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Hoje o mundo é Emaús e ao mesmo tempo Jerusalém

Hoje, o mundo é Emaús e, ao mesmo tempo, Jerusalém.

                 Neste domingo da Ressurreição que inicia os 50 dias da festa de Páscoa, nas celebrações pela manhã lemos como evangelho João 20, 1 – 9. No entanto, o Diretório da CNBB prescreve que, nas celebrações da tarde, se tome como evangelho Lucas 24, 13- 35. Como já propus a meditação do evangelho da Vigília Pascal (Marcos 16, 1 – 8), agora provoco a leitura do texto de Emaús. Esta passagem do evangelho tem nos acompanhado em muitos momentos fortes da caminhada das Igrejas na América Latina. 

A história dos dois discípulos que, no próprio domingo da ressurreição, viajam de Jerusalém à aldeia de Emaús resume as diversas etapas do itinerário da fé: 

1º - colocar-se a caminho. 

 2º  - caminhar juntos. 

3º - esquentar o coração ao escutar a palavra de Deus. 

4º -  Inserir-se com os pobres, companheiros de estrada e, a partir daí, reconhecer Jesus Ressuscitado, presente no companheiro e na partilha. 

 Há quem se pergunte e com razão se os dois discípulos de Emaús não seriam um casal.  Afinal, pelo que conta  história, pareciam morar na mesma casa, já que levaram Jesus para cear com eles em casa. No quarto evangelho, ao pé da cruz de Jesus, estava sua mãe, uma irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena (Cf. Jo 19, 25). Conforme antiquíssima tradição, Maria, mulher de Cléofas teria sido do grupo mais íntimo das discípulas que se tinham arriscado em acompanhar de perto todo o processo e a crucifixão. Difícil ter havido outro Cléofas no grupo dos discípulos, em Jerusalém e arredores  (Emaús, 12 km). E se esse Cléofas estava voltando de Jerusalém a Emaús onde morava, só podia estar viajando com Maria, sua companheira... 

Na primeira parte do texto, Emaús parece significar a volta à vida de antes. Esses dois discípulos de Emaús são a imagem das pessoas que não ousam mais sonhar, esperar, viver a fé. Muitas vezes, nos encontramos nessa situação. Quantas pessoas conhecemos que já foram da caminhada de Cebs, dos movimentos sociais ou mesmo de militância política e, de repente, deixam tudo, cansados e decepcionados. Muitos pensam que já deram o que podiam dar. 

A decepção era com o projeto de Jesus e era com a comunidade que praticamente tinha acabado (a prisão de Jesus dispersou a todos que fugiram com medo, mas também desiludidos porque a cruz de Jesus frustrou todas as suas expectativas. No Brasil, há muita gente que se sente assim em relação à esquerda e às propostas de um mundo novo possível. 

Na narrativa do antigo êxodo dos hebreus para a terra prometida, no deserto, ou seja na quarentena do distanciamento social que viviam, a maior tentação foi a saudade das cebolas do Egito. Entre nós, essa saudade assume outras formas. Pessoas que, em sua juventude, se mostravam de esquerda traíram sua história de vida por um cargo ou segurança econômica. Revolucionários jovens, ao envelhecer, se tornam reacionários. Casados descobrem que não estavam preparados para um compromisso sério e sentem saudades das noitadas de solteiros. 

A própria realidade da vida desmonta sonhos e esperanças. Parece que todos nós caminhamos para os nossos Emaús. Como os peregrinos daquele primeiro domingo da Páscoa, o nosso Emaús também, no primeiro momento, representa desistência e fragmentação. Só que em Emaús a experiência foi vivida em dupla, ou como casal. No nosso caso, muitas vezes, o amargor da desilusão nos isola e não queremos partilhar com ninguém. 

A boa notícia do evangelho de hoje é que, seja como for, graças a Deus, não somos largados ou abandonados. Neste caminho, o Cristo ressuscitado em pessoa aparece, embora não seja reconhecido. Nossos olhos estão incapacitados de vê-lo, não compreendemos o que ele quer dizer e nossos corações são amarrados demais para crer. E ele parte da realidade e nos pergunta: - O que está acontecendo? 

É importante que sempre possamos lhe dizer o que estamos vivendo, o que está acontecendo. É fundamental lhe expressar nossas desesperanças, inseguranças e medos. E só começamos a compreender quando ele faz conosco o que fez com os primeiros discípulos. Ele nos fala e explica as Escrituras aplicando-as à sua Páscoa. Só assim, nós começamos a compreender, assim como aconteceu com Cléofas e sua companheira. 

No caso dos dois que caminhavam para Emaús, ele os reaquece interiormente de esperança e amor. Eles dizem um ao outro: - O nosso coração ardia dentro de nós, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as escrituras.  

Só por causa disso, eles insistiram: - “Fica conosco, porque já anoiteceu”. 

Por terem sentido no companheiro de caminho uma Palavra que queimava por dentro, eles não quiseram largá-lo, mesmo sem o reconhecer. Hoje convivo com dois tipos de pessoas: em algumas, a Palavra toca e queima. Outras gostam e acham interessante, mas não deixam que a palavra penetre no mais íntimo do seu ser. De todo modo, para nós a expressão se tornou refrão pascal que repetimos sem cansar: agora nessa prolongada noite da pandemia: - Senhor, fica conosco porque já anoiteceu.

 Na segunda parte do relato, eles se reúnem para a ceia, na qual repartem o pão. Embora não fale de vinho (só de pão), o texto evangélico de Emaús alude que Jesus pronunciou a bênção sobre o pão. A comunidade guardou estes dois sinais (o da Palavra e o do pão repartido) como sacramentos e instrumentos da presença de Jesus no meio de nós e como a marca fundamental de nossas comunidades. 

A partir daí, há uma reviravolta nos discípulos e no rumo de suas vidas. Mesmo à noite, voltam correndo a Jerusalém. Será que nossas celebrações da ceia de Jesus conseguem, hoje, tocar, assim, em alguém? 

A volta deles  é o contrário da vinda. Voltam ao grupo para retomar a missão e o testemunho da ressurreição. Geograficamente, voltam à Jerusalém de antes, mas voltam diferentes do que eles eram antes da Páscoa e do que eram no caminho a Emaús. Agora, se trata de uma volta no sentido mais profundo de conversão pascal. Quando chegam lá, já encontram o testemunho dos onze: “O Senhor ressuscitou realmente” . E podem contar como o reconheceram na hora em que ele repartiu o pão. 

Hoje, na América Latina, as comunidades cristãs populares tentam restituir às nossas eucaristias este caráter de refeição fraterna e de sinal de que queremos viver uma economia de partilha e amor. 

Se ressuscitamos com Cristo, recebamos dele o espírito da ressurreição como transgressão ao atual status quo do mundo e da nossa Igreja. Façamos a volta de Emaús para junto com as comunidades e as pessoas teimosas na luta pela transformação do mundo sermos testemunhas da ressurreição. Como há quase 40 anos, dizia em um poema a guatemalteca Julia Esquivel: “Somos todos e todas ameaçados de ressurreição”. 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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