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A espiritualidade ecumênica de Jesus

Para quem quer meditar no evangelho do XX Domingo Comum: Mt 15, 21- 28.

 

O evangelho do Macro-ecumenismo Feminista

 

O evangelho lido nesse domingo mostra-nos Jesus fazendo uma cura que transformou o seu modo de pensar a missão e de vivê-la. Esse trecho do evangelho mostra que o próprio Jesus teve de aprender isso e, para ele, esse aprendizado não foi simples, nem fácil. 

Esse episódio é contado pelos evangelhos de Mateus em Mt 15, 21- 28, texto de hoje e também no evangelho de Marcos, que chama a mulher de siro-fenícia (Cf. Mt 7, 24- 26). Mateus diz que ela era “cananeia”. Na época de Jesus e dos evangelhos, essa expressão (cananeia) já não existia, mas lembra que, se o povo de Israel diz ter recebido de Deus a terra para viver, antigamente, essa terra teria sido tomada dos cananeus, os primeiros habitantes da terra de Canaã. De certa forma, seria como se hoje, eu e vocês afirmássemos ao mundo que, em nossos tempos, o correspondente atual ao que antigamente era chamado de povo hebreu é o povo palestino e, de modo algum, o Estado de Israel. 

 

É provável que essa história do encontro entre Jesus e a mulher cananeia represente os desencontros e encontros das comunidades de Mateus nos anos 80 do primeiro século da nossa era, formada por cristãos, vindos do Judaísmo, diante de pessoas cristãs, vindas de outras raças e culturas. Era como o confronto entre uma pessoa israelita e uma palestina. Através dessa palavra, as comunidades cristãs da época ouviram como sendo de Jesus o apelo a  abrir a fé, assim como a solidariedade da vida, representada pelo pão da palavra e da eucaristia, às pessoas que vinham do mundo não judeu. 

  O capítulo 15 de Mateus começa por uma crítica de Jesus aos professores de Bíblia e aos fariseus, líderes da religião judaica (15, 1- 20). Portanto, o encontro de Jesus com a mulher cananeia ou palestina é contado no contexto de uma crítica do evangelho à religião. O texto começa com uma afirmação contundente e já quase agressiva com a cultura judaica da época: diz que Jesus saiu ou partiupara a região de Tiro. E diz que uma mulher daquela região também saiu ao encontro dele. Alguns comentadores sublinham certa semelhança entre essa mulher anônima e uma personagem da tradição de Israel: Raab, também cananeia que acolheu os espiões de Josué em sua casa e, assim, salvou a própria família e selou a aliança dos camponeses em busca de terra com o povo das periferias das cidades (Cf. Js 2, 8- 13). 

Nesse texto do evangelho, a mulher cananeia pede a Jesus a cura de sua filha. Ao chamar Jesus de “filho de Davi”, reconhece a prioridade de Israel no projeto da salvação. Jesus parece aceitar como normal esse privilégio religioso dos israelitas. Mas, apesar de reconhecer o tal privilégio, a mulher, que não é israelita, insiste em receber a graça da cura para a sua filha. Jesus responde com a tradição oral de Israel que chama os pagãos de cachorrinhos. De fato, uma antiga tradição de Israel, atestada por textos bíblicos, considerava os cananeus como povo amaldiçoado e destinado a ser escravo (Ver Gn 9, 25). 

  Nesse caso aqui, parece que a comunidade de Mateus foi fiel ( a gente poderia dizer quase “até demais”) à ação e à prática de Jesus. Para nós das comunidades cristãs de hoje, é bom saber que Jesus também enfrentou recaídas e hesitações no caminho ecumênico, intercultural e interreligioso que Deus exigiu dele, como exige de nós. Também no final do 1º século, no qual o evangelho foi redigido, o clima era de muita tensão e intransigência religiosa entre os grupos judeus. Como viviam sob a dominação romana e essa era muito opressiva, em geral, a experiência das comunidades judaicas e cristãs com os não judeus era muito negativa.  Além disso, a própria cultura religiosa refletia a rejeição em relação aos estrangeiros. Todo contato com os “goims” (gentios ou pagãos) era considerada impura e perigosa. Principalmente, se esse contato era no ato de comer. 

 No seu diálogo com a mulher cananeia, Jesus responde com a imagem da comida. Diz que não é justo dar aos cachorros o alimento que é para os filhos. Talvez isso revele que o que está por trás da narrativa desse episódio contado pelas comunidades do evangelho de Mateus tenha sido o debate em algumas comunidades cristãs da época sobre se as pessoas cristãs, vindas de outras culturas, poderiam ou não receber a comunhão eucarística. Já naquela época algumas Igrejas debatiam se a Igreja deveria viver uma prática eucarística mais aberta ou mais restrita. Até hoje, na Igreja Católica e em outras Igrejas, é comum discutir-se quem pode e quem não pode comungar na ceia eucarística. 


A refeição é sinal de compromisso e aliança. Os rabinos ensinavam que  “comer com um idólatra é como comer com um cachorro”. Essa cena mostra um Jesus inseguro com relação à abertura que ele mesmo havia previsto, mas que, de repente, toma rumo inesperado. Era como se fosse um compromisso “exagerado”. 

