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Orientações para a missão em situação de risco

Orientações para a missão em situações de risco

               Neste XV domingo do ano, o evangelho de Marcos 6, 7- 13 conta como Jesus enviou os discípulos em missão. No verso anterior, o evangelho dizia que Jesus percorria a Galileia, “ensinando”. De fato, para Marcos, tudo é ensino: a palavra em forma de enigmas (parábolas), mas principalmente as curas que Jesus faz para libertar as pessoas das doenças que as oprimem e das energias negativas que as dominam. Neste tempo de pandemia, é bom lembrar que o padre André Chouraqui (judeu), em sua tradução do evangelho ressaltando o sentido original de cada palavra, traduz possessão diabólica por: sopro contaminado. 

Conforme esse evangelho, o contexto a partir do qual Jesus envia os discípulos em missão é o fato de ter sido rejeitado em sua terra natal. Já que Nazaré fecha suas portas ao testemunho do projeto divino, Jesus envia os discípulos às aldeias das redondezas. “Enviados” é a tradução do termo grego: apóstolos. Eles são enviados para a mesma missão do mestre: testemunhar que o reinado divino está chegando. O programa que Deus tem para o mundo vai logo se realizar. E esse reinado tem o poder de libertar o povo das energias ruins (o texto começa dizendo que ele, Jesus, deu aos discípulos o poder sobre os espíritos maus). 

No primeiro capítulo do evangelho de Marcos, a missão de Jesus começa com a prisão de João Batista. João foi preso e Jesus o substitui como profeta. E partilha essa missão com os primeiros discípulos. Agora, esse segundo momento ou etapa da missão (dos discípulos) está ligado ao martírio de João (v 14- 29). É importante esse fato: a missão de testemunhar o reino sempre está ligada à profecia, à prisão e ao martírio. 

Conforme o evangelho de Lucas (Lc 8, 1- 4), além dos discípulos homens, um pequeno grupo de mulheres seguiu Jesus e participou dessa missão desde a Galileia. E esse grupo feminino vai ter muita importância na hora da paixão. As mulheres serão as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus. Jesus chamou homens e mulheres para serem discípulos. Talvez, isso tenha sido uma revolução tão grande para a cultura judaica e oriental da época que, mesmo algumas décadas depois de Jesus, as comunidades que escreveram os evangelhos não foram fieis a essa profecia. Temos de completar esse relato do evangelho e se referir às mulheres também enviadas em missão. Só assim, seremos fieis a Jesus e aos textos que falam de Maria Madalena e outras discípulas como “apóstolas dos próprios apóstolos”. 

A primeira coisa que chama a atenção no texto de Marcos é que Jesus chama os discípulos e discípulas para si e os/as envia. É a união com ele que permite que eles e elas partam em duplas. Em um mundo no qual os caminhos eram extremamente perigosos e violentos, andar em duplas possibilitava o mínimo de segurança. Nos lugares e casas que não os/as receberem, eles (elas) devem fazer o que os judeus faziam quando voltavam do estrangeiro à sua terra: sacudir o pó das sandálias contra essas pessoas. 

Se as nossas Igrejas hoje aceitassem agir assim com quem não acolhe o anúncio do reino de Deus como reinado da paz e da justiça, pastor pentecostal não teria recebido o presidente da República para festejar aniversário da sua Igreja e arcebispo nenhum faria missa televisionada e apareceria para todo o Brasil dando a comunhão a alguém que liga Deus à violência e ao desamor. Conforme esse evangelho, a missão é de paz, mas para quem não a aceita, se sacode até o pó das sandálias para não subsistir nenhum pacto com a ambiguidade. Jesus dá aos discípulos e discípulas poder sobre as energias negativas e lhes manda curar e libertar as pessoas do mal. 

Nestas orientações para a missão não há nenhuma palavra religiosa. A missão não visa a Igreja, nem a piedade individual. Tem como meta o testemunho do projeto divino no mundo. É eminentemente social e política

NB; Escrevi   esse evangelho antes de cair doente. Na quinta de manhã sofri um infarto. Sobrevivi e já estou melhor. Em breve. vp;tp a me comunicar com vcs. Abraço

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Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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