V Domingo Comum: Mt 5, 13-16
O evangelho de hoje fala do sal da terra. A gente liga logo com o sal da cozinha e com o sabor dos alimentos. Outros evangelhos falam disso. Dizem que se falta o sal, tudo fica desarrumado ou louco (esse é o termo grego). No entanto, o Evangelho de Mateus fala do "sal da terra". Provavelmente, quando foram ditas, essas palavras de Jesus faziam referência a um costume da Galileia daqueles tempos. Naquela região, os pastores levavam as ovelhas para o campo e, durante o dia, deixavam que elas pastassem, soltas. À noite, elas deviam voltar ao aprisco, uma espécie de curral, para não serem presas das feras. Como na história infantil de João e Maria, as ovelhas voltavam ao aprisco pelo caminho que os pastores deixavam jogando sal pelo chão, para reconduzi-las ao lugar seguro. Elas voltavam comendo o sal, frequente na beira do lago de Tiberíades e do Mar Morto. Assim, quando Jesus disse: “Vocês são o sal da terra”, não refere-se ao sal da cozinha. Parece que ele quer dizer: “Assim como o sal da terra ajuda as ovelhas a voltarem pelo caminho certo para o aprisco, vocês que são meus discípulos e discípulas têm a função de reunir as pessoas dispersas pelo mundo na direção do aprisco do Pai, para que não se percam, nem sejam presas das feras do mundo”. E também porque terra com presença de sal é terra fértil. Assim, Jesus dizia aos discípulos para serem férteis no testemunho do projeto do reinado divino.
Neste momento do mundo no qual a humanidade e aqui no Brasil, o povo encontra-se muito dividido e polarizado, social, religiosamente e politicamente, é importante compreender essa palavra do evangelho em seu sentido original. A missão dos discípulos e discípulas é unir a humanidade no reino do Pai. Além de servir para reunir as pessoas, o sal também é o elemento que reúne, congrega e unifica no íntimo da pessoa a parte luminosa que cada um de nós tem dentro de si e a parte de trevas que também está em nós. Por isso, Jesus fala em sal e luz. Na tradição religiosa do Judaísmo, essa propriedade de ser sal e luz competia aos rabinos e doutores. A partir de agora, Jesus proclama que todos nós temos de ser sal e luz do mundo. E adverte: “Não enlouqueçam!” (o termo original grego “morainein” não quer dizer “tornar-se insosso” e sim “enlouquecer”). Nessa sociedade em que vivemos, podemos enlouquecer. Todo mundo sabe que o índice de doenças nervosas, de ansiedade, de depressão e de problemas mentais têm aumentado muito. Jesus diz que se cumprirmos a missão de viver como sal e luz para os outros, não enlouqueceremos.
Por outro lado, é importante sabermos que, para cumprir a sua função, o sal tem de se dissolver, tem de anular-se. Será que estamos dispostos a viver essa missão que nos faz desaparecer para que a vida e a sociedade tomem novo sabor? O sal fertiliza a terra porque se entrega à terra. O sal salga a comida porque se entrega e penetra na comida. É por ligação orgânica que o sal salga e a luz ilumina. Se o sal e a luz ficarem desconectados do humano, separado, não vão salgar e nem iluminar. Mais tarde, no mundo grego, a imagem do sal será usada com outro simbolismo. O sal é o que dá sabor. O sabor da vida é adquirido pela sabedoria. “Ter sal” significaria: “Ter sabedoria”. O sal tornou-se símbolo da sabedoria.
Jesus propõe que sejamos sal e luz. O símbolo da luz também era usado para a comunidade de Israel. Já os cânticos do Servo Sofredor diziam que o servo deveria ser luz para o mundo todo (Is 49, 6). Agora, Jesus aplica às comunidades dos seus discípulos e discípulas. As comunidades devem ser missionárias nesse sentido de iluminar a humanidade com a luz do reinado divino.
Outro aspecto que está na metáfora do sal e da luz é que é pouco sal que salga a comida e uma pequena lâmpada ilumina, incomoda e afugenta as trevas. Jesus nos chama para sermos pequenos no meio da multidão. E o sal e a luz incomodam a terra, a comida e as trevas. Sem incomodar quem é insosso e gera trevas com corrupção, opressão e exploração não há como salgar e nem iluminar. Jesus não pede que toda o povo seja sal e luz; pede aos discípulos e discípulas. Em um mundo dominado pelo individualismo, no qual as pessoas são estimuladas à competição, esse evangelho propõe que construamos grupos e comunidades como parábolas de um novo modo de organizar o mundo.
Essas comunidades, que alguém chamou de "cenáculos de resistência" devem ser laicais e autônomas, mas ao mesmo tempo, articuladas como sacramentos vivos do projeto divino no mundo. A missão das pessoas cristãs e das Igrejas seria constituir-se como comunidades que sejam parábolas deste projeto divino e, mais do que nunca, suscitar e apoiar a formação de grupos e comunidades independentes e diversificadas. Podemos traduzir a palavra de Jesus como: “Mantenham em vocês o calor, a capacidade de aquecer a vida”.
A insistência de Jesus é para que os seus discípulos e discípulas assumam a função que, conforme as profecias do Servo Sofredor, todo o povo tinha de ser sal e luz. Cada pessoa humana tem uma “reserva de luz”. Esse potencial luminoso está como que inscrito em nossas células e precisa ser desenvolvido. A imagem da cidade colocada sobre o monte é imagem da nova sociedade que queremos organizar. Há luz em nós. Brilhemos! Que a luz que ilumina irradie em nós que tenhamos a graça de ver a luz que brilha nos outros também.
“Luz, minha luz,
luz que preenches o mundo,
luz que beijas os olhos,
luz que enterneces o coração,
as borboletas desdobram
as suas velas sobre o mar da luz,
os rios do céu se encheram
e inundaram o mundo de alegria. (,,,)
Meditemos sobre a luz,
a luz adorável do sol,
que essa estimule nosso amor
e nosso pensamento”
(Poema de R. Tagore, poeta e místico hindu, século XX)[1].
[1] - Cf. citado por G. RAVASI, ll Llibro dei Salmi, vol. II (del salmo 51 a 100), Bologna, EMI, 1986, p. 1009.
