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Passar do batismo das águas ao mergulho no Espírito

II Domingo Comum : Jo 1, 29-34

Do batismo das águas ao mergulho no Espírito

                    Neste II Domingo do tempo comum, o evangelho proposto pelo lecionário ecumênico é João 1, 29- 34. A primeira série de domingos do tempo comum (antes da Quaresma) começa por esse trecho do quarto evangelho que conta o testemunho de João Batista ao reconhecer Jesus no momento do batismo. O que lemos hoje neste evangelho é que as comunidades pentecostais têm razão: não basta o batismo nas águas. É preciso sermos batizados e batizadas (mergulhados/as) no Espírito de vida. Essa era a preocupação das primeiras comunidades cristãs que, no final do século I, escreveram esse texto: Não basta o rito das águas. É preciso mergulhar no Espírito que gera vida e esse evangelho sublinha que Jesus pode fazer isso conosco. 

Atualmente, não temos mais dentro das Igrejas essas controvérsias que foram próprias do final do primeiro século entre comunidades cristãs e grupos que se consideravam discípulos de João Batista. No entanto, ainda hoje, em todas as Igrejas cristãs, temos muita gente que colocam a segurança da sua fé em leis, estruturas, doutrina e ritos. 

A esses, o João Batista do quarto evangelho confessa: Eu não o conhecia... (Jo 1,33). Alguém pode perguntar como João podia dizer que não conhecia Jesus, se o evangelho de Lucas coloca João e Jesus como parentes e se mesmo neste Evangelho segundo João, antes dessa cena, João já havia dado testemunho do Cristo (Jo 1, 19- 28). Aí descobrimos que o conhecer ao qual João se refere não corresponde a um conhecimento formal. O conhecer bíblico é entrar na intimidade do outro, implica convivência profunda. Em sua versão do Quarto Evangelho, André Chouraqui traduz essa palavra de João Batista da seguinte maneira: "Antes, eu não havia penetrado no conhecimento mais profundo da sua pessoa"[1].

De fato, antes, João havia dito aos mensageiros dos fariseus: no meio de vocês, está alguém que vocês não conhecem (Jo 1,26). Aqui, ele revela que esse novo conhecimento, ele, João Batista, só adquiriu, quando viu o sopro divino descer e pousar sobre Jesus. 

Para se compreender bem esse testemunho de João sobre Jesus, é importante notar, quantas vezes, no texto, aparecem os verbos ver e conhecer. Isso significa que João teve de mudar o modo de ver e de conhecer para, de fato, descobrir a verdadeira identidade de Jesus. O profeta João só pode conhecer realmente quem era aquele homem, ao ver que ele,  Jesus, se inseria no meio do povo e que, ao ser batizado, se abriu plenamente para receber o Espírito de Deus. Nas relações humanas e sociais, foi o Espírito que revelou Jesus a João.


Em nossos dias, aprendemos de João Batista a reconhecer Jesus como sendo o Cristo de Deus, assim como a toda e qualquer pessoa consagrada de Deus, seja gente religiosa, seja quem não é religioso(a), mas a quem o Espírito de vida se manifesta, seja através de um sinal ritual (por exemplo, nas espiritualidades originárias dos povos indígenas ou negros), seja na entrega da sua vida para que as pessoas sejam livres e felizes. Nos transes dos cultos de matriz africana, nas experiências xamânicas das espiritualidades indígenas podemos descobrir o Espírito de Deus revelando que Deus assume seus eleitos e eleitas, assim como assumiu Jesus como Cristo, como consagrado, como seu Filho predileto. 

Para nós, cristãos e cristãs, somente ao fazermos uma experiência íntima e profunda de contato com Jesus é que podemos mergulhar no Espírito e nos abrir a essa visão universal. Essa experiência não se faz apenas através de ritos, ou de instituições religiosas. É pela imersão na convivência com as pessoas, principalmente as vítimas de opressão e/ou exploração, que podemos experimentar o Espírito que gera vida nos guiando e  orientando.

Como aconteceu com o batismo que o profeta João fazia no rio Jordão, os ritos que, hoje, realizamos podem também ser instrumentos que revelam o projeto divino. Para isso, é importante que sejam não apenas ritos que fazemos para Deus e sim a memória das maravilhas que Deus fez e faz para nós. Deus não precisa do nosso louvor, nem de nossos ritos. O que Ele quer é que escutemos a sua Palavra e ponhamos em prática a sua proposta para o mundo: Paz, justiça, amor, respeito e cuidado com tudo o que o Amor Divino criou. 

