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Passemos para o outro lado

Passemos para o outro lado, mesmo em meio à tempestade

               O trecho do evangelho lido neste 12º domingo comum do ano (B) é Marcos 35- 41. Conta que depois de ter contado ao povo e a seus adversários as parábolas do reino, ao cair da tarde, Jesus com o seu grupo de discípulos e discípulas toma um barco e atravessa o lago de Genesaré para passar ao outro lado. Durante a noite, o barco enfrenta uma forte tempestade e Jesus acalma a natureza. Todos os estudos revelam que até hoje são comuns tempestades violentas e perigosas no lago de Genesaré. 

Esse relato de Jesus e o seu grupo atravessando o lago no meio de uma tempestade e no mais escuro da noite marcou tanto as primeiras comunidades cristãs que todos os quatro evangelhos contém este relato e alguns deles como Marcos e Mateus falam disso em duas versões diferentes. 

A vitória de Jesus sobre a tempestade pode ser interpretada a partir de diferentes ângulos. Podemos ouvir este evangelho a partir da crise ecológica do mundo, da crise que envolve hoje nossas Igrejas e também neste momento do mundo as tempestades que enfrentamos dentro de nós mesmos. 

Na Bíblia, algumas vezes, as águas tumultuadas significam os exércitos inimigos que invadem ou oprimem as pessoas (por exemplo, no Salmo 69), como também lembram o caos inicial que Deus venceu ao criar o mundo e dar ao mundo uma nova ordem.

Atualmente, os desequilíbrios climáticos e desastres ecológicos estão sendo cada vez mais frequentes e fortes. Como seria bom ver hoje Jesus se levantar no meio das tempestades do mundo atual e mandar que parem as inundações na Amazônia e a seca que assola grande parte do Brasil? Quantas pessoas, hoje, esperariam de Jesus que ele levantasse as mãos sobre o nosso mundo e fizesse parar a Covid? 

De fato, no texto do evangelho, a primeira coisa que chama a atenção é que o mesmo Jesus que expulsa as energias negativas de um ser humano também é capaz de expulsá-las da natureza. O texto diz que Jesus repreendeu (em grego: exsorcizzó) o vento e disse ao mar: Cala-te! De certa forma, Jesus trata as águas do lago como se fossem alguém. Chega a falar com as águas e o vento: Calem-se. Fiquem quietos. 

Para o evangelho, isso quer dizer que há uma relação entre as  energias impuras que dominam as pessoas e as energias de destruição que podem dominar a natureza. Hoje, muitos falam em libertar a terra, livrando a natureza dos demônios do capitalismo e da ambição humana. Seria falso pedir a Deus que libertasse a natureza das energias destruidoras se atualmente essas energias são provocadas pela própria humanidade. 

Nestes dias, a polícia internacional denunciou que um vírus de laboratório que na Ucrânia estava sendo desenvolvido para controlar uma doença de aves foi roubada e pode se espalhar na humanidade com consequências imprevisíveis. Como continuar sustentando esse modelo de sociedade e depois pedir a Deus que tire os demônios da natureza, se somos nós mesmos que os fabricamos e os espalhamos?  

O evangelho de Marcos conta aquela tempestade no lago para mostrar que a tempestade estava também no coração dos discípulos e na vida da comunidade. De acordo com o relato, Jesus enfrentava pressões e forças contrárias dos religiosos do templo e até da família. Ele se defendeu contando as parábolas. Estas não foram aceitas e por isso ele deu a ordem aos discípulos: vamos passar para o outro lado.  Do lado de cá do lago estava a cultura e a religião judaica. Do lado de lá ficavam as cidades estrangeiras e as culturas do Império. Assim, para o evangelho, ao atravessar o lago, Jesus vai de um mundo cultural e religioso para outro. Atravessar o lago significa abrir-se aos de fora.  

Hoje, vemos a nossa Igreja assolada por uma tempestade imensa. Como não ver uma Igreja em tempestade quando ainda há bispos e padres que minimizam a pandemia, defendem o atual governo federal, se mostram a favor da barbárie e da violência institucionalizada? É preciso, hoje, ouvir o apelo do papa Francisco por uma Igreja em saída exatamente como a ordem de Jesus aos discípulos: passemos para o outro lado.  

É claro que podemos também fazer uma leitura simbólica das tempestades interiores e psíquicas que, muitas vezes, vivemos. Somos como os discípulos aterrorizados com as ondas. Enquanto afundamos, Jesus parece estar dormindo tranquilamente. Alguns salmos da Bíblia têm essa expressão: "Acorda, Senhor, porque tu dormes?" (Sl 44). 

O evangelho conta esse relato quase como uma parábola da Páscoa de Jesus contada pelo lado da comunidade. Ela atravessa a noite e a tempestade enquanto Jesus dorme. Sair de nós mesmos e passar para o outro lado implica sempre em um momento de crise, de dor e de tempestade. O evangelho diz que Jesus se levanta. O verbo grego usado é o mesmo para ressuscitar. É o Cristo ressuscitado que domina a tempestade do lago, da natureza, como acalma as tempestades do mundo e as do coração de cada um/uma de nós. 

Comumente nós fomos educados/as a encontrar Deus ou Jesus no silêncio e na paz. Aqui o evangelho nos diz que o próprio Jesus vem ao nosso encontro, como veio ao encontro dos discípulos, mesmo no meio do escuro da madrugada e no meio da tempestade do lago. Seja nas tempestades pessoais de nossa vida, seja no meio das tempestades da Igreja e do mundo, é bom reconhecermos a sua presença e ouvirmos a sua Palavra de Paz, de serenidade e de segurança para prosseguirmos nossa travessia para o outro lado. 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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