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Para que o nosso Pentecostes seja novo

Festa de Pentecostes  - ano A –  Jo 20, 19-23

  Que o Espírito, Mãe da Ternura, recrie em nós a festa sem fim

                Neste domingo, completam-se os 50 dias da festa anual da Páscoa. Conforme o livro do Êxodo, 50 dias depois da Páscoa, o povo hebreu, libertado da escravidão do Egito, reuniu-se no meio do deserto, no monte Sinai. Ali,  recebeu a aliança de Deus e a proposta de sua lei: O Decálogo. Esse 50º dia, (em grego Pentecostes) é celebrado até hoje. Nele, as comunidades judaicas dão graças a Deus pela aliança de casamento com Deus. 

Conforme o livro dos Atos dos Apóstolos foi em uma dessas festas judaicas de Pentecostes, que os discípulos e discípulas de Jesus receberam a confirmação do Espírito. O texto bíblico mostra a comunidade reunida em verdadeira unidade. Um dos cânticos que nas décadas de 1980 e 1990 eram muito usados nas comunidades começa cantando:

“Nós estamos aqui reunidos/as, como estavam em Jerusalém,

pois só quando vivemos unidos, é que o Espírito Santo nos vem”. 

 

Conforme o livro dos Atos dos Apóstolos, o Espírito manifestou-se como línguas de fogo, isso é, como luz que dá novo vigor à vida e nova capacidade de comunicação amorosa. Assim, eles e elas que estavam reunidos para aquela festa de Pentecostes entendiam, cada pessoa em sua língua e sua cultura própria. A mensagem que Pedro e os apóstolos falavam no aramaico da Galileia, idioma próprio deles, era compreendido por todos e todas ali reunidos, vindos das mais diversas culturas e idiomas.  Na diversidade cultural, aconteceu a comunicação amorosa e libertadora. 

 Neste dia de Pentecostes, a novidade foi a descoberta que o Espírito de Deus se manifesta em todos os discípulos e discípulas de Jesus, como está presente e atuante na natureza, desde a criação. O Espírito de Deus é a energia de amor ativa em cada ser vivo e na história da humanidade, em cada movimento de vida e libertação. 

 A boa notícia que, hoje, celebramos é que o Espírito, presente nos discípulos e discípulas de Jesus confirma-nos no testemunho de Jesus e do seu projeto do reinado divino no mundo. Como o próprio livro dos Atos narra, Jesus tinha prometido:  - “Vocês receberão o Espírito e serão minhas testemunhas em todo o mundo” (At 1, 8).  

Jesus chamou a atenção do seu grupo para o fato de que o mundo tem outro espírito, contrário ao espírito ou à energia divina. Se quisermos ser movidos pelo Espírito de Deus, não podemos ter nada em comum com o espírito do mundo, com idolatria do mercado e com fundamentalismos que tentam justificar moralismos e discriminações. 

 Outra observação importante é que essa manifestação do Espírito realiza-se no primeiro andar de uma casa (que a tradição chama de cenáculo). A casa é o espaço fundamental das primeiras comunidades cristãs. Pentecostes não ocorreu no espaço religioso, no templo, ou na sinagoga. Atualmente, precisamos retomar esse ambiente da casa, não só como moradia da família e sim como espaço e instrumento de comunhão, que pode ligar-nos com o mundo do público, onde ocorrem relações humanas e sociais. Era isso que no tempo das primeiras comunidades chamava-se de “Igreja doméstica”, a Igreja que se reunia nas casas…

 

O evangelho que ouvimos nessa festa (João 20, 19- 23) revela-nos que é no próprio domingo da ressurreição que Jesus dá ao grupo dos seus discípulos e discípulas o presente maravilhoso do Espírito. O dom do Espírito é consequência da ressurreição de Jesus e do encontro nosso com o Ressuscitado. Ele dá-nos a paz, devolve-nos a alegria profunda do coração, confirma-nos o perdão de Deus e pede que sejamos testemunhas desse perdão. “Recebam o Espírito. A quem vocês confirmem o perdão, essa pessoa será perdoada por Deus...”.

