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Jesus vem ao nosso encontro em meio às tempestades da vida

XIX Domingo Comum: Mt 14, 22 - 33. 

 

Jesus conosco nas tempestades da vida

 

             Conforme esse evangelho, depois de alimentar o povo no deserto, a partir da partilha de cinco pães e dois peixes, Jesus vai orar na montanha e manda os discípulos atravessar o lago para o outro lado. As comunidades do evangelho de Mateus redigiram essa página a partir do antigo relato do livro do Êxodo que conta: Moisés conseguiu juntar e organizar o povo hebreu que estava escravizado no Egito. Deus os inspirou a  fazer a refeição da partida que foi a ceia pascal. Depois, aquele grupo de gente escravizada escapou da perseguição do exército do faraó. Ao chegar às margens do Mar Vermelho, Deus fez as águas se abrirem para salvar o grupo que estava sendo perseguido pelo exército do faraó.

Ao recordar esses eventos antigos, as comunidades do evangelho querem mostrar que Jesus realiza novo Êxodo. Assim como o povo hebreu fez a refeição pascal, também Jesus alimenta a multidão no deserto e, depois, manda os discípulos atravessarem o mar da Galileia. Na Bíblia, o mar é sempre símbolo das forças do mal. Enfrentar o mar é lutar pela vida. 

O evangelho diz que Jesus mandou (o texto grego diz que forçou) os discípulos e discípulas a entrarem no barco para atravessar um mar de noite e em tempo de tempestade. Ao ouvir isso, pensamos em tantos pastores, irmãos e irmãs nossos que, nos nossos dias, obedecem a essa ordem de Jesus. Aceitam viver a fé, inseridos nas lutas do mundo e no enfrentamento às tempestades sociais e políticas do país. Pensamos nos irmãos e irmãs que trabalham junto à população de rua, junto a migrantes e a comunidades em situação de riscos. 


Infelizmente, ainda há muita gente que quer ser discípula de Jesus, mas não aceita entrar no mar do mundo como esse se apresenta e passar para o outro lado, mesmo em meio às tempestades da vida. Há os que preferem ficar aproveitando o prestígio, como se Jesus tivesse aceitado ser um messias milagreiro, que multiplica pães e encanta o povo, distraindo-o da sua miséria e suas carências. Entretanto, Jesus nos convida a enfrentar as realidades desafiadoras para superar as contradições e construir o reinado divino embasado em relações humanas e sociais de justiça, ética, respeito, amor e solidariedade. 

 Conforme o evangelho, Jesus não quis esse tipo de religião. Partilha os pães com a multidão faminta, mas para que essa, alimentada, se dispusesse ao caminho pascal. Ao ver a reação passiva das pessoas e mesmo dos discípulos que não vão além daquilo, Jesus separa-se de todos, despede o povo e obriga os discípulos a se meterem nas tempestades da vida e das noites do mundo. 

 

             Até hoje, o lago da Galileia é famoso por suas tempestades fortes e perigosas.  Conforme o evangelho, aquela travessia ocorreu em uma dessas noites de tempestade. De fato, os discípulos de Jesus correram grande risco. No entanto, o evangelho mostra que, no meio da escuridão da noite e da tempestade do lago, Jesus vem ao encontro do seu grupo. Vem de madrugada e anda sobre as águas para salvar os discípulos na barca. É uma parábola sobre como Ele se manifesta em meio às tempestades das noites da nossa vida, sejam as tormentas interiores, sejam as tempestades sociais, políticas e econômicas de um mundo no qual, a desigualdade econômica é a raiz de todos os males sociais.  

Antigamente, no deserto, Deus agiu em favor do povo hebreu, que não é uma etnia, mas o conjunto dos povos oprimidos e injustiçados que têm fé em um Deus libertador. Deu-lhe o maná como alimento e propôs a partilha como forma de organizar a economia. Assim também, no deserto, Jesus alimentou a multidão propondo a partilha como modelo de organização social e refutando a lógica da acumulação. Isso o fez correr perigo e ele teve de sair de lá, por motivo de segurança. A travessia do mar representa o enfrentamento às forças sociais que se opõem à partilha.  

