XXIV Domingo Comum: Mt 18, 21 - 36.
Neste domingo, o evangelho nos traz uma das parábolas mais estranhas e deslocadas do evangelho. É verdade que Jesus não inventou suas parábolas. Tirou-as de fatos que ocorriam no cotidiano da vida. Para compreendê-las melhor, precisamos distinguir parábola e alegoria. Na alegoria, cada termo da história tem um significado. A Igreja primitiva fez da parábola da semente uma alegoria: a semente é a Palavra de Deus. O semeador é o missionário. Os terrenos são os ambientes humanos nos quais a palavra é semeada.
Na parábola não adianta querer associar cada termo. O sentido é geral e a história tem apenas um objetivo, mas contém incoerências. Geralmente, o que vale é o final da história. Essa parábola que o Evangelho de Mateus coloca no final do discurso sobre a comunidade é estranha. Conforme Mateus, Jesus contou para explicar a Pedro e aos discípulos o dever de perdoar sempre, mutuamente, as dívidas econômicas, sociais e morais.
Provavelmente, baseados nessa parábola, sem consistência de uma base bíblica sólida, não poucos bispos, padres e pastores/as falarão de Deus como um senhor, proprietário de terra, que vendeu um dos seus servos, assim como a mulher e os seus filhos como escravos, afim de saldar uma dívida. O tal senhor fez isso para vingar-se do fato de que esse servo tinha sido perdoado por ele de uma dívida imensa e não perdoou o pequeno débito de um companheiro. Distorcendo o sentido do evangelho, muitos pregadores repetirão a palavra que o Evangelho de Mateus pôs na boca de Jesus: “Assim o Pai do céu tratará a vocês, se não perdoarem de coração a seus irmãos e irmãs” ( Mt, 18. 35). E alimentarão, assim, a ideia esdrúxula como se Deus fosse um juiz castigado, vingativo, o que não é justo atribuir a Deus, pois “Deus é amor” (1 Jo 4,8).
Por aí, podemos ver que não são apenas grupos pentecostais, católicos carismáticos e criacionistas da Terra Plana que fazem leitura fundamentalista dos textos bíblicos. A leitura fundamentalista dessa parábola do servo infiel dificilmente vai perceber a contradição entre o que Jesus tinha dito poucos versículos antes no mesmo evangelho e a história que a comunidade de Mateus fez ele contar. Ele tinha acabado de ensinar que “se teu irmão pecar contra ti, o corrige em um diálogo a sós com ele. Se ele não ouvir ainda tem a chance de ouvir duas ou três testemunhas e finalmente a comunidade reunida” (Mt 18, 15). E quando Pedro pergunta “quantas vezes tenho de perdoar ao outro que pecou contra mim”, Jesus responde “até setenta vezes sete vezes”. Mas, o tal senhor do servo infiel não admitiu segunda chance. Mandou vender a família inteira, pais e filhos, como escravos. E a parábola termina comparando isso com a forma como Deus agirá conosco se não perdoarmos uns aos outros.
É claro que esta parábola foi inserida nesse contexto do final do discurso de Jesus sobre a comunidade, mas ficou deslocada e a conclusão é inadequada. Dificilmente, Jesus teria dito isso desse modo. Se fosse assim, a visão de Deus que ele revela nessa parábola é totalmente oposta à imagem que ele mesmo, Jesus, dá do seu Paizinho (Abba) quando diz no discurso da montanha: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem. Assim vos tornareis filhos e filhas do vosso Pai dos céus, pois ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5, 44- 45).
É claro que a parábola retrata a realidade social de uma Palestina na qual as pessoas podiam ser vendidas como escravas, por causa de dívidas impagáveis. Nessa parábola, pode estar implícito que não devem existir dívidas impagáveis e que todos temos uma dívida com Deus. Ele nos perdoa, mas espera que também perdoemos aos nossos devedores.
Perdoar não é apenas atitude moral ou de bondade. É opção de fé e de quem quer transformar o mundo. Jesus revela que o seu Abba (Paizinho) não quer que ninguém se perca. Sobretudo, vive perdoando, sempre, setenta vezes sete vezes. Nós todos e todas somos pecadores e pecadoras sempre perdoados. Sem essa consciência, não acontece o projeto divino no mundo. Sem essa prática, não deveria haver Igreja, apesar de que o Direito Canônico não manda que se perdoe gratuitamente. Assim sendo, a hierarquia nem sempre dá o melhor exemplo de quem perdoa. Seja como for, todos e todas que são de Jesus devem orar no Pai Nosso: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12).
A parábola contada pela comunidade de Mateus nos anos 80 pertence à sociedade política da época. Hoje no mundo, países inteiros são esmagados por outros e impedidos de proporcionar uma vida digna ao seu povo por causa da dívida externa. O Banco Mundial, o FMI e governos ricos exigem, só de juros anuais da dívida, o triplo do que foi emprestado.
Hoje, as mais diferentes religiões e caminhos espirituais propõem que a humanidade se organize como uma única família de irmãos e irmãs e dentro de uma comunidade maior que abrange todos os seres vivos. É nessa perspectiva que temos de encontrar os meios para que a sociedade civil possa ter voz e vez na ONU (não somente os governantes). Isso supõe superar esse modelo econômico depredador e desumano que, atualmente, domina o mundo. Para isso, é necessário o total e imediato cancelamento da dívida externa dos países pobres, o fim da fabricação e consumo de armamentos e que a ONU exija de todos os países o compromisso do cuidado com a Terra.
Não adianta dizermos estar de acordo com essas propostas para a sociedade internacional se, na vida pessoal e nas relações interpessoais, agirmos de forma contrária. É importante perdoarmos uns aos outros e cancelarmos as dívidas, para vivermos a gratuidade do reino de Deus.