De acordo com o evangelho, ao passar por aquele território estrangeiro, perto de Tiro, Jesus estava fugindo de Herodes e provavelmente queria passar despercebido. Então, de repente, aparece aquela mulher e começa a gritar atrás dele. Ao chamar a atenção de todo mundo, ela criava para Jesus não só um incômodo, mas, principalmente, representava um risco para alguém que queria passar despercebido. 

Talvez, no começo, o próprio Jesus e os discípulos nem entendiam o que ela queria. Ela falava aramaico, mas com acentuação diferente. Os discípulos querem que Jesus mande ela se calar e deixá-los em paz. Jesus não faz isso, mas, ao mesmo tempo, afirma claramente que só foi enviado às ovelhas perdidas de Israel. Quando enviou os discípulos em missão, já havia dito: “Não entrem em aldeia de samaritanos, nem em estrada dos goims”(Mt 10, 5). Pior ainda, no discurso da montanha, tão ecumênico e universal, ele havia dito: “Não deem as coisas santas aos cachorros” (Mt 7, 6). 

Nem precisava dizer quem seriam esses cachorros. Uma palavra direta contra a missão junto aos estrangeiros. Aceitavam publicanos e pecadores, mulheres marginalizadas, sim. Mas, não estrangeiros, pagãos e, principalmente, mulheres de outros povos. Conforme o evangelho, essa abertura para os outros (estrangeiros) só viria a ocorrer depois da ressurreição, Ele dirá: “Vão pelo mundo inteiro e façam adeptos entre todos os goims” (Mt 28, 19).

            Hoje, ao escutar esse evangelho, pensamos nos palestinos, vítimas de uma opressão secular e em nossos dias de um genocídio vergonhoso, mantido por razões econômicas e políticas, mas legitimado pelo fundamentalismo religioso que continua pregando que, como povo eleito de Deus, Israel tem privilégio e direito à terra dos palestinos. Dizer isto é um absurdo sem fundamentação bíblica. 

 

Conforme o evangelho, parece que até Jesus deixou-se influenciar por esse preconceito racista. Como se dissesse: primeiramente Deus tem de cumprir sua promessa a Israel e só depois podemos estender a salvação aos outros povos. Esse evangelho conta que a mulher insiste que Jesus cure a filha dela, como se fosse uma migalha que cai da mesa dos patrões, sem com isso subverter o privilégio de Israel. 

No século IV, São João Crisóstomo, pastor de Constantinopla, chama a mulher cananeia “a cachorrinha de Deus”. Conforme o evangelho, sua insistência converte Jesus. E Jesus reconhece: “Mulher, grande é a tua fé!”. E cura a sua filha. 

          Ao incluir a mulher e sua filha no projeto divino de salvação e ao reconhecer a fé dela como positiva, Jesus responde às questões das comunidades de Mateus. Exige abertura às culturas pagãs, manda acolher as outras religiões e, portanto, abrir a mesa eucarística, de modo que não discrimine, nem exclua ninguém. Na mesa de Jesus, não existe alguém que tem mais direito do que outro. Ninguém precisa sentir-se como cachorro, esperando migalha que cai da mesa dos filhos. 

           Esse evangelho manda-nos sair do nosso círculo religioso e ir ao encontro do outro, nas fronteiras do mundo, para acolher a palavra divina vinda através do outro e festejar o amor universal de Deus, manifestado em todas as culturas e religiões. E nos convida também a irmos além dos templos e das confissões religiosos e reconhecermos sinais do reinado divino em ambientes considerados profanos, mas onde, sem rótulo, a luz e a força divina irradia e humaniza as pessoas. 

            A atitude da mulher cananeia em insistir em ter acesso ao pão dos filhos  também pode iluminar-nos na luta pela igualdade da mulher no mundo atual. Não podemos mais acreditar em uma ideologia de “povo eleito”, menos ainda em superioridade de gênero.  Não podemos enclausurar-nos dentro de nossos conceitos e preconceitos, sem perceber a realidade ao nosso redor. É preciso parar e ouvir o que as mulheres, principalmente, as mães pedem, mesmo que pareça incoerente, mesmo que incomode e seja preciso mudar as regras...

 

 Poema da Mística Sufi: 

 

“O que fazer, se não me reconheço? 

Não sou cristão, judeu ou muçulmano. 

Já não sou do Ocidente ou do Oriente, 

não sou das minas, da terra ou do céu. (...)

 

O meu lugar é sempre o não lugar, 

não sou do corpo, da alma, sou do Amado. 

O mundo é apenas um, venci o Dois. 

Sigo a cantar e a buscar sempre o Um. 

 

“Primeiro e último, de dentro e fora, 

eu canto e reconheço Aquele que é. 

Ébrio de amor, não sei de céu e terra. 

Não passo do mais puro libertino.

 

Se houver passado um dia de minha vida sem Ti, 

desse dia, eu me arrependo.

Se pudesse passar um só instante contigo, 

eu dançaria nos dois mundos”. 

(Rumi, místico persa na Idade Média)[1].  



[1] - Cf. OLIVEIRA, Pe. Enio Marcos, Mateus, Parábolas de amor infinito. Petrópolis, Vozes, 2022, p. 89- 90. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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