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Convite para o martírio

Rito de acolhida na irmandade de mártires

 “Desejei ardentemente comer com vocês esta Páscoa antes de padecer” (Lc 22, 14). 

 Queridos irmãos e irmãs, 

Esta é a palavra de Jesus que me vem ao despertar antes do sol nesta quinta-feira santa e me sentar para lhes escrever estas palavras de ânimo e comunhão neste momento difícil em que vivemos no Brasil e no mundo. 

Sim. Estas palavras tomam para mim hoje diversos significados: O primeiro é o mais simples: Que vontade imensa de estar junto das pessoas queridas que, como eu, sentem necessidade íntima e profunda de celebrar a Páscoa. Como gostaria de poder celebrarmos juntos esta Páscoa. 

Mas, no evangelho de João (13, 1- 15) lido na celebração desta 5ª feira santa, também há um problema com a liturgia da eucaristia. Esse evangelho substitui o rito da eucaristia pelo lava-pés e isso não pode ter sido por acaso ou por algum esquecimento. Não sei se atinjo profundamente o mistério do lava-pés que hoje é colocado como o evangelho a ser lido e meditado, como o evangelho que nos abre à celebração pascal deste ano. Sei que o lemos em um momento de profundo sofrimento para nós e para o nosso povo e me pergunto o que essa palavra do evangelho pode nos dizer para este momento que vivemos no Brasil e no mundo. 

Comumente o lava-pés é considerado o sacramento do serviço uns aos outros. Sei que os exegetas interpretam o texto como sendo uma preparação dos discípulos para o mistério da Cruz de Jesus. Há várias expressões e gestos que ligam o lava-pés e o que acontece um dia depois no Calvário. Os verbos usados para narrar os dois acontecimentos são os mesmos. Só que contado a partir da ressurreição, como se fosse um olhar de agora para ver o que ocorreu antes. Na ressurreição, Jesus se levanta. Naquele momento da ceia, Jesus se levanta da mesa. (O verbo levantar é o mesmo usado para ressuscitar). Depois, Jesus depõe ou se despoja de sua vida no calvário e de suas vestes na ceia. Depois se abaixa para lavar os pés e para ser crucificado e depois sepultado. 

Então, o lava-pés é como um anúncio da paixão que dá significado à morte de Jesus. Mas, os comentadores antigos iam além disso. Alguns como no século I o pensador judeu Filon de Alexandria lembravam que as bilhas de água deveriam estar no santuário para que nenhum sacerdote entrasse no santuário sem lavar os pés e sem estar purificados (Ex 30). Filon diz: “Não se deveria entrar com os pés não lavados no templo de Deus”. 

Nas sinagogas helenísticas do século I se ensinava que o lava-pés tinha a função de abrir a alma à manifestação divina. Traduzindo para nós hoje, seria: “O lava-pés era uma preparação para o encontro com Deus”. Então, se Jesus lava os pés dos discípulos significa que ele não só está anunciando a sua morte e mostrando o significado de amor que ele quer dar à sua morte, mas ele está principalmente avisando e preparando os discípulos e discípulas para o martírio, já que os pés que estão sendo lavados são deles. Ainda me chama a atenção que Jesus não aceita que Pedro entenda o gesto dele como sendo ritual. É mais do que um rito. É uma postura de vida. É um gesto de grande significado simbólico, mas é em si mesmo real. Os discípulos vão mesmo sofrer e doar a sua vida. Vão enfrentar o martírio. Nós todos, discípulas e discípulos de Jesus pertencemos pelo batismo à irmandade dos/das mártires que deveria ser toda Igreja cristã. 

Vocês que estão lendo essa página participam comigo do caminho de um Cristianismo que, sem descuidar da dimensão interior e mística,  assume ser uma espiritualidade libertadora também no plano social e político. Assim sendo, somos da Irmandade dos/das Mártires da Caminhada. Como sempre repito (até para mim mesmo), o martírio não é apenas um modo de morrer. É um jeito de viver e temos de aprender isso de Jesus e uns com os outros/com as outras. Que jeito? Como seria? 

