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Carta de Quaresma 2026

                                                                                                    Carta de Quaresma

                               4ª feira de Cinzas

Querida irmã, querido irmão , 

 

Esta carta é para você, que não se satisfaz apenas com a luta do dia a dia e deseja viver algo inesperado e novo. Se você permanece na busca de algo mais profundo e radical, está no caminho da Mística profética e pascal. Nessas linhas, convido você a nos juntarmos para aprofundá-la mais neste tempo de Quaresma- Páscoa.  

Sobre este momento, a canção do Zé Vicente, inspirada em uma palavra do apóstolo Paulo, diz: “Eis o tempo de graça, eis o dia da libertação”. Um antigo cântico de Quaresma dizia:  “Eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação”.  

Nas Igrejas cristãs, até o século IV ou V, a Quaresma era o tempo da intensificação do catecumenato batismal. Neste tempo, irmãos e irmãs,  adultos ou adolescentes da comunidade, preparavam-se para receber os sacramentos da iniciação cristã (Batismo e Eucaristia) na Vigília Pascal. E toda a comunidade envolvia-se nesse processo. Na noite da Páscoa, a comunidade renovava os compromissos batismais e a alegria da sua missão. Para fazer isso de forma profunda, durante a Quaresma, intensificavam-se os encontros comunitários. E cada um, cada uma procurava viver um processo de aprofundamento pessoal, como tempo de retiro individual. O objetivo era aprofundar as motivações da nossa missão batismal no mundo e como podemos deixar-nos conduzir mais pelo Espírito de Deus. 

Infelizmente, ao tornar-se Cristandade de massa, a Igreja abandonou a prática comunitária do Catecumenato. Há algumas décadas, depois do Concílio Vaticano II, criou-se na Espanha e espalhou-se pelo mundo o Movimento do Neocatecumenato. A proposta é de retomar a espiritualidade pascal do Catecumenato e atualizá-lo para hoje. No entanto, lamentavelmente, organizou-se ainda no modelo de uma Igreja- Cristandade clerical, que parece legitimar políticas autoritárias de direita.  

Quanto a nós, para mantermos aceso dentro de nós esse fogo do amor e da radicalidade profética da fé, precisamos do encantamento próprio da celebração anual da Páscoa. Ela é como símbolo de toda a nossa vida que quer passar como vigília, da escuridão da noite ao novo dia da luz e da ressurreição.    

Em mosteiros e em algumas comunidades eclesiais, mantém-se um costume:  no começo da Quaresma, cada pessoa escreve uma palavra de compromisso que se propõe a viver de novo e mais profundo, a partir desse processo quaresmal. Nesse espírito, convido você a fazer nesses dias um propósito novo de vida pascal.

 Todos/as nós ainda temos em nossa vida, aspectos que são como regiões escuras, nas quais parece que a luz do evangelho ainda não chegou. Tente identificar ao menos alguma dessas zonas escuras e acenda sobre ela a luz da opção evangélica. Deus aceita você como é. Aceite-se também mais profundamente e saiba que seus irmãos e irmãs colocam-se com você nesse caminho da conversão pascal. Verifique que aspectos de sua vida ainda são dominados pelo individualismo e procure ver como passar à sensibilidade e à opção comunitária.  

Para fortalecer-se nesse caminho do Cristo, não imagine que você já sabe, ou que não precisa mais de aprofundamento. Não se acomode. Confie na força sempre renovadora do Evangelho e diariamente aceite beber dessa fonte que lhe dará alegria e força de renovação interior e comunitária.  Nesse Brasil ainda dominado por ameaças da extrema-direita classista e racista, principalmente nesse ano de eleições, Deus chama todos e todas nós a abrirmos caminhos de esperança. 

A Campanha da Fraternidade desse ano sobre Fraternidade e Moradia pede de nós abrirmos nossas casas e nossas vidas, para, cada vez mais, serem lares de acolhida. Também comprometemo-nos em nos solidarizar com a imensa população de gente na rua e sem casa. 

Medite e conclua se você concorda em assumirmos juntos esses três compromissos: 

1º - Partilhar o gosto de viver com as pessoas que estão à nossa volta (há muita gente que está perdendo o gosto de viver). 

2º - Comprometer-se com o Diálogo como missão (Diálogo da fé, diálogo intergeracional, diálogo político). 

3 – Construir em torno de nós o Bem-viver e o Bem-conviver no cuidado com a mãe Terra e uns(umas) com os outros/as.  

Nestes dias, meditei um texto de Santo Agostinho que, no século IV, comentava o salmo 36 e ensinava: “A tua oração mais profunda depende do teu desejo. Teu desejo é a tua oração. Se o desejo que tens do projeto divino é contínuo, também a tua oração é contínua. Não foi em vão que o apóstolo Paulo disse: Orai sem cessar (1Ts 5,17). Mesmo que estejas trabalhando e fazendo qualquer coisa, se desejas a intimidade com Deus e a sintonia com o seu projeto, não cessas de orar. Se não queres cessar de orar, não cesses de desejar”.

Deixo você com esse pensamento e peço que responda a essa minha carta de carinho e amor, não tanto a mim, mas a você mesmo, você mesma e para a comunidade ou grupo do qual você participa e que tem direito a esperar mais de você. 

Deus abençoe a você e a todos as pessoas de sua família e do seu convívio mais próximo. Seu irmão Marcelo Barros

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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