Páscoa libertadora nos povos oprimidos do mundo atual
Domingo da Ressureição do Senhor – ano A: Jo 20, 1-9
nele exultemos e nos alegremos, aleluia!” (Sl 118).
Nesta manhã do Domingo da Ressurreição, vivemos como se o mundo começasse de novo e de forma original, mais renovada e criativa. É manhã de ressurreição, madrugada de um tempo novo. Nesta manhã feliz, escutamos como como leitura evangélica o relato de João 20, 1 -9.
Primitivamente, o capítulo 20 era o último do 4º Evangelho. Ele contém quatro relatos. São quatro cenas: as duas primeiras passam-se diante do sepulcro vazio de Jesus e as duas últimas cenas em uma casa que representa a “Igreja doméstica”, casa (em grego: oikia) na qual os discípulos e discípulas reúnem-se, com medo das autoridades religiosas judaicas.
A primeira cena dessa boa notícia acontece na escuridão da madrugada. O texto diz que, no escuro da madrugada, antes do nascer do sol, Maria Madalena foi ao túmulo. Os outros evangelistas contam que foram, ao menos, três as mulheres que foram ao túmulo de Jesus. Dizem que elas levaram perfumes para colocar no corpo. Esse evangelho que ouvimos hoje diz que só Maria Madalena vai ao túmulo. No quarto evangelho, ela representa a amiga- amada de Jesus e que simboliza todas as mulheres discípulas. Vai e vê que a pedra que fechava a sepultura está removida. O sepulcro, com tudo o que significa de escuridão, decepção e fracasso que esse lugar evoca, está vazio. Maria vê o túmulo vazio, mas não crê. Vai procurar Pedro e o discípulo amado por Jesus e diz a eles: - "Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram". Mesmo após a morte de Jesus na cruz, Madalena continua reconhecendo Jesus como Senhor (em grego: kurios). Era o título do imperador escravocrata de Roma.
É um belo relato, cheio de simbolismo, que o quarto evangelho transmite, provavelmente, tendo como pano de fundo uma passagem do livro do Cântico dos Cânticos, coleção de poemas de amor. No capítulo 3 desse livro poético, a amada sai pelas ruas à noite, à procura do amado e o encontra.
É uma cena semelhante que Maria Madalena vive naquela madrugada de domingo. Somos convidados/as a nos unir ao espanto de Maria Madalena ao ver o túmulo vazio e à sua busca naquela madrugada. Ela diz a Pedro: não sabemos onde o colocaram. O plural "sabemos" revela que ela representa um grupo da comunidade. É a partir dessa realidade que os diversos personagens representativos dos grupos que compõem a comunidade vão se expressar.
Pedro e o discípulo amado vão ao túmulo. Um caminha, mas é mais pesado e vai devagar. O discípulo amado corre e chega primeiro, mas espera o irmão. Pedro vê que o túmulo está vazio. Vê os lençóis dobrados, mas não crê. É o discípulo amado que vê o túmulo vazio e crê.
Como é bonito pensar que a primeira aparição do Ressuscitado teve lugar de um modo tão pessoal e surpreendente. Cada pessoa é uma história de AMOR, que Deus escreve nesta terra. Deus chama a cada um e cada uma de nós pelo nome. Olha para nós. Está à nossa espera. Cada pessoa pode viver essa experiência de ressurreição.
Nesse evangelho, algo que chama a atenção é que, quase em cada versículo, o texto usa verbos de movimento. Ela vai, volta, os dois discípulos vão, correm, um chega primeiro. Voltam… É no movimento, em ação processual, que a ressurreição de Jesus é experimentada. A descoberta da Ressurreição pede de nós movermo-nos e, às vezes, na pressa que o amor suscita.
Deus aceita os diferentes estágios de fé em que vivemos. De acordo com o evangelho, Maria, Pedro e o Discípulo Amado encontram o túmulo vazio. O Discípulo Amado, que representa as pessoas cristãs como esses devem ser, vê o túmulo vazio e crê. Pedro vê e não crê ainda. Conforme a continuação do texto que lemos nessa manhã, Maria Madalena nem entra no túmulo. Fica chorando fora do túmulo. Só vai acreditar quando escutar a voz de Jesus dizer o seu nome: “Maria!”
O evangelho explica que os dois discípulos ainda não tinham compreendido a Escritura, conforme a qual Jesus devia ressuscitar. É uma mensagem para nós: precisamos aprender a ler a Escritura e primordialmente a realidade da vida de modo a descobrir nelas que Deus inverte a realidade do mundo, subverte as decisões dos poderosos e mostra que a morte está vencida.
Se nós nos acomodamos nas nossas crenças e certezas, não seremos companheiros/as desses irmãos e irmãs que se arriscam em caminhar na madrugada à procura do Bem-amado. Refaçamos em nós mesmos e nos outros esse ardor da procura e deixemo-nos tocar pelos sinais da ressurreição, mesmo na escuridão de um mundo no qual não faltam sinais de morte.
Na manhã desse domingo, o evangelho dá-nos a alegria de recolocar-nos nessa caminhada na madrugada, que retoma novo princípio da criação – novo primeiro dia da semana – e refaz dentro de nós a ânsia alegre dessa procura. Somos convidados e convidadas a contemplar os sinais dessa aurora nova do mundo, no cuidado com a natureza, criação ameaçada de tantas formas, pelo mesmo sistema político-econômico-religioso iníquo que provocou a condenação de Jesus à cruz.
Somos convidados e convidadas a participar da Páscoa libertadora que Deus inspira e dirige nos povos oprimidos do mundo atual. Em seu tempo, o Papa Francisco afirmou: “No mundo, cada dia, renasce a beleza que ressuscita transformada através dos dramas da história. Os valores tendem sempre a reaparecer sob novas formas. Na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situações que pareciam irreversíveis. Essa é a força da ressurreição, e cada evangelizador e evangelizadora é instrumento desse dinamismo” (Evangelii Gaudium 276).
O teólogo luterano Bonhoeffer dizia que o Cristo ressuscitado é o Cristo em forma de comunidade. Depende de cada um de nós que nossa comunidade viva essa Páscoa como comunidade renovada e cuja vida é para os de fora e manifesta que Deus atua nos outros. Este é o sentido do batismo (mergulho) que renovamos na noite de Páscoa que acabamos de viver. Apesar de tudo, o Cristo ressuscitou. Feliz e sublime Páscoa para vocês, aleluia.
VIVA PÁSCOA
Doces cantares, poesia em flor!
Telas brilhantes, artes, abraços
Pão partilhado na luz do amor!
Como dizer-te, oh, Indizível!
Verbo Divino, terno e feliz!
Oh, Filho amado, do Amor mais fino!
Homem-menino, Deus te bendiz!
Aleluia! Aleluia!
Deus Ressuscitou, Jesus bem vivo está!
Aleluia! Aleluia!
Deus Ressuscitou, Jesus está aqui!
Doou-se todo, mergulhou fundo
No nosso poço dentro de nós!
Levou consigo as nossas dores
E o velho medo cego e atroz!
Passou por baixo das grandes pedras
Das armas todas do ódio letal!
Dos poderosos, que nunca amam
E espalham cinzas e ações do mal!
Todo marcado, deu vida à morte!
Renasceu livre! Belo e feliz!
No jardim santo, na terra inteira
De nossa história, justo Juiz!
Cantemos todos! Todas também
Corpos libertos, seres do bem
Um novo canto, de graça e glória
Tu és vitória da vida, amém!
(Zé Vicente).
https://youtu.be/xvf5r28x4Y4?si=WONb7Lv1uD8lhQVi