Os ritos litúrgicos podem nos ajudar a descobrir o projeto divino,  mas a intimidade com Deus não se alimenta apenas com o rito e as instituições. Tanto é assim que o Quarto Evangelho é o único que não se preocupa em contar o batismo de Jesus. Fala só do testemunho de João Batista sobre o fato de que viu o Espírito descer sobre Jesus. O mais importante não é o rito. É abrir-nos ao Espírito gerador de vida. É sermos testemunha do Espírito vir sobre a pessoa de Jesus e vir sobre nós. 


Para o profeta João Batista, o ponto de partida foi reconhecer em Jesus o Cordeiro ou o Servo de Deus. Desde o prólogo que o evangelho procura ler a vinda de Jesus à luz do livro do Êxodo. Agora apresenta Jesus como o novo cordeiro pascal. Não tanto o cordeiro do sacrifício, mas aquele a quem o Servo Sofredor, apresentado pelo 2º Isaías, foi comparado (Is 52, 13- 53, 12). É ele que se solidariza com a humanidade pecadora. Sem substituir nossa responsabilidade de conviver de forma ética, Jesus assume em si o pecado estrutural do mundo, do sistema social e não apenas os pecados pessoais de cada um/uma.  

Quando esse evangelho foi escrito, não havia mais templo em Jerusalém, pois tinha sido destruído na década de 70 do 1º século. Por isso, conforme o texto, ao ir ao Jordão ser batizado por João, Jesus se preocupa não com os pecados individuais, mas com o pecado social do mundo, isso é,  com a estrutura iníqua da sociedade. É dessa servidão que ele vem nos libertar mostrando-nos o jeito de viver libertador. Essa passagem do Quarto Evangelho pode ser comparada com a passagem do Evangelho de Lucas, na qual na sinagoga de Nazaré, Jesus anuncia a sua missão pública: “O Espírito de Deus vem sobre mim e me manda curar os doentes, soltar os cativos e libertar os oprimidos” (Lc 4, 16- 21).

Isso significa que o verdadeiro batismo do Espírito Santo é quando aceitamos mergulhar no projeto divino da libertação. O batismo do Espírito é quando nos inserimos nas lutas pela libertação  social e política da classe trabalhadora, dos povos indígenas, das comunidades negras e de todas as pessoas oprimidas. Como pessoas de fé, vivemos isso como experiência espiritual. Somos conduzidos e conduzidas pelo Espírito, ou seja, descobrimos Deus presente e se revelando a nós nessa caminhada. Em El Salvador, nos anos 80 do século XX, o padre Ignacio Ellacuría, um dos jesuítas que depois foi assassinado na Universidade (UCA), afirmou: “Através de Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador.”  O que ele quis dizer foi que, pela ação de Romero em defesa da vida das pessoas pobres e perseguidas pela ditadura daquele país, Deus se manifestou presente. Monsenhor Romero fez o que João Batista disse no Jordão: “Eu vi o Espírito descer sobre ele (Jesus) e permanecer”. Esse evangelho de hoje nos chama a unir essas duas dimensões da fé: o jeito afetivo, emocional, (hoje podemos dizer: pentecostal) e a dimensão revolucionária, socio-política transformadora. É o Espírito que Jesus partilha conosco, que nos faz poder dizer, como o apóstolo Paulo: “Já não sou eu que vivo. É Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).


"Tu és um Deus escondido, 

mas na carne de um homem. 

És um Deus escondido, 

em cada rosto de pobre. 

 Mas, teu Amor a nós se revela, 

quanto mais se esconde. 

Sempre entre Tu e eu, 

uma ponte. É impossível olvidá-lo. 

Tanto me chamas Tu, como te busco eu. 

Os dois somos encontro

Fazendo-me o que sou, 

desejo e busca, 

Tu és o que és, dom e abraço.  (Pedro Casaldáliga[2]).



[1] - CHORAQUI, André. 

[2] - Cf. PEDRO CASALDÁLIGA, Todavía esas Palabras, Publicação Policopiada, São Félix do Araguaia, 1994.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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