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A palavra escondida onde nao se esperava

XVI Domingo Comum: Mt 13, 24- 43. 

                                                         Para se ver saída onde não aparece 

 

          Nesse domingo, o texto evangélico traz três parábolas, cujo contexto histórico se perdeu. Ninguém sabe exatamente quando, nem onde Jesus disse essas parábolas e nem se as contou no mesmo momento e contexto, ou se foram agrupadas pela comunidade que, nos anos 80 do primeiro século da nossa era, escreveu esse evangelho. 

           Vamos tentar compreendê-las, interpretando-as a partir da última delas. É estranho Jesus comparar o reinado divino com a mulher que coloca fermento no pão. Para o Judaísmo da época de Jesus, a mulher era considerada impura (por ter regras e derramar sangue). Então, comparar o reinado divino com uma ação de mulher já subvertia os costumes e ritos religiosos da época. 

Ainda pior o fato de que, conforme diz Jesus,  o projeto divino compara-se com a ação de uma mulher colocar fermento no pão. Para o Judaísmo da época, fermento era o símbolo da corrupção e do pecado. Até hoje, na festa da Páscoa, nas casas judaicas, procura-se qualquer mínimo resto de fermento para jogar fora. O pão pascal deve ser sem fermento. Então comparar o projeto divino com a força do fermento  escandalizava os religiosos do templo. Aliás, Jesus fez várias comparações que hoje chamaríamos de “politicamente incorretas”. Por exemplo, comparar o projeto divino com um ladrão que assalta uma casa (Mt 24, 43) ou com um gerente desonesto (Lc 16) ou empregador que paga igual aos lavradores que trabalharam só uma hora e aos que trabalharam o dia inteiro (Mt 20, 2 ss). 

              Todas essas comparações têm em comum um fato: o reino de Deus subverte os valores da sociedade dominante. Ao contrário, destrói a ordem vigente, injusta. 


               A segunda parábola contada por Jesus nesse texto que lemos hoje é a do joio e do trigo que depois, as comunidades de Mateus procuraram a alegorizar (Mt 13, 24- 30 e 36 - 42). A parábola do joio e do trigo é a única do evangelho, a qual Jesus, para alimentar a esperança das pessoas, dá uma explicação apocalíptica. É ele mesmo quem diz: “esperem o final dos tempos. Só então, os injustos serão separados das pessoas justas”. O evangelho enfatiza: “Os justos brilharão como o sol” (Mt 13,43).

                Na interpretação dessa parábola, o maior risco parece ser dividir, dualisticamenteas pessoas entre boas e más. É lamentável comparar Deus com um fazendeiro rico que tem servos (escravos) e dizer que Deus castiga os maus com o fogo eterno. Isso vem da interpretação literal ou fundamentalista da parábola. No modo comum como essa parábola é, em geral, compreendida, Jesus teria dito que o reinado divino é como o trigo semeado no campo e o diabo veio e semeou o joio. As Igrejas primitivas, como as comunidades de Mateus, nos anos 80, interpretaram assim. Mas, é possível que essa não tenha sido a palavra original de Jesus. Ao que tudo indica, ele contou essa parábola em tempo de crise. Sentia-se incompreendido e rejeitado por criticar o sistema político e religioso do seu tempo. Tentava explicar, porque tinha anunciado que o projeto divino viria imediatamente e, de fato, nada tinha ocorrido. Os opressores predominavam. Muita gente perguntava: Vale a pena ser justo? As pessoas cobravam  dele o fato do reinado divino tardar. 

              Se o contexto é esse, então, o fazendeiro que planta o trigo não é Deus. É sim o sistema dominante do mundo. De fato, no mundo em que Jesus viveu, quem tinha as plantações de trigo na Galileia eram estrangeiros ricos ou saduceus de Jerusalém, ligados aos romanos. E, ao contrário de como as comunidades de Mateus entenderam, o reinado divino seria justamente o adversário do império ou desse sistema. No mesmo evangelho de Mateus, Jesus conta a parábola, conforme a qual, Deus vem estabelecer o seu reinado, de repente, durante à noite, como ladrão que aparece inesperadamente (Mt 24, 43). 