Depois de lavar os pés dos discípulos e discípulas, Jesus diz: “Eu lhes dou um novo mandamento: que vocês se amem uns aos outros como eu os amei. O mundo vai saber que vocês são meus discípulos e discípulas se se amarem uns aos/às  outros/as” (Jo 13, 34- 35). 

É difícil expressar a alegria (podemos dizer mesmo a felicidade) que podemos experimentar na vida se levamos a sério essas palavras de Jesus, acreditamos que elas se dirigem a nós, a mim e a vocês, pessoalmente e, ao mesmo tempo, nos são dadas como “mandamento”, que na Bíblia, não significa apenas uma ordem dada a alguém, mas é orientação, ou rumo que devemos dar à nossa vida. Assim como o termômetro mede febre e o aparelho de pressão diz a temperatura, vou deixar um sinal e instrumento que vai medir a expressão do seu amor. E aí deixou a ceia como sinal do maior amor e carinho. O evangelho que ouvimos nessa noite começa dizendo: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim, ou seja, foi até o fim do amor, foi até onde o amor pode ir”.  E tendo dito isso, o evangelho diz: E aí se colocou à mesa com os seus discípulos (e discípulas) para cear. Jesus conclui o lava-pés afirmando: Isso que eu fiz, façam vocês também uns aos outros, para que possam ser felizes (Jo 13, 15).

A Igreja nunca interpretou que Jesus mandou a gente ficar repetindo diariamente o lava-pés e sim reproduzir na vida concreta o serviço amoroso e consagrado que cada eucaristia significa. Que Deus liberte nossas celebrações da camisa de força dos ritos formais sem coração e nos faça viver a páscoa nova de um amor cada vez mais generoso e aberto. Como diz a carta de João: nós somos as pessoas que cremos no amor. 

Não sei se alguém que entrar hoje em uma Igreja (Católica ou evangélica) e assistir uma missa vai poder descobrir nessa cerimônia a ceia de tanto amor que Jesus quis que ela fosse. Será que nossas celebrações continuam a ser esse rito de amor que Jesus pensou em deixar para nós? 

O evangelho de João dedica três capítulos às palavras de Jesus depois da ceia. E que palavras de carinho. É difícil imaginar, hoje, um pastor ou padre que tivesse coragem e condições de afirmar aquilo às pessoas com as quais celebra: “Assim como o Pai me ama, com esse mesmo amor divino, eu amo vocês... Não chamo vocês de servos, mas de amigos... Eu quero lhes dar minha alegria. Que o amor com o qual amo vocês, esteja em cada um e assim vocês se amem. Ninguém tem maior amor do que a pessoa que aceita dar a vida pela pessoa que ama... Deixo a vocês o meu sopro mais íntimo”.... Como ouvir essas palavras tão íntimas e carinhosas, como se ouve uma pregação doutrinal... E nós? Será que nos enchemos assim de amor e não de qualquer amor, mas do amor divino para nos colocarmos na ceia de Jesus? Será que as pessoas que frequentam e participam de nossas missas podem perceber que a ceia que celebramos é expressão profunda desse amor divino de Jesus e que nós aceitamos viver e manifestar? 

A preocupação com a vida do povo tem de ser o pano de fundo da celebração eucarística. O lavar os pés uns dos outros é o gesto de vida que a eucaristia deve representar, significar e expressar. Por mais bonito e comovente que seja o rito, se ele não corresponde à verdade da qual ele fala, se transforma em mentira, como seria o abraço ou carinho feito em alguém que não corresponda a uma verdadeira afeição e a entrega da nossa vida uns aos outros como foi o caso de Jesus. Temos de ajudar nosso povo a transformar essa catástrofe do genocídio que estamos vendo e sofrendo no Brasil em martírio que possibilite sair disso para uma vida nova, um tempo novo de nova Política e de libertação e vida digna para todos e todas. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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