V Domingo Comum: Mt 5, 1 - 12.
É preciso libertar as bem-aventuranças
Neste IV Domingo comum do tempo litúrgico, o evangelho proposto pelo lecionário ecumênico é Mateus 5, 1 – 12, ou seja, o início do discurso da montanha. Na cultura bíblica, a montanha é local sagrado e simboliza a proximidade com o Divino. Até hoje, nas culturas de muitos povos originários, a montanha é local da manifestação divina. Em Pernambuco, o povo Xucuru considera a Serra do Ororubá como montanha sagrada. Na cordilheira dos Andes, os povos Quétchua e Aymara consideram os picos gelados (Apus) como pedras de cura. Para muitos povos originários, as montanhas são sagradas e nelas se fazem as cerimônias a Pachamama.
Para o Evangelho de Mateus, a montanha da Galileia lembra o monte Sinai, montanha da aliança do Deus da vida com os povos oprimidos. O evangelho mostra que é como novo Moisés, que Jesus sobe a montanha. Ali, ele proclama a aliança de Deus com as pessoas pobres, aflitas, humildes e as que sofrem na luta pela justiça. É compromisso divino de que as pessoas sofredoras e desprezadas pela sociedade dominante sejam reconhecidas como abençoadas por Deus. Até então, a religião dominante pensava que os ricos são ricos, porque Deus os abençoa e os pobres são pobres, porque Deus não olha para eles. Esta mentira ainda é trombeteada pelos arauto da teologia/ideologia do domínio e da prosperidade.
Para Mateus, a proclamação do reinado divino no mundo começa pela proclamação das chamadas “bem-aventuranças”. Algumas traduções da Bíblia traduzem bem-aventurados por felizes. Mas, isso pode ser redutivo no sentido de que ser feliz é estado emocional, condição psicológica. As bem-aventuranças vão além das emoções. São situações de vida que manifestam a preferência de Deus por categorias humanas que a sociedade despreza e são feridas e humilhadas pela injustiça socioeconômica e política.
A sociedade antiga era toda baseada na honra. As pessoas pobres, aflitas e que amavam a paz e não a guerra eram consideradas sem honra. Jesus reverte isso. Reconhecer alguém como bem-aventurado significava afirmar que Deus dá a sua honra a essa pessoa. Ao proclamar como bem-aventuradas as pessoas empobrecidas, aflitas e que sofrem por lutar por justiça, Jesus revela por quem Deus tem preferência. O reinado divino vai realizar o que cantava o cântico de Maria: “Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os pequenos. Enche de bens as pessoas famintas e deixa os ricos sem nada” (Lc 1,51-52).
Jesus proclamou como honradas de Deus categorias de pessoas, sem nenhuma identificação religiosa, sem nada que denote valores éticos ou morais no comportamento dessas pessoas. É a situação humana delas que faz com que Deus as reconheça como dignas. Não porque Deus quer que sofram, mas porque, se Deus é Deus, elas vão deixar de sofrer. O reinado divino vai manifestar-se para inverter a realidade injusta do mundo. Desde séculos antigos, a Igreja reduziu as bem-aventuranças aos muros dos claustros. Desde o século IV, monges e monjas entravam em mosteiros, ou conventos, para viver o espírito das bem-aventuranças, como se se tratasse de ascese e de métodos de piedade religiosa. As bem-aventuranças não podem ser privatizadas por alguns pretensos religiosos.
No Brasil, ainda há crentes e pastores, pentecostais, evangélicos e católicos (até bispos e cardeais) que proclamam bem-aventurado quem propõe às pessoas se armarem e quem prega um Deus do ódio, da violência e fonte de discriminações.
Hoje e em todos os tempos, as bem-aventuranças anunciadas por Jesus questionam e interpelam, primeiramente, porque subvertem a lógica da sociedade dominante. Jesus não inventou as bem-aventuranças. Ele as proclamou como profeta de Deus, baseado em textos bíblicos que já diziam que as pessoas consideradas sem importância (que a Bíblia chama de “pequenos”) possuirão a terra (Salmo 37), as comunidades pobres receberão o reino (Is 61), as pessoas aflitas serão consoladas (Is 65) e assim por diante.
