a amizade de Jesus que Marta, Maria e Lázaro viviam. É assim que, mesmo cada um e cada uma, com sua vida própria, une-se aos outros irmãos e irmãs no caminho da ressurreição nossa e de todo o mundo.
Amo tanto viver
Todas as vezes que eu canto é amor
Transfigurado na luz
Nos raios mágicos de um refletor
Na cor que o instante produz
Todas as vezes que eu canto é a dor
Todos os fios da voz
Todos os rios que o pranto chorou
Na vida de todos nós
Tudo que eu sei aprendi
Olhando o mundo dali
Do patamar da canção
Que deixa descortinar o cenário da paixão
Aonde vejo a vagar meu coração
Tudo que eu canto é a fé, é o que é
É o que há de criar mais beleza
Beleza que é presa do tempo
E, a um só tempo, eterna no ser
Todas as vezes que eu canto
Amo tanto viver (Gilberto Gil – 1980)
https://som13.com.br/gilberto-gil/amo-tanto-viver
A boa nova de Jesus, amizade como força de vida.
Neste 5º Domingo da Quaresma, meditamos no relato de como Jesus faz o seu amigo Lázaro voltar à vida (Jo 1, 1- 45). No quarto evangelho, esse relato é contado como o sétimo sinal que Jesus dá aos discípulos e discípulas, para que creiam nele como caminho para vida e ressurreição e acolham a sua missão.
Como todos os sinais do Evangelho de João, o relato da reanimação de Lázaro também é escrito de modo simbólico. É como se fosse uma peça teatral que se passa, simultaneamente, em dois planos: o da frente do palco é a história contada, mas, por trás do texto, está a realidade das comunidades do evangelho no final do século I.
O texto trata de uma cena da vida de Jesus, quando ele já estava na Judeia, aproximando-se de Jerusalém para viver a sua Páscoa. Por trás do texto, essa história parece querer responder às dificuldades e crises das comunidades cristãs no final do primeiro século da era cristã.
O texto fala de três personagens principais desse encontro com Jesus. Lázaro, Maria e Marta são três irmãos, amigos de Jesus que moram em Betânia, aldeia próxima a Jerusalém. No entanto, ao contar essa história, o evangelho pode estar falando de Marta, Maria e Lázaro, como três tendências ou correntes dentro das comunidades cristãs do final do século I.
Tradicionalmente, a tradição cristã sempre afirmou que Marta representa a corrente cristã mais prática e inserida nos trabalhos, enquanto Maria representa o direito da mulher ser discípula, cidadã, dedicada à escuta e à intimidade com Jesus. Lázaro era nome comum entre sacerdotes judaicos. Representa a parte das comunidades cristãs, ainda presa ao Judaísmo rabínico e, por isso, ainda, fechado no túmulo da lei.
Com a atenção despertada para os dois planos da leitura, o da comunidade que lê e o plano do relato que as comunidades contam, vamos seguir a história como é contada, para descobrir uma boa notícia, hoje, para nós.
Essa história conta que, ao se aproximarem de Jerusalém, os discípulos de Jesus estavam com medo. Sabiam que os sacerdotes e religiosos queriam matar Jesus. Por isso, não tinham querido vir com ele a Jerusalém. De fato, para eles, era muito perigoso serem vistos, como pessoas ligadas a Jesus. O texto não alude às discípulas que faziam parte do grupo.
No capítulo 11 de João, não se fala dos discípulos. Em Betânia, Jesus está sozinho. Só aparecem os três irmãos, aos quais Jesus vem visitar. Para Jesus também, o ambiente de Jerusalém era muito perigoso, principalmente, por ocasião da festa da Páscoa, na qual a população da cidade triplicava. Por isso, o evangelho conta que ele se escondia do outro lado do rio Jordão. Estava clandestino. Mesmo assim, vai a Betânia para estar com Marta e Maria, que choravam a morte de Lázaro, seu irmão. É em Betânia, (em hebraico, casa dos pobres) que viviam os discípulos e é na casa dos pobres que Jesus se hospedava, até quando foi preso e condenado.
O evangelho acentua que o processo de reanimação de Lázaro foi como aventura de amizade. A partir da amizade de Jesus por Lázaro e pelas duas irmãs, ele fez o anúncio da vida e da ressurreição para toda a humanidade. Assim ele nos confirma que, por meio da amizade com ele, qualquer relação de amizade pode ser força e luz para enfrentarmos o medo e a morte. Em nossa vida, podemos ter a feliz experiência de uma amizade que, em determinado momento, torna-se para nós cenário, através do qual Jesus nos diz, como disse ao amigo Lázaro: “Vem para fora! Sai desse túmulo, no qual estás prostrado” .
