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Semana da Unidade em um mundo dividido

A Semana da Unidade em um mundo dividido 

 

No Brasil, anualmente, as Igrejas ligadas ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) celebram na semana entre o Domingo da Ascensão e a Festa de Pentecostes a Semana de Orações pela Unidade Cristã. Neste ano de 2026, esse evento ocorre nestes dias, do domingo 17 ao 24 de maio. Coincide com os dias em que o povo católico costuma fazer a novena do Espírito Santo e, em algumas regiões mais tradicionais, celebra-se a festa do Divino. 

É uma iniciativa que já existe há mais de cem anos e consiste no fato de que grupos católicos e evangélicos se reúnem para orar juntos e para dialogar em função do testemunho de paz e de amor que, como discípulos e discípulas de Jesus, devemos dar ao mundo. 

No mundo atual, há mais de 50 guerras, nas quais povos inteiros são ameaçados de extinção, muitos, por causa de petróleo e de interesses econômicos. No Brasil, canais de comunicação e grupos de internet atiçam cada vez mais a polarização, na qual grupos políticos de direita procuram criar um clima de intolerância que quer dividir o povo brasileiro e mesmo comunidades de fé. 

Conforme os evangelhos, Jesus propõe o amor como forma de  nos relacionarmos, mas adverte de que isso acarretará conflitos com o mundo. Não é uma paz alienada, nem unidade que compactue com um modo de organizar o mundo a partir da injustiça. Ao mesmo tempo que Jesus diz aos discípulos e discípulas que veio trazer a paz, adverte que o evangelho acaba jogando pais contra filhos e filhos contra pais. 

Na noite em que ia ser preso, ele recomenda à sua comunidade reunida: “Eu vos dou um novo encargo: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13, 35). Por essa unidade entre nós, ele orou ao Pai: “Que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em mim e eu em ti. Que eles e elas estejam em nós, afim de que o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17, 21). 

Para possibilitar a unidade entre as Igrejas, em 1959, o papa João XXIII anunciou a convocação do Concílio Vaticano II que reuniria todos os bispos católicos do mundo e com a presença de um bom grupo de observadores evangélicos e ortodoxos. O objetivo do Concílio foi renovar a Igreja, para tornar possível a unidade. João XXIII afirmava que nunca será possível a unidade cristã, desejada por Jesus, se cada Igreja não aceitar renovar-se interiormente. Para isso, ele propunha a “voltar às fontes”, ou seja, retomar o espírito do evangelho e, ao mesmo tempo, atualizar-se para viver a missão no diálogo com a humanidade de hoje. Mais recentemente, o Papa Francisco insistia que a Igreja não pode fechar-se em si mesma. Deve ser “Igreja em saída” na direção das periferias do mundo. 

O Concílio publicou um decreto sobre a Unidade Cristã, no qual afirma que a Unidade é a própria vocação da Igreja. Por isso,  para quem é cristão, a unidade das Igrejas e da humanidade é algo essencial. A razão disso é que se trata do próprio projeto divino: Deus quer a unidade. A divisão é contra a vontade de Cristo, manifestada nos evangelhos. Por isso, é um escândalo para o mundo e obstáculo para a missão. De fato, Jesus pede ao Pai pela unidade dos seus discípulos e discípulas, para que o mundo possa crer (Cf. Unitatis Redintegratio, 1).  

A divisão é expressão do nosso pecado como Igreja. Sem dúvida, as questões de poder dividem as comunidades cristãs, desde os primeiros tempos e os evangelhos contam que os próprios apóstolos já se preocupavam em saber quem teria poder sobre os outros. Em toda a história, as divisões ocorreram por questões de poder eclesiástico e de dogmatismos, como se a expressão da fé fosse mais necessária e importante do que a própria fé. 

 Neste ano, a Semana da Unidade tem como tema: “Há um só corpo e um só Espírito. Do mesmo modo que a vossa vocação vos chamou a uma só esperança” (Ef. 4, 4).  Nessa palavra da Carta aos efésios,  o apóstolo pede que os irmãos e irmãs aceitem-se uns aos outros, em suas diferenças e mantenham a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz” (Ef. 4, 1- 3). 

A unidade cristã não se fará pela unificação institucional, nem pela unidade de formas (uniformidade). É unidade no espírito (unanimidade) e respeito às diferenças. O Conselho Mundial de Igrejas propõe: diversidade reconciliada. No século IV, Santo Agostinho traduzia como: “unidade no essencial, liberdade no que não é essencial e caridade em tudo”.

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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