O texto do evangelho fala em perdoar, ou, literalmente, reter o pecado. Certas traduções da palavra de Jesus criam confusão: Jesus não dá aos discípulos e discípulas o poder de perdoar, ou de não perdoar. Ele deu tudo de sua vida para reconciliar com Deus até os seus inimigos. É preciso compreender o que significa “reter” no contexto cultural das comunidades cristãs primitivas. Outros evangelhos falam em “ligar e desligar” a pessoa do pecado: responsabilizar ou desresponsabilizar. O perdão é gratuito, mas é preciso, como, atualmente, insiste a Pastoral Carcerária, restabelecer o que se chama de "justiça restaurativa",  ou seja, na medida do possível, refazer o que foi destruído. O perdão não ocorre através de um rito, ou do esquecimento da culpa e sim pela superação do mal que foi provocado. É como se Jesus dissesse: “A responsabilidade das divisões e das guerras é do modo como vocês organizam esse mundo”. Ele perdoa totalmente a todos e todas, mas dá-nos a tarefa de empenhar-nos e de consagrar-nos como testemunhas e construtores da Paz e da Justiça ecossocial.

 

A festa de Pentecostes afirma uma profecia: que o dom do Espírito espalha-se pelo mundo todo, nas mais diversas culturas e religiões. Precisamos saber que o Espírito já nos foi dado e já está em nós e nas comunidades para transformar o mundo. Quando oramos “vem, Espírito Santo”, o que estamos querendo pedir é a graça de reconhecer e valorizar a sua vinda permanente. Desde muito antigamente, nesse domingo, as Igrejas costumam cantar como cântico de entrada da celebração um verso tirado do Livro da Sabedoria: 

"O Espírito do Senhor, o universo todo encheu.

Tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, 

Aleluia, aleluia, aleluia, aleluia". ( Sb 1, 7). 

 

Muitas vezes, o termo Ruah (Espírito em hebraico) é usado no gênero feminino. De fato, na Bíblia, as atribuições do Espírito são aquelas que, na sociedade tradicional, eram consideradas como mais femininas: aconselhar, confortar e outras, ligadas à tarefa da mãe. Isso ajuda a contemplar o rosto feminino de Deus e a insistir na igualdade do homem e da mulher, como profecia de Pentecostes nas Igrejas. Se nos abrirmos ao Espírito, seremos profetas e profetizas dessa igualdade do homem e da mulher, no mundo e nas Igrejas. A proibição da mulher exercer ministérios na Igreja Católica atenta contra o Espírito. É o contrário do espírito de Pentecostes. 

Uma das maiores contradições que pode haver no mundo é uma igreja ou grupo que se diz pentecostal ser tradicionalista, apegado à lei e fundamentalista na forma de ler a Bíblia. O apóstolo Paulo já advertia: “A letra mata. É o Espírito que faz viver” (2 Cor 3, 6). “Onde houver o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2 Cor 3, 17). 

Se somos portadores e portadoras do Espírito, temos de ser radicalmente revolucionários e revolucionárias, em relação à sociedade e também em nossas Igrejas. Somos nós que temos de sempre ir descobrindo e ir manifestando o que “o Espírito de Deus diz hoje às Igrejas e ao mundo” (Ap. 2, 5). Mesmo se podemos alegrar-nos com essa presença do Espírito em nós, na comunidade e no mundo, a Igreja aconselha-nos a, sempre de novo, pedir que Ele venha e nos impregne com o seu amor. 

Uma das características da ação do Espírito na Bíblia é que quando a comunidade experimenta a ação do Espírito divino, essa sempre gera profecia. Assim aconteceu quando Moisés partilhou seu Espírito com 70 anciãos, mas dois – Eldad e Medad – fora da tenda estavam profetizando. Movido pelo Espírito, Moisés afirma: “Oxalá todo o povo seja profético e receba o Espírito de Deus!” (Nm 11,29). Em Atos dos Apóstolos em várias passagens, sempre sob a experiência do Espírito, acontece a profecia. Logo, quem diz que está fazendo experiência no Espírito, mas não está se tornando pessoa profética não está em sintonia com a mensagem bíblica. 

Em uma poesia, Pedro Casaldáliga orava: 

 “Vem, Espírito Santo, Vem, ou melhor, vamos:

Faze que nós vamos aonde Tu nos levas. (...)

Vem, para arrancar-nos, numa ventania 

de verdade e graça, de tantas raízes 

de mentira e medo que nos escravizam.

Vem, feito uma brisa, para amaciar-nos, 

feito um fogo lento, um beijo gostoso, 

a paz da justiça, o dom da ternura, 

a entrega sem cálculos, 

o amor sem cobrança, a Vida da vida. 

Vem, sobre o mundo estéril 

E suscita nele a antiga esperança, 

a grande utopia da Terra sem males, 

a antiga, a nova, a eterna Utopia! 

Vem,  vamos, Espírito!”   

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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