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Resenha de um livro novo

Cartas de amizade, caminhos do bem-viver

(Resenha do livro)

Jonathan Félix de Souza

Em princípio, todo e qualquer livro é sempre como uma carta, na qual quem escreve se comunica com quem lê. Para quem conhece Marcelo Barros sabe que isso é, especialmente, verdade quando nos referimos aos seus livros. Marcelo nunca publicou teses acadêmicas, nem relatórios ou estudos impessoais. Desde o seu primeiro livro, no início dos anos 1980 até esse que deve ser o seu 69º, ele sempre escreve como quem conversa. No entanto, esse livro é especial porque, como o próprio título já diz: trata-se de uma coleção de cartas comunitárias.

São doze cartas, escritas sempre em tom pessoal e de forma muito afetuosa. Marcelo diz que as escreveu, como quem faz um testamento espiritual. Começa por uma espécie de confissão pessoal: o primeiro capítulo, ou a primeira carta tem como título e assunto: “Em que eu creio e no que não creio”.

Isso já dá uma ideia do livro inteiro. Soa quase como uma confissão, ou como nos ritos de batismo em Igrejas tradicionais, nas quais, o pastor, antes de perguntar a quem vai ser batizado em que você crê, pergunta o que não crê, ou seja a que você renuncia. Aliás, por falar em Igreja, a segunda carta continua o mesmo tom de confissão, só que dessa vez é sobre a Igreja. Tem como título: “Creio na Igreja, ou melhor, creio como Igreja”.
Nunca tinha feito essa distinção entre crer na Igreja e crer como Igreja. Não sei se algum dos nossos teólogos tenha já escrito sobre isso, mas o fato é que quem ler, sentir-se-á mais livre em criticar a Igreja. Pode-se crer na necessidade da comunidade de fé, mas não em instituições religiosas multinacionais que fazem questão de chamar-se de “Santa Igreja”. Tenho certeza que ao lerem esse capítulo, vocês vão concordar comigo.
E como assunto puxa assunto, o terceiro capítulo, ou terceira carta ainda é, assim, bem geral, intitula-se “Convite para a profecia”, o que me pareceu resumir bem um livro anterior de Marcelo: “Profecia e Martírio na caminhada”, livro que o CEBI publicou há alguns anos. Penso que esse livro atualiza o assunto e o aplica aos dias que, hoje, vivemos no Brasil.
A partir da quarta carta, o autor se dirige a categorias de pessoas mais específicas. A quarta trata da esperança (“aos irmãos e irmãs que teimam em esperar”) e a quinta fala mais diretamente a pessoas que conheço bem que sentem-se sempre sedentas de uma espiritualidade mais profunda (“aos irmãos e irmãs que querem radicalizar a busca espiritual”).

Tenho a impressão de que se trata mais uma vez de confissão: quem conhece Marcelo sabe que esse é o seu perfil.
As seis últimas cartas são mais especializadas. A sexta se dirige “às pessoas que ligam Ecologia e Fé” e a sétima, “aos irmãos e irmãs artistas”. Desde jovem, Marcelo aprendeu a querer um bem especial a toda pessoa que entra nesse mundo da arte. Talvez, porque ele próprio tenha isso como sua segunda vocação, que, como monge, ele queria ter desenvolvido mais. A oitava carta é para a juventude, especificamente “às irmãs e irmãos jovens com os quais caminho”.

A nona carta surpreende porque é a única que não é comunitária. Não se dirige a um grupo específico. É escrita “a um jovem padre tradicionalista”. Quando você lê, compreenderá que o padre proibiu um grupo de jovens da paróquia a convidarem Marcelo para assessorá-los e Marcelo respondeu ao padre com essa carta. Depois, vem a décima: “aos companheiros e companheiras do Movimento Fé e Política”, movimento do qual Marcelo é assessor nacional. A undécima carta se dirige “aos irmãos e irmãs em situação de sofrimento”. Dá quase a impressão de que é uma carta a toda a humanidade que vive, como diz a oração católica popular, nesse vale de lágrimas.

A última carta também disfarça mas é escrita para mim, para você e para todo mundo: “às pessoas, cuja vocação profética é sonhar”.
É claro que as cartas não são completas, nem pretendem ensinar soluções ou mostrar todo o caminho. Provocam e isso é o mais importante: nos provocam a caminhar. E nos caminhos do bem-viver.
É preciso saborear cada página para descobrir que o bem-viver não é um ideal longínquo e sim a cotidianidade vivida no amor.

Cartas de Amizade: Caminhos do Bem-viver.
Editora Recriar (https://www.editorarecriar.com/ )

(Jonathan é doutor em Ciências da Religião e educador. Vive em Belo Horizonte e é amigo de Marcelo)

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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