Blog Aqui vamos conversar, refletir e de certa forma conviver.

O santuário do qual brotam as águas da vida.

O santuário do qual brotam as águas da vida

 

                    O Tempo da Criação é iniciativa ecumênica de várias Igrejas cristãs. Em 1987, o Patriarca Dimitrios de Constantinopla convocou as Igrejas Ortodoxas para celebrarem o 1 de setembro, como o Dia de oração pelo cuidado com a Terra. Em 2015, o Papa Francisco assumiu esse costume, já consagrado no Oriente e propôs a todas as Igrejas cristãs que, anualmente, celebrem juntas o Tempo da Criação, entre 1º de setembro a 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, como período especial de oração e reflexão sobre o cuidado com a Mãe-Terra, a nossa casa comum. Neste ano, a Comissão ecumênica que prepara os subsídios para essa celebração escolheu como tema a “Imersão em águas vivas”.  O texto bíblico escolhido como referência é Ezequiel 47, 9 a 12[1].

A maioria dos estudos sobre o livro de Ezequiel acredita que, como acontece com a imensa maioria dos textos bíblicos, por trás desses escritos, não há apenas uma figura individual e sim uma comunidade[2].

Seja como for, a referência é um profeta . Ezequiel é de família sacerdotal e teria vivido, no século VI antes de Cristo. Conforme o livro de sua profecia, ele passou a maior parte de sua vida no exílio da Babilônia. O império escravocrata babilônico deixou na terra conquistada a maior parte do povo judeu que passou a viver como escravo e pagar fortes tributos ao conquistador. E levou para serem escravizados na Babilônia os grupos de liderança política e religiosa, como os sacerdotes. Ezequiel era um deles.  

Tanto para as pessoas que ficaram, como para as que foram desterradas, houve um elemento mais chocante e terrível do que a fome e do que todos os sofrimentos físicos pelos quais passavam. Foi a destruição do templo de Jerusalém pelo exército invasor. As comunidades judaicas interpretaram a  profanação do santuário e o saqueio de todos os objetos sagrados como sinal de que até Deus teria abandonado o seu povo e nada mais poderia unir as pessoas vítimas do cativeiro. 

Para compreendermos melhor o texto que, nesse ano, nos é proposto como tema bíblico para  o Tempo da Criação, é bom salientar que ele foi escrito por um migrante escravizado em um império estrangeiro. Por isso, para nós, hoje, ele é ainda mais fortemente uma palavra de esperança e que aponta tempos novos e felizes para o povo cativo. Para reafirmar que Deus nunca abandona o povo oprimido e para ajudar as pessoas a retomarem a esperança de libertação, o profeta Ezequiel descreve, como se fosse um sonho, a reconstrução do templo em Jerusalém. 

Na tradição profética, o templo não é a casa de Deus, como é comum as pessoas falarem em nossas Igrejas. Talvez tenha sido naquele tempo do cativeiro e com a própria experiência da opressão e longe da terra e sem contar com o conforto de um templo religioso que as comunidades do povo bíblico tenham aprendido que Deus não precisa de templo. No Catolicismo Popular, é frequente a crença de que Nossa Senhora apareceu em determinados lugares (Lourdes, Fátima, Tepeyac) e pediu que se construísse naquele lugar um santuário para ela. Na Bíblia, Deus diz claramente: “Nunca pedi que construísse santuários para mim” (2 Sm 7, 7).  

Deus não mora em templos e sim está junto ao povo oprimido, onde ele estiver. Poucos anos depois de Ezequiel, a comunidade do 3º Isaías afirmou: “Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra é a base de apoio para meus pés. Assim sendo, que casa vocês vão poder construir para mim? E qual seria o lugar do meu descanso?” (Is 66, 1). 

Na concepção bíblica, o templo é a casa em que é invocado o Nome Divino. Se o povo mantém-se fiel à aliança, a glória de Deus, isso é, um sinal visível da sua presença, pousa sobre aquela casa, assim como, no tempo do deserto, a nuvem descia sobre a tenda de reunião, ou tenda do encontrocom Deus (Cf. Ex 33, 7ss). Então, na perspectiva de Ezequiel, a reconstrução do templo é fator de unidade do povo e da aliança entre as pessoas, assim como de libertação da terra. 

Na visão do profeta, o mais importante é que o templo novo não é construção fechada. O espaço sagrado vai além das paredes do santuário e se amplia para além do espaço do santuário. Manifesta-se na abundância das águas, na bênção da fertilidade da terra e nas plantas que curam. 

Nesse texto, proposto para a oração e reflexão, no Tempo da Criação de 2026, do lado direito do templo, corre um rio milagroso, que se espalha por aquela região árida e vai se tornando cada vez mais caudaloso e profundo. O rio corre em direção ao Mar Morto e transforma suas águas salgadas em águas saudáveis, cheias de vida, que abrigam peixes abundantes e possibilita, em suas margens, árvores frutíferas, com folhas medicinais.

No Novo Testamento, o último capítulo do livro do Apocalipse retoma essa visão de Ezequiel e afirma: “(O Anjo) mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça, de um e de outro lado do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore são para a saúde das nações. E ali nunca mais haverá maldição contra alguém. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos e servas o servirão”(Ap 22, 1- 3). E, mais adiante, conclui: “O Espírito e a esposa dizem: Vem!. E quem escuta, diga: Vem! E quem tem sede, venha; e quem quiser, gratuitamente, beba a água da vida” (Ap 22,17).

Aquilo que Ezequiel viu como bênção para o povo judeu no cativeiro, o Apocalipse diz que serve à saúde de todas as nações, ou seja, de toda a humanidade. 

Na América Latina, os povos originários creem que todo ser vivo tem espírito. As comunidades indígenas do Nordeste afirmam que são Encantados. Se é assim, a salvação divina atinge o conjunto dos seres vivos, que Leonardo Boff nomeia como  “comunidade de vida[3].

Esses textos bíblicos parecem confirmar a esperança do povo Guarani na Terra sem Males. Vem assegurar a certeza dos povos andinos na possibilidade real de fazer acontecer o bem-viver. Manifesta-se na bênção das águas que a tradição Iorubá celebra na festa das Águas de Oxalá. 

São revelações que, seja na tradição bíblica, seja nas culturas originárias de nossos povos, atestam que, como escreveu o profeta Ezequiel, a glória de Deus deixa o santuário de pedra e vem pousar no meio dos povos oprimidos e na Mãe-Terra, vítima da voracidade dos impérios opressores. Como seria bom que essa profecia pudesse, de fato, chegar, hoje, às nossas Igrejas e ajudá-las a serem guardiãs e testemunhas da sacralidade da casa comum e de todos os seres vivos. 

A maioria das culturas e os caminhos espirituais da humanidade reconhecem a Água como mãe da vida. É a partir da Água que renasce a saúde e a aliança amorosa entre todos os seres. Que as Igrejas cristãs possam exercer essa profecia e unir na mesma caminhada amorosa as mais diversas tradições espirituais na defesa da verdadeira democracia política e da paz, baseada na justiça ecossocial e na comunhão com as águas da vida e com a Mãe-Terra.  



[2] - Cf. SHOKEL, Luis Alonso. A Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2002, pp. 2013- 2014. 

[3] - BOFF, Leonardo. Ecologia: grito da Terra: grito dos pobres. São Paulo: Ática, 2004, pp. 50- 53. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações