Páscoa de Maria, Mãe de Jesus: Lc 1, 39- 56.
No ano litúrgico, temos várias festas de Maria que celebram acontecimentos ou realidades que dizem respeito, especificamente, a Maria. Esta festa de hoje celebra algo que Maria tem em comum com todos e todas nós: a participação na Páscoa de Jesus. Hoje celebramos ter acontecido com Maria o que acontecerá com todos e todas nós: a ressurreição em Cristo e com Cristo. O dogma católico insiste em falar de assunção em corpo e alma. No entanto, independentemente, dessa linguagem, que está ligada a uma compreensão da realidade e da vida que a cultura moderna já não tem mais, o fato é que todas as Igrejas cristãs professam no credo: creio na ressurreição da carne. Se compreendemos a Páscoa de Maria como participação na ressurreição de Jesus, podemos dizer que Deus antecipa como profecia em Maria aquilo que projeta para a toda a humanidade: a ressurreição.
O evangelho proclamado nesta festa é a visita de Maria a Isabel que termina com o famoso cântico de Maria. O próprio começo do evangelho fala que Maria subiu a montanha para visitar sua prima... Esta subida pode ser vista como um início de uma assunção – de uma subida que é mais do que apenas à montanha de Israel. Nos relatos do que, comumente se chama “evangelho da infância” em Lucas (Lc 1 e 2), Maria é sempre vista como figura da nova Sião, imagem do novo povo de Deus. Assim sendo, a subida de Maria à montanha da Judeia representa, como em antecipação, a assunção de todo povo oprimido que Deus glorifica e ao qual Ele dá força.
Se a subida de Maria para visitar Isabel foi para ajudar a sua prima grávida, a subida de Maria ao ser assumida por Deus é também para servir – imagem da Igreja e da humanidade nova, gerada pelo Cristo ressuscitado.
O evangelho da visitação nos traz as duas primeiras profecias do Novo Testamento: a primeira foi de Isabel que, cheia do Espírito Santo, profetiza que Maria é feliz, ou bem-aventurada, por ter acolhido e vivido a Palavra que Deus lhe dera. Depois, vem a resposta de Maria que também profetiza. E sua profecia como a das primeiras profetizas da Bíblia, Míriam, irmã de Moisés e Ana, mãe de Samuel, é também um cântico em nome de toda a humanidade, libertada pelo projeto divino, que o Cristo veio testemunhar e nos ensinar como colocar em prática.
Não deixa de ser surpreendente que em seu cântico, Maria não diga uma palavra sobre o filho que espera. Não comenta nada do que o anjo lhe dissera e nem diz como se sente ao viver a vocação de mãe. Isabel a chama “mãe do meu Senhor”, mas, em seu cântico, ela não se refere diretamente a isso.
O cântico de Maria, inspirado no cântico de Ana (1 Sm 2) e alguns salmos bíblicos como o Sl 113 e 146, celebra o que Deus faz, ao reverter as situações humanas e revelar a sua misericórdia para o povo oprimido. A profecia de que Deus derruba do trono os poderosos e levanta os pequenos, enche de bens os famintos e deixa os ricos sem nada é das palavras mais radicais do Novo Testamento.
Em seu comentário a esse cântico, o exegeta espanhol José Luís Sucre cita um autor (Charles Maurras) que, com fina ironia, dá aos padres o seguinte conselho: “Cuidem de que esse cântico seja sempre cantado em latim, com uma melodia muito bonita e tocante e durante o cântico se use muito incenso, de tal forma que as pessoas se distraiam e não se deem conta do que estão cantando”[1].
Ao contrário, precisamos dar-nos conta do que afirmamos quando cantamos o cântico de Maria e não podemos fazer de Deus um velhaco mentiroso, que não cumpre o que promete. E precisamos levar a sério a promessa de Maria: Deus derruba mesmo do seu trono os poderosos. Existem os grandes deste mundo que se acham poderosos e existem os pequenos poderosos que exatamente pelo fato de que o seu poder é pequeno, tendem a se agarrar mais ainda ao poder e, assim, legitimam e sustentam poderosos brutais. Quantos líderes religiosos ostentam poder no lugar de expressar amor e cuidado com o povo? Podemos mesmo nos rever: será que nós mesmos e nós mesmas, na caminhada da libertação, uma vez ou outra, não nos deixamos seduzir pelo pouco poder que podemos ostentar?
