A crise da água e a sede de vida
Nesta semana e, especialmente, neste sábado, 22 de março, a ONU celebra mais um Dia Internacional da Água. Devido à urgência do problema, em todo o mundo, as reflexões e eventos sobre esse dia tomarão toda essa semana. De fato, estamos em situação de alto risco. O sistema de vida no planeta Terra está ameaçado e a água se torna o bem mais precioso. Conforme dados das organizações internacionais da ONU, no mundo atual, de cada três pessoas, uma não tem acesso à água potável, e mais de dois bilhões de pessoas não têm saneamento básico. Cada ano, milhões de pobres, dos quais muitas crianças, morrem de enfermidades ligadas a águas contaminadas. Conforme estudo da ONU, até o final desse ano de 2025, este problema chegará a afetar metade da humanidade.
Há diversos motivos para essa crise. O planeta Terra tem 75% de sua superfície ocupada por oceanos, mas a água doce representa apenas 2,5% deste total. No último século, a população mundial aumentou muito e na maioria dos países a urbanização se fez de modo descontrolado. É ao redor das 217 bacias fluviais internacionais que se concentra 40% da população da humanidade. Por causa do crescimento demográfico e da poluição, nos últimos 30 anos, os recursos hídricos foram reduzidos em 40%. Da água disponível que tínhamos, a humanidade acabou com 5000 Km2. E muitos, ainda se comportam como se a água fosse bem inesgotável. Usam os recursos hídricos de modo irresponsável e injusto.
A água é recurso natural limitado e pode acabar. Tem valor econômico e competitivo no mercado. Não pode ser desperdiçada. Cada vez que, para tomar banho, se abre o chuveiro por todo o tempo, desperdiça-se quantidade maior de água do que a usada para o banho. Quase todos os países atualizam legislações sobre a água. Em vários lugares, há conflitos entre povos por causa da água.
A Pastoral da Terra, organismo da Igreja Católica no Brasil, declara: “Como a água constitutiva do ser humano, elemento essencial da vida como um todo e do meio ambiente, ela é direito natural, patrimônio da humanidade, dádiva divina e não obra humana. Por isso, a Água não pode ser reduzida a uma mercadoria e a um bem particular. E nenhum ser humano pode arrogar a si o poder de negar a qualquer semelhante ou ser vivo este bem essencial à vida”.
Em 2020, diante do fato escandaloso de que, nos Estados Unidos, a Bolsa de Valores colocou a água como mercadoria no mercado de futuro, a rede internacional Ágora dos (das) Habitantes da Terra mobilizou juventudes contra a privatização da água. Daí surgiu a bela proposta de mobilizar 100.000 jovens pela Água. Em 2021, no Brasil, essa proposta foi assumida pela Rede Ecumênica da Água (REDA) para desenvolver a mobilização nos territórios, cuidando da água como “Ser Sagrado, Direito Humano e Bem Comum”.
O Movimento 100 Mil Jovens pela Água se propõe a articular jovens que se mobilizam e cooperam com o cuidado das águas como bem essencial à vida no planeta Terra. Neste final de semana, sábado, 22 e domingo, 23, em Brasília, esse movimento organiza o Festival das Águas como evento mobilizador que, através da música, das artes e da alegria do encontro fazem festa pela Água.
Tudo isso ocorre nesse contexto em que nessa semana os irmãos e irmãs de fé muçulmana encerram o sagrado mês de Ramadã e as comunidades de Igrejas mais antigas como a Igreja Católica celebram o retiro pascal da Quaresma. No Brasil, a Campanha da Fraternidade 2025 tem como tema a Ecologia Integral e pode mobilizar as juventudes para essa grande festa da Água.
A nossa relação com a água só mudará se aprendermos com as culturas das comunidades tradicionais a nos relacionarmos com a Água e com a Mãe-Terra de forma amorosa e espiritual. Em todos os caminhos espirituais, a Água é sacramento e visibilização da ternura divina no universo. A Bíblia nos revela a Água como símbolo do Espírito de Deus que derrama vida nova sobre o universo. Cuidar bem da água e defender os rios e fontes é o modo de reconhecer a presença divina no universo, defender a vida e participar da Páscoa cósmica pela qual Deus “renova todas as coisas” (Ap 21, 5)[1].
[1] - Quem quiser aprofundar mais este assunto, leia o livro: MARCELO BARROS, O Espírito vem pelas Águas, Ed. Loyola, Rede, 2003.