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A esperança messiânica da nossa caminhada

A esperança messiânica da nossa caminhada

                   Na liturgia latina, seguida por várias Igrejas no Ocidente, a celebração do “Domingo de Ramos” junta elementos de duas liturgias diferentes e aparentemente opostas. Nos séculos IV e V, a Igreja de Jerusalém celebrava neste domingo a entrada festiva de Jesus na cidade. Fazia-se uma procissão com ramos como para reencenar a entrada festiva em Jerusalém como início das celebrações pascais. Na mesma época, neste mesmo domingo, a Igreja de Roma ainda não celebrava a morte de Jesus na sexta-feira santa. Não existia ainda  o Tríduo Pascal. Então, se celebrava em um domingo, a Paixão (era hoje) e no próximo, a ressurreição. 

Assim sendo, neste mesmo domingo, havia duas liturgias aparentemente opostas: a celebração festiva da Igreja de Jerusalém, como celebrando a realeza de Jesus e a de Roma no clima de sexta-feira santa, na qual se lia como evangelho o relato da Paixão. A liturgia latina atual juntou as duas. Começa com o rito de ramos e proclama o evangelho de Marcos 11, 1- 10. É um ambiente festivo que tem até procissão. Depois, vem a Missa do Domingo da Paixão, neste ano B, com o relato da paixão segundo Marcos (Marcos 14, 1 a 15, 47). Como muitos outros falarão da paixão, peço permissão para meditar o evangelho lido para a celebração de ramos: Marcos 11, 1- 10. 

O relato da entrada de Jesus em Jerusalém é contado de forma simbólica e viva. Parece teatro de rua. O evangelho conta que Jesus prepara tudo em detalhes. Manda dois discípulos pegarem emprestado um jumentinho e Jesus entra em Jerusalém, montado no jumento e aclamado pelo grupo de peregrinos que com ele entra na cidade. Esse gesto simbólico reúne um grande grupo de peregrinos vindos do campo, da Galileia... O evangelho explicita: "ramos trazidos do campo". Aclamar com ramos nas mãos  e cantar o salmo 118 do qual vem o grito do povo: "Hosana, Bendito o que vem em nome do Senhor", eram costumes da liturgia da festa das Tendas. Talvez, essa entrada festiva tenha ocorrido em uma ida de Jesus para uma festa das Tendas e o evangelho a tenha transportada para o contexto da Páscoa.  No Judaísmo, a festa das Tendas é a recordação da caminhada do povo no deserto e alimenta  a esperança messiânica da libertação. Jesus ter entrado na cidade daquele modo o colocava como Messias. O fato das pessoas estenderem mantos nas ruas para Jesus passar era gesto conhecido que se realizava com libertadores políticos. A palavra Hosana poderia significar “Liberta-nos do opressor (romano)”. 

A cena parece manifestação política de um grupo subversivo que, simbolicamente e de forma não violenta, se apodera da cidade. Marcos situa o evento na entrada da cidade pelo Oriente, o que para a tradição bíblica é significativa. O Monte das Oliveiras, por onde ele chega, foi o local da vitória do povo contra os sírios na época dos macabeus. 

Tudo isso pode provocar duas interpretações. A primeira é imaginar que Jesus tenha se apresentado como Rei Messias. Durante toda a sua vida, Jesus rejeitou o título de Messias e menos ainda de rei. Será que, de repente, na entrada para Jerusalém, ele teria aceitado? Se foi assim, finalmente, Jesus cedeu ao modelo de missão que, desde o começo, os discípulos sempre quiseram. Era o que a multidão desejava, mas ele nunca tinha aceitado: ser rei e messias. Acho essa leitura problemática

A segunda interpretação seria uma releitura mais política do evangelho. A cena da entrada de Jesus em Jerusalém seria uma manifestação zelota e revolucionária. Jesus teria entrado na cidade como messias rebelde contra o império romano. É possível que os sacerdotes e religiosos do templo tenham entendido nesse segundo sentido, tanto que o evangelho de Lucas conta que eles teriam dito a Jesus: “Manda os teus discípulos se calarem”. Jesus teria respondido: “Se eles se calarem, até as pedras gritarão”. 

Sem dúvida, para o povo do interior que subia a Jerusalém para a Páscoa e acompanhou Jesus naquela entrada na cidade e também para os discípulos de Jesus, aquela cena serviu para animar a esperança messiânica, ou seja, a expectativa de uma intervenção libertadora de Deus que viria salvar o povo. Mas, para Jesus o que significou e o que ele quis dizer com aquela cena? E o que ela pode dizer para nós, hoje? 

É certo que Jesus aparece ali como profeta resistente que entra em Jerusalém para enfrentar o poder religioso e político. No capítulo anterior do evangelho de Marcos, ele tinha identificado os discípulos como os pequeninos do reino, os pobres do mundo. No entanto, como ele faz isso não é a de quem assume para si títulos como Messias e rei. 

O único termo que ele usa e já usava antes é Filho do Homem, que, em algumas passagens significa um representante humano de Deus e em outras quer dizer qualquer ser humano. Para Jesus, o Filho do Homem é Ele, mas é também todo ser humano. Ele encarna o humano como pobre e pequeno. Na sua entrada a Jerusalém, Jesus assume o messianismo coletivo que vê a figura do Messias não como um Filho de Davi, da família real e sim como a humanidade dos peregrinos pobres que entram com ele em Jerusalém. Uma humanidade que hoje é classificada como descartável é colocada como sujeito da transformação do mundo. 

É na identificação com essa humanidade dos mais vulneráveis do mundo que Jesus se identificará na ceia. Ao lavar os pés dos discípulos na ceia, é a eles que Jesus quer servir. É com eles e por eles que será crucificado. Também a ressurreição será para assumir o corpo dos mais pobres.  

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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