O Carnaval e a alegria do Espírito
O Brasil já está em ritmo de Carnaval. Antigamente, o Carnaval dominava mais o litoral do Nordeste, Salvador, Rio de Janeiro e algumas cidades históricas. Hoje, a televisão e os meios de comunicação estendem essa cultura para todo o país. Mesmo em meio às dores, angústias e dificuldades cotidianas, que não são poucas, as pessoas mergulham na dança, nas brincadeiras de rua e na alegria do Carnaval. Frevos, sambas, axés e outros estilos de música embalam a festa. Já nos anos 50, Dorival Caymmi resumia o sentimento popular ao cantar: "Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé...".
Há quem veja nisso mera alienação. Grupos religiosos tradicionalistas veem o Carnaval como expressão do mundanismo e ocasião de pecado. Alguns grupos cristãos conservadores inventam “Cristoval”, ou Carnaval de Jesus. Os grupos religiosos que pregam contra o Carnaval e inventam encontros espirituais para afastar as pessoas das brincadeiras de Momo usam como pretextos o medo do pecado e problemas como desordem moral, bebedeiras e drogas que, realmente, existem em qualquer evento de massa, como shows e manifestações coletivas. No entanto, essas pessoas, terrivelmente religiosas, já eram contrárias aos festejos desses dias, mesmo em épocas, nas quais o Carnaval era mais espontâneo e inocente. O que está por trás dessa rejeição moralista é o pensamento neoplatônico que opõe corpo e espírito.
Essa filosofia pagã incorporou-se de tal modo no Cristianismo que as pessoas esquecem que, conforme os evangelhos, Jesus gostava de festa e era sempre visto em companhia de gente não muito recomendável pela sociedade religiosa. Era acusado de ser comilão e bebedor de vinho. Conforme o quarto evangelho, Ele começa a dar sinais de sua missão, em uma festa de casamento e até transforma água em vinho, para que a alegria dos convidados pudesse ser completa (Cf. Jo 2, 1- 11).
Diversas vezes, nos evangelhos, Jesus afirma que veio ao mundo para que todas as pessoas tenham alegria e vida profundamente vivida (Jo 10, 10). Queixa-se de sua geração que parece com pessoas que, ao som da música e da dança, ficam indiferentes (Lc 7, 31- 32). Tudo isso leva-nos a pensar que, provavelmente, Jesus prefere o carnaval do povo na rua, do que retiros ou festinhas das pessoas que se consideram espirituais.
Nos anos 70, na semana antes do Carnaval, em uma crônica radiofônica, Dom Helder Camara, então arcebispo de Olinda e Recife, afirmava: "Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou o farisaísmo e a falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. (...) Brinque meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!" ("Um olhar sobre a cidade", 01/ 02/ 1975).
Toda festa, mesmo a mais aparentemente mundana, reúne pessoas em expressão de alegria. Por isso, tem dimensão nobre e mesmo espiritual. O que caracteriza a festa é a liberdade de brincar, o direito de subverter a rotina e de expressar alegria e comunhão, através de comida gostosa, música contagiante e dança que unifica corpo e espírito.
Em 1972, Chico Buarque compôs a melodia para o filme “Quando o Carnaval chegar”, comédia musical de Cacá Diegues que tomava o Carnaval como parábola da festa da libertação. Chico, Nara Leão, Maria Bethânia e Gal saíam pelas ruas cantando:
"Quem me vê assim,
parado e distante,
até parece
que nem sei sambar.
Tou me guardando pra quando
o Carnaval chegar".
Na época, tratava-se do Carnaval da libertação da ditadura militar e das opressões que vinham daquela estrutura autoritária de injustiças. Atualmente, o império não mais precisa de militares para garantir, em toda a América Latina, governos ilegítimos e ditadura econômica, disfarçada sob as aparências de democracia formal. Guerras midiáticas e bloqueios econômicos têm sido muito mais eficazes para derrubar regimes que se opõem ao Império e massacrar o povo que vota em governos que queiram transformar o mundo.
Por isso, a organização do povo nos blocos de Carnaval e a capacidade de coordenar multidões, ao som de uma marcha, samba-enredo, ou frevo de rua, manifestam a capacidade do nosso povo de se organizar social e politicamente. superar preconceitos e mentiras, diariamente jogados por meios de comunicação inescrupulosos e vendidos ao império. O Carnaval pode ser sim parábola e instrumento para superarmos as ondas de ódio e intolerância, propostas pela mídia dominante e lutarmos pacificamente por maior igualdade social e por justiça que signifique verdadeira libertação para todo o povo.
Com outras letras e outras melodias, em ritmos mais novos, continuamos a cantar o correspondente à velha música do Chico: “Quem vê assim, tão parado e distante, parece que eu nem sei sambar. Tou me guardando pra quando o Carnaval chegar”.