Também, nessa parábola, Deus seria como o inimigo que vem e joga no campo a erva daninha. Ninguém pode contra o joio antes da colheita. Não adianta tirá-lo. Ele é venenoso e contaminaria o trigo inteiro. Só no tempo da colheita é que se pode separar. Então, se a interpretação original for essa, Jesus está dizendo aque o reinado divino vem de qualquer modo. Ninguém pode fazer nada contra ele. Essa interpretação vai no mesmo sentido da parábola do grão de mostarda. 

                Em seu livro sobre o Jesus histórico[1], John D. Crossan mostra que, provavelmente Jesus se referiu a um tipo de mostarda que não era plantada. Era mostarda selvagem que cresce mais do que as outras hortaliças (Os pássaros vêm se aninhar em seus ramos). Era praga. De acordo com os documentos antigos, os fazendeiros faziam de tudo para livrar-se dessa mostarda e não conseguiam. A semente de mostarda era a menor de todas e era teimosa e dura de arrancar. Vem como praga e quando cresce, abriga os pássaros que comem a plantação e, portanto, prejudicam o fazendeiro. Nenhum fazendeiro gosta de pássaros na plantação. 

         Então, de novo, Jesus está insistindo que o reinado divino é incômodo. É  como praga na lavoura. Quando a semente cai na terra, não tem jeito. Ninguém consegue arrancar. Na visão de Jesus, explicada aos discípulos e discípulas nesse capítulo, (Mt 13, 10 em diante), parábola não é para ser compreendida, mas justamente para ficar, como enigma, na cabeça e no coração das pessoas. As comunidades do evangelho leram a parábola do joio e do trigo, como se Jesus tivesse insistido na tolerância e leu a parábola do grão de mostarda para pedir paciência.


            É normal que, no decorrer dos tempos, o mesmo texto possa receber diversas interpretações. Na leitura mais comum feita pela Igreja, descobre-se no texto a mensagem de tolerância de Jesus e o fato de que trigo e erva má devem conviver até o final dos tempos. De fato, o reinado divino desenvolve-se no meio das ambiguidades da vida e nas contradições da história. A erva daninha só deve ser separada do trigo e arrancada na época da colheita. Só de dizer que chegará a hora em que a pessoa justa brilhará gera esperança e anima a perseverança na caminhada libertadora.  No entanto, parece que Jesus queria sublinhar outra coisa: o caráter persistente e invencível do reino dos céus. O próprio evangelho coloca a parábola da semente de mostarda imediatamente depois da parábola do joio e do trigo e junto com a parábola do fermento. De um jeito ou de outro, todas as três parábolas afirmam que o reinado divino é persistente. Quando chega, como fruto de um processo, ninguém consegue destruí-lo. Como praga no campo, ou como o fermento na casa, o reino divino no humano rompe com todas as estruturas da sociedade e, de algo que ninguém espera transformação, dá bom resultado. 


                Hoje, no Brasil e no mundo, vivemos um contexto social e político desafiador. Jesus viveu uma realidade assim. No entanto, assegura-nos que o projeto divino no mundo é como o joio que o fazendeiro não consegue tirar do meio do trigo. É como a mostarda selvagem que cresce mais do que as outras hortaliças e ninguém consegue eliminar. 

Lida a partir das categorias injustiçadas, a história da humanidade demonstra que os opressores e exploradores, embora tenham praticado muita violência, no final, serão vencidos e as pessoas justas e éticas que doam a vida em lutas coletivas por direitos e pelo bem comum, mais cedo ou mais tarde, são reconhecidas como testemunhas do reinado divino, pois fazem a história humanizando relações sociais. Vamos em frente e com confiança. 

 



[1] - CROSSAN, John Dominique. Jesus Histórico. Vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1994, p. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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