 

            A espiritualidade profética tem de assumir o enfrentamento com os poderes inimigos da partilha. O barco que enfrenta o mar é imagem da comunidade profética que enfrenta os poderes da dominação e da morte. O evangelho de Mateus conta essa história falando três vezes em “medo”, “angústia” e “pavor”. Isso revela a realidade que, em sua época, as comunidades cristãs viviam. Quando os discípulos gritam de medo, Jesus diz: “Tenham coragem. Sou eu. Não tenham medo”. É a mesma palavra que, antigamente, no Êxodo, Deus disse ao povo, que estava diante do mar e via o exército do faraó chegando para prendê-los: “Unam-se e deem um passo à frente.” E o mar se abriu e puderam atravessar. É a palavra que temos de ouvir hoje. 

A reação de Pedro foi pedir a Jesus para abandonar o barco e ir ao encontro dele por cima das águas. Isso é simbólico. Às vezes, em meio às tempestades da vida, há pessoas que têm essa mesma tentação. No lugar de ficar no barco, como todo mundo e enfrentar conjuntamente a tempestade, há pessoas mais piedosas do que as outras que querem um milagre para si. Dizem como Pedro: “Manda-me ir para junto de você por cima das águas”. Quando Pedro vai e afunda, Jesus lhe diz que a fé dele é fraca. 

Será que Jesus refere-se ao fato de que Pedro teve medo de caminhar sobre as águas ou será que, com essas palavras, afirma que a fé de Pedro é pequena, por ter abandonado o barco e deixado os outros, enfrentando o mar, enquanto ele procurava abrigo seguro, junto a Jesus? 

              Certamente, o projeto de Jesus é que os discípulos e discípulas fiquem juntos para enfrentar a tempestade e não tanto socorrer um deles. A cena de Pedro que se sente afundar no caminho entre a barca e Jesus é símbolo de que a insegurança e o afundamento no mar do mundo podem atingir até os ministros que representam a comunidade. Como Pedro, os pastores podem também se sentir afundando, no meio do caminho para o Cristo, quando a tempestade se torna mais ameaçadora.

 Pedro chama Jesus de “Kyrios”, “Senhor”. Na época,  isso era  subversivo. Só o imperador de Roma intitulava-se de Kyrios. Ao dar esse título a Jesus, as primeiras comunidades cristãs mostravam não aceitar o absolutismo de nenhum poder humano. Só Jesus é o Kyrios, senhor da nossa vida.  Em nossos dias, esse título que, no mundo antigo, tinha conotação subversiva e transformadora tomou conotação patriarcal. Por isso, é importante e urgente libertar Jesus de qualquer linguagem que legitime o patriarcalismo. Que tal se referir a Jesus como guia, sábio, luz, farol que ilumina e aquece nossa caminhada conjunta?


Como fez com os primeiros discípulos, hoje também, Jesus manda que passemos para o outro lado. Para a comunidade do evangelho, passar para o outro lado significava abrir-se aos estrangeiros, aos não crentes que moravam na outra margem do lago. Para nós, hoje, o que significa isso? Pode significar abrir nossas vidas e nossas formas de crer às religiões originárias que, até hoje, sofrem preconceitos e até perseguições. Pode significar abrir a fé a novos horizontes e no diálogo com o mundo de fora. 

           Na maioria das vezes, fomos educados a pensar em Deus no silêncio, na paz e associar a presença de Deus à claridade e à beleza de uma natureza tranquila. Comumente, não pensamos Deus presente nas tempestades da vida e na escuridão de nossas noites do espírito. Essa palavra do evangelho revela que Jesus traz a presença divina para o coração de nossas angústias, de nossos medos e nossas noites escuras.  

Atualmente, nas Igrejas cristãs, há irmãos e irmãs, incompreendidos e hostilizados dentro da própria comunidade de fé, porque vivem e propõem um modo de viver a fé como espiritualidade profética, contrária à religião meramente ritualista e devocional, alheia ao intento de construir um mundo novo, de acordo com o projeto divino. 

Precisamos receber a coragem de Jesus para enfrentar a tempestade dos faraós de hoje em dia e testemunhar o projeto divino em meio a uma sociedade que vai na direção contrária.  Que nossas celebrações possam ser alimento que nos deem força nesta travessia e nos libertem das visões fundamentalistas, dualistas e mágicas. Deus, mistério de infinito amor, age nas entranhas do humano e das realidades nas quais estamos envolvidos e envolvidas.  

 

 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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