Literatura semelhante encontramos em outras escrituras sagradas, vindas da sabedoria ancestral da humanidade. Na história, no decorrer dos séculos, houve pessoas que viveram algumas dessas bem-aventuranças, sejam pessoas ligadas a tradições religiosas, como místicos budistas, hindus e islâmicos, ou xamãs da América Latina e houve também pessoas que deram a sua vida pelo povo, sem nenhuma vinculação com a fé.
No século XX, tivemos testemunhas das bem-aventuranças como, na Índia, o Mahatma Gandhi; na África do Sul, Nelson Mandela . No Brasil, podemos citar como pessoas bem-aventuradas, mártires como Marielle Franco, Chico Mendes, a Irmã Dorothy Stang e tantas outros irmãos e irmãs que nos confirmam que Jesus não se enganou: as bem-aventuranças do evangelho servem de baliza e orientação para as nossas vidas.
Hoje, mais do que nunca, é preciso libertar as bem-aventuranças do Evangelho das prisões que o mundo e as próprias religiões criam. Nossa vocação cristã é testemunhar que, pelo impulso do Espírito Divino, as bem-aventuranças acontecem para além dos templos no mundo nas lutas pacíficas para transformar o mundo, na resistência dos povos originários e das comunidades negras, na dignidade dos/das pobres e de todas as pessoas que vivem a fome e a sede de justiça.
Jean-Yves Leloup comenta as bem-aventuranças recordando que, no hebraico, o termo significa ao pé da letra: Em caminho! Em marcha! Ao declarar como bem-aventuradas as pessoas pobres, humildes, famintas e que choram, Jesus diz a elas e a todos e todas nós: “Não estacionem. Não desanimem. Não parem. Mesmo na aflição e na carência, caminhem e vão em frente”. É com “um passo à frente” na caminhada de luta pela bem comum e por direitos que o mar se abre. Aos irmãos e irmãs que veem o clero e muitos grupos de Igreja pararem, ou mesmo andarem para trás, Jesus nos diz: Não parem. Retomem a cada dia a caminhada de inserção da fé no meio do mundo dos empobrecidos. Vamos em frente!
“Felizes são os/as pobres com espírito
e quem comparte com os pobres os riscos e a esperança,
porque eles (e elas) têm o reino em suas vidas.
Contrariamente a toda propaganda
de produtos que dão felicidade,
felizes as pessoas aflitas,
porque sentirão em suas cruzes
a ternura de Deus que é Pai e Mãe.
Felizes as pessoas que sabem se vencer
na conquista da mansidão diária: a Terra será delas.
Felizes quem é justo
e busca a justiça, a defende e a forja.
e sentem fome e sede da justiça do reino.
o Reino saciará sua utopia.
Felizes as pessoas que têm misericórdia
e não deixam passar um sofrimento
sem achegar-se dele e nele derramar-se no óleo e no vinho:
eles/as encontrarão misericórdia.
Felizes os/as que trazem um coração sincero
e limpo o seu olhar:
mesmo na noite escura, verão a Deus.
Filhos e filhas do Deus da Paz,
irmãos e irmãs daquele que é a nossa Paz,
felizes os/as que lutam em paz e pela Paz,
construtores da estranha Paz do Reino:
deles e delas é o Shalom, o Axé, a Paz.
Felizes sois todos/as os/as perseguidos/as por causa da justiça; nas lutas pela terra do campo e da cidade,
nas lutas do trabalho, nas lutas pela vida.
Felizes vós, profetas, malditos do sistema,
pichados pela ordem,
Jogados no escanteio do Templo e do pretório:
felizes, alegrai-vos, o Reino já é vosso! (Pedro Casaldáliga)[1]
