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Chamado atual à Santidade Política

O chamado atual para a Santidade Política

                Nesse domingo, no Brasil, a Igreja Católica celebra a festa de todos os santos e santas, na qual agradecemos a Deus por pertencer à comunidade dos santos e santas e escutar de novo o chamado divino para a santidade que hoje toma forma diferente de outros tempos. 

Se queremos ligar nossa fé com a vida concreta, não podemos continuar a ver os santos e santas, como são retratados pelos artistas nas Igrejas: pessoas com os olhos nos céus e não na terra e em tudo diferente das pessoas comuns. Até hoje, no processo para canonizar alguém, a hierarquia liga santidade com virtudes individuais praticadas de forma heroica. Nesta linha tradicional e puritana, santo ou santa é quem controla suas paixões e segue fielmente as leis de Deus e da Igreja. 

Se a nossa fé se expressa de forma social e profética, a santidade também tem de assumir um rosto político. O papa Francisco proclamou Oscar Romero como exemplo de santidade para toda a Igreja não porque ele foi um asceta ou porque se distinguiu pela devoção pessoal e sim porque arriscou a sua vida para defender a justiça e o direito dos pobres. Assumiu a cruz de Jesus como caminho de doação social e política. 

Esse foi o caminho de santificação de muitos irmãos e irmãs que chamamos de “mártires da caminhada da libertação” e é cada dia o modo como companheiros e companheiras nossas testemunham o seguimento de Jesus e o testemunho do reino de Deus. 

O papa Francisco propôs o modelo de uma Igreja em saída. Nesse jeito de ser cristão, a santidade também tem de ser “em saída”, ou seja para fora, para o mundo. Nesse caso, santidade é a doação da vida como fazem padre Júlio Lancelotti e a equipe que trabalha com ele na defesa e acompanhamento das pessoas em condições de rua. As virtudes que praticam não são as virtudes interiores ligadas a devoções e sim as virtudes sociais da generosidade, da partilha de vida e do cuidado com as outras pessoas e com a natureza. 

Neste domingo, o evangelho lido nas comunidades (Mateus 5, 1- 12) mostra exatamente que, para Jesus, a santidade não é uma coisa íntima e individual e sim é caminho coletivo, social e político. As bem-aventuranças são a proclamação de como as pessoas acolhem e vivem o reinado divino, ou seja, o projeto de Deus para o mundo. Jesus não fala as bem-aventuranças para pessoas individuais, mas para coletivos: as pessoas que são pobres, as que vivem aflições, as que trabalham pela paz e assim por diante. 

Bem-aventuranças é um termo que aparece de vez em quando nos salmos e nos livros proféticos do primeiro testamento. Mateus inicia o discurso da montanha, pondo na boca de Jesus oito bem-aventuranças. Algumas traduções simplesmente traduzem bem-aventurados por Felizes – as pessoas pobres de coração, felizes as pessoas humildes, felizes as que choram e assim por diante. Há traduções que preferem chamar “abençoados os pobres, os humildes, etc”. 

De fato, o termo bem-aventuranças é muito rico. Qualquer que seja a tradução contém um aspecto, mas não consegue expressar toda a riqueza que o termo evangélico contém. Diferentemente de abençoado e também de feliz, bem-aventurado/a significaria a pessoa que recebe de Deus o reconhecimento de sua honra e do sentido para a sua vida. As comunidades do evangelho ainda viviam em um mundo no qual as infelicidades da vida eram atribuídas ao fato de que Deus teria esquecido essas pessoas ou até, por alguma razão, as condenado à pobreza e à infelicidade. O mundo as considerava malvistas e mal faladas. 

Jesus subverte esse pensamento e deixa claro: Ao contrário, são justamente essas pessoas que o Pai considera bem-aventuradas: as que assumem a pobreza como opção de vida, as que são pequenas, são humildes, trabalham pela paz, etc... Esse é o critério de santidade de Jesus: é uma santidade social e política e não apenas uma forma de virtude interior e íntima. O que o evangelho de hoje nos diz é que Deus dá dignidade, força e sua bênção a todas as pessoas que reagem à barbárie instalada em nosso país. Em um Brasil assim, Deus nos confirma que são bem-aventuradas as pessoas que ousam se assumir como de esquerda e se consagram a ensaiar uma nova forma de organizar o mundo e a vida.

A santidade que Deus quer tem um jeito diferente da imagem habitual do santo e santa. Ao ler esse evangelho, penso em cada um, cada uma de vocês que lê essas linhas e se reconhece na caminhada por um novo mundo possível. A palavra de Deus confirma: hoje, vocês são os bem-aventurados e bem-aventuradas de Deus. No meio de todos os nossos problemas, fragilidades e mesmo contradições, vamos testemunhando o reino divino no mundo, ou seja, a realização do projeto de justiça e paz. 

É preciso abrirmos os olhos para esse novo olhar sobre a realidade e a nossa vocação. A festa de hoje confirma cada um/uma de nós nessa caminhada. Vamos em frente e com esperança de que nossa vitória não vem de uma conjuntura mais positiva e sim da força do amor divino que está em nós para transformar o mundo e também a nós mesmos/nós mesmas. Esse é o segredo da santidade nossa de cada dia. 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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