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O batismo de Jesus, segredo da dupla imersão

Batismo, o segredo da dupla inserção

mergulho no poço do seu próprio coração 

e mergulho no coração do povo.  

          Neste domingo, celebramos a festa do Batismo do Senhor. Nas Igrejas orientais, essa celebração é profundamente ligada à Epifania. Neste ano, o evangelho proclamado hoje é Marcos 1, 7- 11. 

É a primeira vez em que, no texto de Marcos, aparece Jesus. Marcos diz simplesmente “Jesus vem de Nazaré”, aldeia da qual a Bíblia não fala. Nazaré era lugar de má fama, como aliás, toda a Galileia, região chamada “dos pagãos”. Conforme este evangelho, Jesus vem do mundo da pobreza e do pecado e, depois do batismo e do deserto, volta para lá. Vem da inserção no mundo dos pobres e dos sem-religião e para lá volta. 

A comunidade de Marcos escreveu a história do batismo de Jesus inspirada no texto de Isaías 63, 15 a 19. Quem reler esse texto verá que ali o profeta pede a Deus que rasgue o céu e desça para vir libertar o povo. Marcos mostra que isso começou a se realizar no batismo de Jesus. Quando Jesus sai das águas, isso é, começa a cair a separação entre o céu e a terra. Acaba a divisão entre profano e sagrado, espiritual e mundano. Tudo é assumido por Deus e tudo deve ser assumido por quem é de Deus.  

Batismo é o termo grego para mergulho, inserção. O mergulho nas águas do rio Jordão, proposto pelo profeta João, era símbolo de purificação e de banho regenerador para uma vida nova. É significativo que o Jordão fica na fronteira entre a terra habitada e o deserto. É a fronteira, mas não separa. Liga. Faz a ponte. Une a dimensão social – a região habitada – a Judeia ou Galileia de onde veio Jesus e, ao mesmo tempo, o deserto, a solidão, o núcleo mais profundo do eu, o poço mais secreto e íntimo do nosso ser interior. 

Ao ser batizado por João no Jordão, Jesus une em si estas duas dimensões: assume a vocação de profeta. O evangelho mostra que ele faz isso, retomando o antigo Êxodo dos hebreus, isso é, a luta social de libertação e, ao mesmo tempo com a novidade da intimidade de uma aliança nova, um diálogo íntimo com o Pai através do Espírito. É quando assume a missão de profeta social que, pela primeira vez, Jesus pode ouvir a voz do Pai lhe dizer no mais profundo de si: Tu és o meu filho muito amado. 

Assim como Jesus, quando escutamos esta voz do Pai de Amor no mais íntimo do nosso ser, ela nos envia à luta e à profecia da libertação. 

Comumente se diz que o batismo de João era para o perdão dos pecados. Mas, que pecados? Para nós, a noção de pecado é moral. Naquela cultura, o pecado era social e cultural. Era viver uma situação que afastava a pessoa do templo e da pureza ritual. Pecadores eram os trabalhadores pobres que dependiam dos estrangeiros ricos para sobreviver. Eram as mulheres que ficavam impuras quando menstruavam e quando davam a luz. Eram as pessoas que abatiam animais para vender... Isso significa que eram os pobres marginalizados. Batismo para perdão dos pecados era para libertação das marginalizações que, em nome de Deus, deixavam os pobres fora da fé. 

O batismo de Jesus no Jordão foi uma profecia para o mundo religioso e para o político. Para os religiosos, o evangelho mostra Deus se revelando em um ato que é feito fora do templo, feito por um leigo e sem ligar nem para sacerdotes, nem para a lei cultual. Para o mundo político, o batismo representa o mergulho em uma vida nova e livre. Até em relação à proposta de João Batista, há uma mudança profunda. João insistia na confissão dos pecados. Para Jesus, o mais importante é que Deus perdoa de graça e acabou. Deus é que vem ao encontro da gente e nos salva. Isso muda totalmente a nossa forma de ser cristão/ã. Não somos nós que vamos a Deus. É Deus que vem a nós....

A manifestação de Deus é ligada ao “sair das águas”, isso é, ao tomar o início de uma vida nova, um começo novo. O texto grego do evangelho  usa uma expressão kai eutys, “de repente”. Inesperadamente, “ao sair da água, Jesus tem uma visão” (v. 10). Jesus sai da água e vai ao encontro do Espírito, do sopro divino, que desce sobre ele. A Ruah divina, o Espírito desce como uma pomba, isso é, de modo suave, para manifestar a ternura do Paizinho (Abba) a seu filho amado. 

Conforme o Gênesis, depois do dilúvio, na arca, Noé liberta pombas e a terceira pomba voltou trazendo no bico um ramo de oliveira, sinal da vida nova, na terra renascida depois das águas. Do mesmo modo, ao sair das águas, Jesus vê o Espírito como se fosse uma pomba indicar que, ali, começava um mundo novo. Marcos usa a mesma imagem do Gênesis: O sopro divino desce, como se fosse a pomba libertada da arca por Noé depois do dilúvio. O batismo de Jesus no Jordão  significa esse início novo do mundo e também recorda o Êxodo pelo qual o povo de Deus atravessou o mar que se abriu. O rio Jordão é o mesmo que os hebreus conduzidos por Josué tiveram que atravessar para entrar na terra prometida (Jos 3). É ao refazer o gesto de Josué e do povo e mergulhar neste mesmo rio que Jesus  recebe a revelação mais íntima do Pai (Tu és meu Filho muito amado) e o Espírito Santo desce sobre ele. 

Isso nos chama a unir estas duas dimensões da fé profética: nos inserir na vida do povo oprimido, comprometer-nos radicalmente com a libertação social e política e, ao mesmo tempo, nos abrir à revelação íntima do Pai que me sussurra no mais íntimo do coração: Tu és o meu filho muito amado. Que desafio imenso. Aos 76, ainda me sinto noviço nessa busca de unidade entre a vocação revolucionária e a dimensão pentecostal da fé. 

A inserção e, ao mesmo tempo, o aprofundamento da dimensão afetiva e interior da espiritualidade é o modo atual de vivermos a encarnação e o batismo de Jesus. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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