O que significa Jesus dizer que a doença ou a morte de Lázaro é para a glória de Deus? Como a doença de alguém pode ser para a glória de Deus? Talvez a tradução mais correta e atual dessa palavra seja: A glória de Deus se expressa quando enfrentamos a doença e até a morte.
Jesus chega tarde a Betânia. Lázaro já tinha sido sepultado havia quatro dias. Jesus diz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá” (Jo 11,25).
Para nós, discípulos e discípulas de Jesus, a ressurreição não pode ser algo do futuro. Tem de ser experiência presente e vivida agora e já. Para muita gente, a fé liberta do medo, porque traz uma revelação de confiança e proteção divina. Mas, a palavra de Jesus traz uma promessa de ressurreição que nos faz vencer a morte, como Jesus. O grito de Jesus “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43) hoje, traduz-se de outras formas. Ele nos chama “para fora”. Para fora de quais túmulos e de quais situações de morte?
De fato, o que Jesus fez não foi ressuscitar o amigo, já que depois Lázaro morreu de novo. A reanimação simbólica de Lázaro foi sinal e anúncio da ressurreição de Jesus. Jesus nutria por Lázaro um amor de predileção (o evangelho usa raramente este termo grego phileo). Ao restituir a vida ao amigo, Jesus acarreta a ira dos religiosos e esses decidem matá-lo. Jesus coloca em risco a própria vida para restituir a vida a um amigo.
No romance “Crime e Castigo”, Dostoeivski conta que o jovem Raskonikov tinha cometido um crime terrível: matou uma senhora idosa só para sentir-se acima da lei. Depois disso, ele encontra Sonya, jovem prostituta, pela qual está apaixonado. A moça está com o evangelho aberto, na página que conta que Jesus tira Lázaro do túmulo e o restitui à vida. Os dois jovens se amam, mas ele sente que tem de ir para a prisão pagar por seu crime e ela, por ter sido prostituta, jamais será aceita pelas pessoas como esposa dele. Ele revela a Sonya o seu desânimo e ela se refere a esse evangelho e comenta:
- Fazia quatro dias que Lázaro já estava morto. Mesmo assim, Jesus tirou-o do túmulo e o fez reviver. Então, para nós, mesmo se sou prostituta e você um assassino que matou alguém, há esperança...
Daqui a uma semana, estaremos começando a Semana Santa. Ela pode ser o momento para acolhermos uma Palavra, que nos ressuscite de nossos medos, de nossos desânimos e nossos fechamentos interiores.
Precisamos intensificar o desejo e a preparação interior para celebrar a Páscoa como profecia que nos ajuda a viver na vida cotidiana e no nosso modo de ser um caminho pascal. A ceia de Jesus tem de ser vivida a partir do compromisso de trabalhar para que todos e todas tenham segurança e soberania alimentar e a fome seja superada no Brasil e no mundo. Que essa nova celebração da Páscoa nos faça descobrir o modo de viver a fé como expressão de solidariedade e união.
A cada ano, no 22 de março, a ONU celebra o Dia internacional da Água que, para as espiritualidades originárias, mas também para a espiritualidade judaica e cristã representa a fonte da vida e é, no mundo, o primeiro sinal do Espírito Divino. Neste ano de 2026, a ONU propõe como tema para este dia a relação entre Água e Gênero. Com a crise hídrica que o Capitalismo depredador provoca, as maiores e primeiras vítimas são mulheres e meninas que, em muitas culturas, são encarregadas de buscar água e providenciar água para a família ou para a comunidade.
A fé não pode ser individualista e sim vivida como comunhão na diáspora, ou seja, na dispersão do mundo. É assim que, como discípulos e discípulas de Jesus, revivemos, hoje, em nossas vidas, a amizade de Jesus que Marta, Maria e Lázaro viviam. É assim que, mesmo cada um e cada uma, com sua vida própria, une-se aos outros irmãos e irmãs no caminho da ressurreição nossa e de todo o mundo.
Amo tanto viver
Todas as vezes que eu canto é amor
Transfigurado na luz
Nos raios mágicos de um refletor
Na cor que o instante produz
Todas as vezes que eu canto é a dor
Todos os fios da voz
Todos os rios que o pranto chorou
Na vida de todos nós
Tudo que eu sei aprendi
Olhando o mundo dali
Do patamar da canção
Que deixa descortinar o cenário da paixão
Aonde vejo a vagar meu coração
Tudo que eu canto é a fé, é o que é
É o que há de criar mais beleza
Beleza que é presa do tempo
E, a um só tempo, eterna no ser
Todas as vezes que eu canto
Amo tanto viver (Gilberto Gil – 1980)
https://som13.com.br/gilberto-gil/amo-tanto-viver
