Blog Aqui vamos conversar, refletir e de certa forma conviver.

Cenáculos de resistência para a comunhão

5º Domingo da Páscoa – ano A: Jo 14, 1-12

  Redes de comunhão como cenáculos de resistência

                 Neste 5º domingo da Páscoa, a leitura evangélica é tirada da primeira parte do discurso de Jesus depois da ceia. São palavras que, conforme o quarto evangelho, Jesus teria dito a seus discípulos e discípulas, depois de cear, em contexto de perseguição, por estar incomodando os podres poderes. Ele as disse, antes de sair para o jardim onde será preso e, a seguir, condenado e morto. Ele quis preparar os discípulos e discípulas para viverem com ele o caminho pascal da cruz. O 4º evangelho transcreve essas palavras como um discurso após a ceia, uma espécie de discurso espiritual (Jo 13, 30 a 16, 33).  Se, hoje, escutamos essa palavra é porque queremos colocar-nos ali juntos naquela mesa e  escutar essa palavra de Jesus como dirigida a cada um, cada uma de nós e às nossas comunidades. 

Que alegria fazer parte desse grupo íntimo de Jesus. Vamos acolher essa palavra como confidência que Ele partilha conosco. Naquela sala estão somente as pessoas que lhes são mais próximas. Elas representam a nós todos e todas. Ele dá suas recomendações para vivermos a sua Páscoa e as nossas Páscoas, em meio a todos os problemas e desafios do mundo.  Essas palavras refletem mais a revelação do Cristo ressuscitado e não apenas do Jesus antes de morrer. Conforme afirma o evangelho, naquela noite, no cenáculo, aquele grupo teve dificuldade de compreender e nós também temos.

 Para Jesus, certamente, o sofrimento físico da paixão foi terrível. No entanto, para ele, o mais doloroso foi o aparente fracasso do seu projeto. Foi constatar que a sua proposta não foi acolhida. De acordo com o evangelho, Ele sabia que, naquela mesma hora, enquanto falava palavras de carinho e abria o seu coração aos amigos e amigas, Judas, um do grupo, estava encontrando os chefes religiosos para traí-lo. Sabia que, na hora H, todos os outros iriam fugir. Naquela mesma noite, Pedro, o mais ligado a ele, por três vezes, iria negar que o conhecia e dizer que nunca foi do seu grupo. 

Jesus sabia que os apóstolos não conseguiam compreender e aceitar o que ele propunha. Não penetravam na intimidade do projeto de Deus, pelo qual ele vivia e pelo qual iria dar a sua vida. Jesus parecia propor algo que ia contra a direção que o mundo apontava: o sucesso e o poder. Jesus propunha o serviço e a doação da vida pelo amor às pessoas e à sociedade. Eles e elas pareciam assumir a mensagem religiosa de união com Deus, mas não as consequências de que Deus é amor e nós só podemos encontrá-lo no serviço amoroso aos irmãos e irmãs. Não basta gostar de Jesus. Não adianta adorá-lo na Igreja. É preciso aderir ao seu projeto pascal,  que é doar a vida pelo próximo a partir das pessoas mais injustiçadas e testemunhar, assim, um caminho de libertação/salvação.  

 

O evangelho mostra que, mesmo diante da quase impossibilidade de ser compreendido, a palavra de Jesus ao grupo dos discípulos e discípulas é de pura afeição e terno encorajamento. Ele diz: Vocês aderem a Deus. O termo grego emouna, do qual procede o Amém, que usamos no final das orações, significa: eu, ou nós, aderimos a isso. A fé viva seria isso: aderir, colar em Deus. Jesus afirma: Vocês estão assim agarrados a Deus. Pois, então, agora agarrem-se do mesmo modo em mim... “Na casa do meu Pai há muitas moradas”.

Um padre iniciou o comentário desse evangelho perguntando à comunidade: - Quando nós morrermos, vamos para onde?” Todos responderam: - Para o céu.

Este tipo de comentário soa como se Jesus tivesse dito assim: “Pessoal, o céu é um hotel de cinco estrelas e eu vou lá e vou preparar um apartamento de luxo para cada um de vocês. Fiquem tranquilos!”.

