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A respeito de uma nota da Congregação da Fé

                 Alguns irmãos e irmãs me pedem para comentar a nota da Congregação da Doutrina da Fé, organismo da Cúria Romana, afirmando que a Igreja não tem o poder de dar bênção a um casal gay. Pelos comentários que lemos, a nota declara que, embora se devam respeitar as pessoas, deve-se condenar a união homoafetiva, considerada como “desordenada”. 

                  Como a nota da Congregação da Fé afirma ter recebido a aprovação do papa Francisco, muita gente se sente atordoada e pergunta o que pensar sobre isso. 

                   A primeira coisa a saber é que essa nota vem da Congregação da Doutrina da Fé e do cardeal Ladaria, justamente um dos setores da Cúria e da Igreja Católica que atualmente mais se colocam contra o papa Francisco e que sempre tem se posicionado contra qualquer renovação na Igreja Católica. Por isso, esse posicionamento não deveria surpreender a ninguém.  

                     A nota é estranha porque usa uma terminologia ambígua. Diz que a Igreja não tem poder de dar bênção a um casal gay. O que significa isso? A Congregação está falando de que? Fala de bênção matrimonial propriamente dita ou fala de simples bênção a casais gays? Na Igreja Católica, desde a Idade Média, se faz diferença entre sacramento e aquilo que se chama comumente de sacramental. Existe um livro para a administração dos Sacramentos e outro diferente é que o livro de bênçãos. Essa nota da Congregação da Fé parece confundir esses dois elementos. Fala que a Igreja não pode dar bênção a casais homoafetivos. Ora, padres abençoam casas, abençoam carros e antigamente abençoavam animais. Mas, pessoas humanas que vivem o amor homoafetivo não podem dar a bênção. O IHU (site do Instituto Humanitas) publicou artigo do teólogo italiano Andrea Grillo que chama a atenção para essa linguagem desproposital de “poder de dar a bênção”.  Negar uma benção é negar dizer o bem a alguém. É negar uma palavra de amor. Jesus nunca faria isso. 

                          Esses senhores da cúria colocam-se assim como legítimos sucessores dos doutores da lei e fariseus que na sinagoga condenavam a Jesus por curar no dia santo do sábado. O evangelho de Marcos conta que, um dia, na sinagoga, Jesus faz o que é considerado sacrilégio. Chama para o centro da sinagoga um homem que tinha a mão seca (era terminantemente proibido uma pessoa doente estar ali). Jesus os olha a todos com um olhar de ira, de indignação e pergunta:

                           - Em dia de sábado, o que é permitido fazer: o bem ou o mal, salvar uma vida ou matar? 

                              Hoje Jesus atualizaria essa provocação perguntando a esses doutores da lei: 

                      - Vocês falam em nome da Igreja Católica e dizem “A Igreja Católica não tem o poder de dar a bênção a casais homoafetivos? Não têm o poder de abençoar. Têm o poder de amaldiçoar, discriminar, legitimar a violência cotidiana do mundo contra eles? 

                      O que representa essa postura dessa Congregação da Cúria? Continuo estranhando a facilidade com a qual falam em nome da “Igreja”. Como alguns bispos fazem: “A Igreja Católica pensa assim ou age assim”. (L’État c’est moi).  Quantos bispos e padres, hoje, não estão de acordo com esse tipo de postura do Vaticano? Quem representa mais a Igreja: os missionários e pastores que estão na missão ou os burocratas do ofício central? 

                       O Concílio Vaticano II ensinou que Igreja é concretamente Igreja local.  Se é assim, Roma é a Igreja primaz da comunhão das Igrejas, mas não o escritório central de uma multinacional com filiais no mundo inteiro. Por isso, em matéria da fé e do essencial, devemos todos estarmos unidos, mas em matéria de disciplina e liturgia, cada Igreja local tem direito à sua liberdade. Ninguém deve ser obrigado a abençoar união gay, mas ninguém deveria ser proibido de fazê-lo. 

                 Pela doutrina mais tradicional da Igreja, no sacramento do matrimônio a matéria do sacramento é o amor e o ministro é o casal e não o padre. O padre é testemunha qualificada por parte da Igreja.  Todo amor em si é sagrado e não precisa de bênção de padre ou pastor para se legitimar. A função da bênção matrimonial seria não “abençoar” o amor que já é em si sagrado e sim fazer daquela união um sinal e testemunho público do amor de Deus pela humanidade. Se é assim, com essa declaração infeliz, o que a Congregação da Fé está dizendo é que se o casal não é homem e mulher, a união deles não é sinal do amor de Deus... Deveriam explicitar isso para que nós pudéssemos perguntar: Até Deus tem de pedir permissão a vocês para nos dar sinais do seu amor???

                 Não creio que hoje no mundo haja muitos casais homoafetivos que sintam necessidade da bênção eclesiástica para viverem a vocação para o amor. Se sentem, é normal que procurem Igrejas que queiram ser testemunhas de que Deus é Amor e portadoras da bênção divina e não Igrejas que se colocam como controladoras dos bens divinos e proprietárias da marca comercial Deus ou Jesus Cristo.  

                 No fundo, no fundo, o melhor a fazer neste assunto é ensaiarmos uma Igreja sinodal e não clerical e prestarmos atenção aos sinais de vida e de amor. A exortação Amoris Laetitia, do papa Francisco, embora também não seja tão aberta à relação homoafetiva, abre espaço de diálogo, ao dizer que a família se define pela capacidade de amar e que não podemos criar um estereótipo de família ideal, que tudo faz parte de uma busca e que a condição humana se dá em meio a fraqueza e a vulnerabilidade. A Amoris Letitia nos convida a olhar a práxis de Jesus. Propõe que mantenhamos o "olhar atento a Jesus". Aí está a verdade e aí está o parâmetro que devemos seguir. Visto assim, olhando na dimensão humana e do mistério, é este amor, entre duas pessoas, um amor que é verdadeiro, que se fará sacramento. A maior lei é a do amor. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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