Se Deus é Amor, é anti-poder. Se nós nos apegarmos aos pequenos poderes que todos nós, aqui e ali, ainda temos, estamos dando um testemunho de Deus que é contrário ao que esse cântico promete: Ele derruba todos os poderosos dos seus tronos. Nas pastorais sociais e nos nossos ambientes de vida e de trabalho, precisamos inverter o que seria postura de poder em postura de mais serviço e mais doação de vida. E, ao assimilarmos e introjetarmos pequenos poderes acabamos, consciente ou inconscientemente, sustentando e reproduzindo hierarquias socioeconômicas e políticas. Paulo Freire denunciou isso ao alertar que o oprimido não deve ser hospedeiro do opressor.
Talvez isso explique porque nos anos 1980, os generais da Ditadura Argentina, apesar de se declararem muito católicos, censuraram e mandaram retirar dos livros litúrgicos usados nas Igrejas os versos mais perigosos e subversivos do cântico de Maria.
Infelizmente, na história da Igreja Católica, várias das devoções a Maria e das aparições a ela atribuídas tiveram sempre um caráter político de direita. Em Lourdes e em Fátima, as mensagens ditas de Maria era para orar contra o Comunismo. Em Medjugorne, na Polônia, as aparições coincidiram com a luta contra o governo comunista. No Brasil, em recentes campanhas eleitorais, católicos tradicionalistas se reuniam diante de Igrejas para pedir a Nossa Senhora que liberte o Brasil do Comunismo. Essas pessoas sempre rezam o terço, mas nunca cantam o Magnificat, ao menos por inteiro.
Na primeira leitura das celebrações e cultos deste dia, temos Apocalipse 12 que descreve a imagem da Mulher grávida, em dores de parto e vencedora do dragão que cuspe fogo. Essa imagem nos chama a contemplar em Maria a figura da mulher resistente e vencedora do mal que se abate sobre a terra. É a imagem da humanidade nova da qual a Igreja deveria ser figura profética. Nessa imagem da Mulher grávida e perseguida pelo dragão estão as nossas pequenas e frágeis comunidades eclesiais de base. Estão todos os grupos da caminhada de libertação, independente dos rótulos que possam ter. Essa luta contra o dragão ocorre diariamente em cada local em que vivemos. Hoje a vitória da Mulher no deserto é simbolizada na Páscoa de Maria, mãe de Jesus e nossa mãe. Ela antecipa a vitória das mulheres na luta contra o machismo e contra todos os tipos de opressão.
É preciso que ao contemplar a vitória pascal de Maria possamos todos e todas nós engravidar da humanidade nova que Deus inspira e que desejamos para o mundo.
Virá o dia em que todos, ao levantar a vista,
veremos nesta terra reinar a liberdade. (bis)
Minh’alma engrandece o Deus libertador,
Se alegra o meu espírito em Deus, meu Salvador
Pois ele se lembrou do seu povo oprimido
E fez da sua serva a Mãe dos esquecidos.
Imenso é seu amor, sem fim sua bondade,
Pra todos que na terra lhe seguem na humildade
Bem forte é nosso Deus, levanta o seu braço
Espalha os soberbos, destrói todos os males.
Derruba os poderosos dos seus tronos erguidos
Com sangue e suor de seu povo oprimido
E farta os famintos, levanta os humilhados,
Arrasa os opressores, os ricos e os malvados.
Protege o seu povo, com todo o carinho,
Fiel é seu amor, em todo o caminho!
Assim é o Deus vivo, que caminha na história
Bem junto do seu povo, em busca da vitória.
Louvemos nosso Pai, Deus da libertação,
Que acaba a injustiça, miséria e opressão.
[1] - Cf. SUCRE, José Luís. El Evangelio de Lucas, Una imagen distinta de Jesús. Editora Verbo Divino, Estela (Navarra), 2021, p 129.
