Festa da Ascensão de Jesus – ano A - Mt 28, 16-20
Nesta festa da ascensão de Jesus, o evangelho de Mateus não contém nenhuma descrição do que comumente considera-se ascensão (subida ao céu), mas contém três elementos importantes:
1º - uma revelação nova,
2º - um envio ou mandato em missão
e 3º - uma promessa.
O contexto é estranho, porque os onze discípulos voltam para a Galileia, isso é regressam para a sua região, para o meio do povo mais empobrecido e marginalizado, com o qual Jesus tinha iniciado a sua inserção. Esse evangelho fala do monte da Galileia, no qual Jesus tinha feito o seu primeiro discurso e dado as bem-aventuranças, Ali, Ele revela-se de modo novo, ressuscitado. O evangelho sublinha que apesar de ter ido ao monte que o Senhor lhes indicara, os discípulos e discípulas duvidavam. Duvidavam de que? Duvidavam de quem? Se duvidavam, por que, então, estavam ali?
1 - Jesus faz a revelação:
2 – O envio em missão.
No mundo atual, um emprego compromete profissionalmente. Entretanto, no plano social e espiritual, muitas pessoas participam de grupos. Pertencem a coletivos... Dão o seu nome, mas quase sempre, as pessoas não chegam a comprometer-se realmente. Dizem: “sou do grupo na medida do possível, ou seja, quando quero, ou melhor, quando sinto necessidade”...
Também Jesus sentiu assim o seu grupo: e naquele contexto que viviam, as pessoas tinham certa razão. Era um grupo frágil, medroso, no qual todos duvidavam dele e do projeto que ele propôs (o reinado divino acontecendo no mundo). No entanto, ele passou por cima de tudo e mandou a eles e a elas como seus (suas) representantes:
- Vão fazer discípulos e discípulas em todas as nações...
Há quem entenda isso, como se Jesus tivesse dito: "vão e conquistem todo mundo para a Igreja Católica, ou para Igrejas evangélicas". Se fosse assim, Jesus não teria proposto uma missão e sim uma campanha de proselitismo e de conquista colonialista, como tantas vezes, na história e até hoje, as Igrejas têm feito.
É importante repetir: Jesus não fundou religião, nem criou Igreja. Os estudiosos e estudiosas dizem que, historicamente, Jesus teria reunido um grupo. A partir desse grupo, suscitou um movimento profético, com o objetivo de anunciar e testemunhar que o projeto divino para o mundo estava chegando. Desse movimento inicial, surgiram as comunidades que, na década de 50 (vinte anos depois de Jesus ter sido executado), o apóstolo Paulo chamou de Igrejas, isto é, assembleias de cidadãos e cidadãs do projeto divino no mundo. Essas comunidades locais organizaram-se como grupos, dentro das sinagogas judaicas. A religião não era cristã. Era judaica.
Somente a partir dos anos 80, isto é, mais ou menos na época em que esse Evangelho de Mateus foi escrito, as Igrejas locais tornaram-se autônomas em relação às sinagogas e, pouco a pouco, passaram a ser vistas como o que hoje chamamos de Cristianismo.
A Igreja tem sentido, se for sinal e instrumento do projeto maior: o projeto divino (o reinado) no mundo, ou seja, tornar o mundo uma terra de amor compassivo, respeito mútuo, justiça solidária e libertação integral. Jesus fala em batizar. O termo grego significa mergulhar. Para Jesus, o batismo tinha sido o mergulho no rio Jordão, nos tempos do profeta João Batista. Então, Jesus não propõe apenas um rito e sim a utopia de que as pessoas de todas as nações e culturas sejam mergulhadas no projeto do reinado divino. Afinal, era isso que Ele, Jesus, tinha ensinado e trazido para o mundo. “Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho mandado”. Este é o envio e aí vem a promessa: “ - Estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos”
3 – A promessa.
No início do evangelho de Mateus, o Anjo diz a José: - O menino que vai nascer se chamará Emanuel, que significa Deus conosco. Nesse último texto do evangelho que escutamos, hoje, é o próprio Jesus que repete a mesma promessa do início do evangelho. Ele afirma: - "Eu estou com vocês todos os dias até o fim do mundo".
Isso significa: - Eu serei para vocês e com vocês Emanuel. Através do Espírito, estou em vocês.
A Igreja continua usando essa imagem antiga e espacial de que Jesus subiu ao céu. O evangelho de Mateus não usa a palavra "ascenção" que é própria de Lucas. Nas ciências atuais, como a Cosmologia e a Física Quântica, muitos estudos têm confirmado: o universo é semelhante a um grande organismo vivo que a cada instante evolui e à medida que se expande, cresce e esse crescimento leva, ao mesmo tempo, a uma convergência. É como uma ascensão na qual há evolução e convergência, ou seja, unidade.
Já nos anos 50 do século XX, Theillard de Chardin chamava esse ponto de convergência “Ponto Ômega”. Ele via nisso o que o apóstolo Paulo chama de “Cristo cósmico”, presença divina que, através do Espírito, fecunda de amor o universo e dá vitória a todos os nossos projetos humanos.
Nesta semana, vamos curtir a esperança de deixar-nos invadir, totalmente, pela presença do Espírito, que celebramos no próximo domingo, em Pentecostes. Vamos preparar-nos para essa festa, através da Semana de orações pela Unidade dos cristãos. Conforme o evangelho de João, antes da Páscoa, Jesus fazia sinais para que, ao verem os sinais de amor, as pessoas pudessem crer. Depois de sua morte e ressurreição, o sinal que Ele deixa e que vai substituir os sinais de amor que Ele fez na terra, é a unidade visível dos seus discípulos e discípulas. Por isso, a unidade das Igrejas e das comunidades e movimentos populares é tão importante para cumprirmos o testemunho pascal. Não se trata de unidade de forma (uniformidade) e sim de espírito (unanimidade, ou seja, unidade nas diferenças e nas diversidades, com autonomia de cada comunidade e de cada Igreja na comunhão universal. Assim, poderemos dizer com toda razão:
- Verdadeiramente, Jesus ressuscitou, Aleluia!
Viva a Páscoa
Lindas palavras sobre a palavra
Doces cantares, poesia em flor
Telas brilhantes, artes abraços
Pão partilhado, na luz do amor!
Como dizer-te, ó invisível!
Verbo divino, terno e feliz!
Oh filho amado, do amor mais fino!
Homem menino, Deus te bendiz!
Aleluia! Aleluia!
Deus ressuscitou, Jesus bem vivo está!
Aleluia! Aleluia!
Deus ressuscitou, Jesus aqui está!
Doou-se todo, mergulhou fundo
No nosso poço, dentro de nós!
Levou consigo, as nossas dores
E o velho medo, cego e atroz!
Passou por baixo, das grandes pedras
Das armas todas, do ódio letal!
Dos poderosos, que nunca amam
E espalham cinzas, e ações do mal!
Todo marcado, deu vida a morte!
Renasceu livre, belo e feliz!
No jardim santo, na terra inteira
De nossa história, justo juiz!
Cantemos todos, todas também!
Corpos libertos, seres do bem!
Um novo canto, de graça e glória
Tu és vitória na vida, amém!