Só que a perspectiva do evangelho de João nunca foi, nem poderia ser essa. Jesus jamais disse isso, nem poderia dizer isso, em sua cultura judaica, para a qual não existe esse dualismo de vida terrena e vida celeste. Há  outro lugar do evangelho no qual aparece essa mesma expressão: a casa do meu Pai. É quando Jesus expulsa do templo os vendedores de animais para os sacrifícios. Naquela ocasião, Ele diz: "Não façam da casa do meu Pai um covil de ladrões (Cf. Jo 2, 13 ss). A expressão é a mesma. Então, naquela despedida, certamente, Jesus também não estava falando da "casa do meu Pai" como se fosse o céu, depois da morte. 

A proposta de Jesus era preparar a sua comunidade  para o caminho pascal. Isso implicava enfrentamento social com os inimigos. Naquele momento de crise, era preciso fortalecer os discípulos e discípulas. Então, ele se referia a algo atual que pudesse ser força para eles e elas. Não  falava do templo. Aliás, nos anos 90 do século I, quando essas palavras foram escritas no evangelho de João, o templo de Jerusalém nem existia mais. Então, a casa do meu Pai tem ser compreendida no sentido simbólico, como quando a gente diz: Fulano é de casa. Não estamos nos referindo ao local onde mora. Afirmamos que ele é da intimidade. Pertence ao mais íntimo daquele círculo ou daquela família. E é isso que Jesus diz: ele coloca-nos na intimidade mais profunda com o Pai. E aí continua: Nessa intimidade, há lugar para a diversidade. Não tem que ser todo mundo do mesmo jeito. “há muitas moradas”. O termo grego monai que se traduz aí por moradas, na época, referia-se a uma espécie de barraca de acampamento que garantia que quem vinha no caminho pudesse descansar e refazer as forças. O contexto do evangelho é o de caminhantes. No prólogo do evangelho, está escrito que “a Palavra se fez carne e armou sua tenda (monai) entre nós” (Jo 1, 14). 

Agora, na caminhada pascal, Jesus afirma que as tendas são muitas e todas abertas à intimidade do Pai. É importante sublinhar isso, porque, quando Filipe diz que quer ver o Pai e Tomé pergunta pelo caminho, Jesus responde que quem o vê, vê o Pai (Deus assume para nós o rosto de Jesus) e afirma: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". 

Por causa dessas palavras, há quem conclua que só o Cristianismo está certo e que todas as outras religiões estão erradas. Como se Jesus tivesse falado de religião. Ele já tinha acabado de dizer que as barracas da intimidade do Pai são muitas, são diversas. Então, o que significa que só através dele pode-se ir ao Pai? É que ele assume essa diversidade de caminhos humanos. Respeita e acolhe todas elas. Assume tudo o que é humano. Hoje, ele confirma  que nossas pequenas comunidades, nossos grupos, seja a Igreja doméstica que formamos, sejam grupos de diálogo e oração, por menores e mais frágeis que sejam, são tendas divinas, nas quais Ele vem habitar e caminhar conosco nas estradas da vida. 

Temos de formar e, onde já existe, reforçar uma rede profética de defesa da vida que consiga apontar um caminho de futuro para uma sociedade mais justa, igualitária, politicamente, democrática e, ecologicamente, sustentável. Essa rede de pequenas comunidades podem se inspirar naquela comunidade de discípulos e discípulas reunidos naquela sala da ceia que a tradição chamou de cenáculo – lugar da ceia – e nós formarmos no mundo atual e mesmo em relação às estruturas religiosas tradicionais, cenáculos de resistência e de fidelidade ao Evangelho da ressurreição de Jesus e da nossa ressurreição com ele. 

Nisso, sim, sem substituir-se a outros consagrados e consagradas de Deus em todas as tradições espirituais,  para mim e para vocês, Jesus é o caminho, a verdade e a vida.

Sigamos

Zé Vicente e Fabiano Gonçalves - (Feat. Eliahne Brasileiro)

Com você,  eu me sinto seguro. 

Com você, eu não temo o futuro

Com você, eu caminho feliz 

É o Amor que nos diz: Sigamos.

 

Com você, vou decifrando a vida.

Com você, curo tantas feridas.

Com você, companheiro na busca

Eu não temo essa luta. Sigamos.

 

Sigamos! O caminho se faz caminhando.

Sigamos! Mão na mão, corações sempre amando. 

Deus-Conosco vai nos abençoando...

Vamos juntos remando,

Sigamos!

 

Deus-Conosco vai nos abençoando...

Vamos juntos remando,

Sigamos!

 

https://youtu.be/FSVOn7_jWx4?si=Zi1Drp7ojIS-em2I

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações