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Nos meus 51 anos de ordenação presbiteral

“Tendo amado os seus e as suas que estavam no mundo, amou-os/as até o fim” (Jo 13, 1). 

Hoje, chego aos 51 anos de minha ordenação presbiteral. Releio as circulares de Dom Helder Camara e na madrugada do dia 22 de outubro de 1969, ele deixou escrito na sua 593ª circular: 

Se Deus quiser, na 6ª feira, estarei ordenando dois Padres excelentes: Dom Anselmo (Marcelo Barros) que é um dos esteios da Comunidade de Taizé e meu Conselheiro de Ecumenismo e Dom Beda (Pereira de Holanda) que vai ser o primeiro pároco de Guadalupe. A ordenação será no Mosteiro de São Bento, ao cair da tarde...  Bênçãos saudosas do Dom .  (Circulares pós-conciliares, vol IV, tomo 4, p. 172)

Dois dias depois, na noite da 6ª feira, 24 de outubro, na 595ª circular, no final de suas palavras aos grupos de evangelização, ele escreve: “ foi de abalar a cerimônia de ordenação de um diácono e dois Padres no Mosteiro de São Bento. Como está válido o novo texto do ritual de ordenação! Havia ali uns 30 Pastores (evangélicos) presentes: saíram engasgados de emoção. (Circulares pós-conciliares, vol IV, tomo 4, p. 178).

É muita emoção ler isso 51 anos depois; poder olhar o caminho vivido, pedir perdão por todas as falhas, limitações e pecados, mas ao mesmo tempo dar graças pela fidelidade de Deus que me conduziu até aqui na mesma estrada, mesmo passando por tão diferentes etapas e por tantos desafios e em meio a tanta fragilidade pessoal e tantas limitações. 

Depois de tanto tempo, continuo a ter de me levantar cada dia e dizer para Deus, para mim mesmo e para o mundo: “Hoje quero dar um passo a mais e decisivo no caminho da minha conversão”.

Procurando escutar a Palavra de Deus nos acontecimentos da vida, minha ordenação presbiteral (nunca usei ordenação sacerdotal porque esta para todos nós foi e é o batismo) se deu na Igreja que ainda vivia o tempo do pós Concílio Vaticano II e apenas um ano depois da conferência de Medellín. Era uma Igreja que, tanto no ponto de vista interno de sua organização, como no seu modo de viver a missão, tinha muitos conflitos e enfrentava dificuldades. No entanto, a minoria dos bispos e grupos proféticos conseguia lhe imprimir um rosto muito mais aberto e mais leve do que hoje, mesmo nesses tempos do papa Francisco.

Na arquidiocese de Olinda e Recife, cinco meses antes tinha sido assassinado o nosso mártir Padre Antônio Henrique e Dom Helder me nomeou junto com a irmã Pompea Bernasconi e o Padre Ivan Teófilo, a equipe de coordenação da PJ diocesana.  

No plano político brasileiro, vivíamos o tempo mais duro da ditadura militar, depois do AI 5 e da repressão aos estudantes com o decreto 247 que expulsava da universidade qualquer estudante “que fizesse política”, sem possibilidade de recurso. Confesso a vocês que, apesar disso tudo, às vezes, tenho a impressão de que aquele mundo daquele jeito ainda conseguia ser menos desumano do que a atual sociedade em que vivemos. 

Naquele 24 de outubro de 1969, na homilia da missa, Dom Helder propôs a mim e ao irmão Beda que se ordenou comigo que fôssemos presbíteros para despertar em todas as pessoas o exercício concreto e profundo do sacerdócio batismal que todos receberam. Por isso, nunca aceitei me chamar de sacerdote. Sou presbítero para ajudar a todos e todas os irmãos e irmãos pelo batismo a serem sacerdotes do Amor Divino no mundo. Nos primeiros tempos da Igreja, o presbiterato era um ministério colegial. Em todo o Novo Testamento, não aparece nenhum caso de alguém usando este ministério de modo individual. É sempre em comunidade. Em minha vida e até hoje muita gente fez e faz parte do ministério que me foi dado. Companheiros e companheiras do CEBI, da CPT, da Rede Celebra, do grupo Emaús e agora da Comunidade Bremén e de alguns organismos ecumênicos dos quais participo. 

Posso dizer que, nesses 51 anos, sempre vivi o ministério presbiteral como monge e em meio a esse redemoinho do mundo. Em todo este tempo, o único período no qual exerci um trabalho paroquial foi na paróquia do Porto de Cabedelo na Paraíba, em 1977, durante dois meses nos quais Dom José Maria Pires me pediu para substituir o pároco Padre Alfredo que estava doente e foi se tratar em São Paulo. 

Em 1976, grande guinada na vida. Saio de Olinda e vou ajudar o pequeno mosteiro de Curitiba. A partir dali entrei na Pastoral da Terra que estava começando e era o epicentro de uma grande violência que atingia o campo e que me fez ter a responsabilidade imensa de ser companheiro de vários mártires. Na CPT, convivi com o padre Josimo Tavares, com Ezequiel Ramin, com mártires como Vilmar Castro, agente de Pastoral em Goiás e assessorei cursos de Bíblia dos quais fazia parte a irmã Dorothy Stang. 

Com meus pais e minha família, aprendi a viver como pobre e a partilhar, no máximo das possibilidades, tudo o que sou e o que tenho. Agora, com 75 anos de idade não tenho casa, não tenho carro, nem dinheiro acumulado. Tudo o que tenho de material é um computador portátil, um celular e alguns livros, a maioria dessas coisas dada de presente. Nem os 58 livros que escrevi, eu consigo guardar. Às vezes, me perguntam se eu tenho algum exemplar de tal livro. Não faço ideia onde encontrar e não tenho.

Nesses 50 anos de padre, uma palavra do evangelho que me interpela sempre é a palavra de João Batista: “Sou apenas o amigo do esposo. O que eu quero é que ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 30)

Nesses anos mais recentes, tenho sido muito tomado pela palavra do evangelho de João que, no lugar da instituição da ceia, conta o lava-pés. Sempre se fala do lava-pés como serviço, o serviço do escravo mais humilde... Mas, em toda a Bíblia esse gesto não aparece. Não fazia parte da cultura da sociedade de Jesus, tanto que Pedro confunde com o gesto das abluções... O lava-pés que Jesus fez também é esse gesto de amor maior. O relato começa: Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim, isso é, amou-os até onde o amor pode ir... E todo o discurso de Jesus após a ceia tem como centralidade esse mandamento novo do amor e da predileção de Jesus. E isso na hora em que ele mesmo percebe que Judas sai para trai-lo e que Pedro o negará. E todos os discípulos o deixarão sozinho. Só as mulheres o acompanharão até a cruz. Mesmo assim ele faz esse gesto. Nos dias do Sínodo sobre a Amazônia, se falou em uma Igreja de avental... Uma Igreja que assuma mesmo o avental de servidora. 

Se eu pudesse, cada vez que entrasse em uma Igreja para celebrar a eucaristia, eu colocaria um avental comum e de preferência usado, por cima da túnica. Acho que seria bem mais litúrgico e de acordo com o evangelho. No entanto, mesmo o avental não bastaria para restituir às nossas celebrações o caráter de afetuosidade extrema que Jesus deu à sua ceia, (expressa principalmente pelo quarto evangelho). 

Fica aqui registrado o meu reconhecimento e minha gratidão por cada um/uma de vocês que participam deste nosso ministério (não é meu) e que me corrigem quando percebem que não estou sendo fiel. Obrigado e não esqueçam mesmo de continuar me corrigindo, sempre que acharem necessário. Como uma vez disse Dom Helder, o que posso hoje prometer é que vou continuar lutando até o último suspiro de minha vida por isso que acredito que Jesus quer para mim e para a nossa Igreja. Amém.    

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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