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uma família original e alternativa

Família original e aberta ao mundo

A cada ano, no domingo que cai no meio desses oito dias em que festejamos o Natal, a Igreja Católica celebra a festa da Sagrada Família. A liturgia nos faz contemplar o presépio não apenas como local do nascimento de Jesus, mas como o espaço ou lugar humano (antropológico) a partir do qual Jesus se faz verdadeiramente gente, como qualquer um de nós. Tanto Jesus como nós nos tornamos as pessoas que somos, em primeiro lugar, na família  e pela educação afetiva e social. O primeiro presépio social de Jesus é sua família. 

Podemos contemplar isso no presépio natalino. O menino não está só. José e Maria estão ao seu lado na manjedoura. No entanto, sabemos que o presépio mais permanente de Jesus foi a casa em Nazaré, a oficina de José e o convívio com seus pais e seus irmãos e irmãs. 

Mais do que isso não sabemos da família de Jesus, nem devemos inventar. Atualmente, como tantas outras instituições sociais, também a família está em crise. Ainda é frequente que, enquanto no mundo, já se espalham vários modelos de família, muitas hierarquias eclesiásticas se apoiam em leituras fundamentalistas de textos bíblicos e evangélicos para canonizar o modelo patriarcal e burguês de família que a sociedade medieval ocidental institucionalizou como sendo “cristã”. Certos ministros de Igreja fazem com a família de Jesus algo semelhante a quem arma um presépio de Natal com pintura dourada e as figuras de Maria, José e o menino na sala de visita de um quartel da polícia ou prisão ou na entrada grandiosa de um shopping-center. 

Quem lê o evangelho sabe que Jesus ficou em sua família quando era criança. Quando adulto, sempre que pode, mostrou sua ruptura com o modelo de família patriarcal e clânica: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos  e irmãs? Toda pessoa que escuta a Palavra de Deus e a põe em prática” (Mc 3, 34- 35). “Quem ama o seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim. Quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10, 37). 

E os próprios textos do evangelho escolhidos para esta festa podem nos ajudar a compreender isso. Para este ano B, a liturgia propõe como leitura evangélica desta festa da Sagrada Família o evangelho de Lucas 2, 22- 40. É a cena da apresentação do menino Jesus ao templo, quando se completaram 40 dias do seu nascimento. Conforme o Evangelho, na hora em que Jesus é apresentado ao templo, ele passa a fazer parte do seu povo. Portanto, ao apresentar o menino a Deus, na realidade os pais o estão entregando ao seu povo. Estão ampliando a sua família. 

Claro que, conforme o evangelho, José e Maria fazem isso para cumprir a lei. E aí o evangelho mostra que eles são tão pobres que não podem oferecer o sacrifício “normal” para a ocasião. Fazem a oferta que a lei diz que apenas as pessoas mais pobres e indigentes podem oferecer: um casal de rolinhas (Lv 12, 8). É o que Maria e José oferecem. 

O evangelho de Lucas mistura dois ritos judaicos diferentes: a purificação da mãe e a apresentação do filho. Conforme a lei, no caso do primeiro filho de um casal, eles deveriam fazer o “resgate do primogênito”, um sacrifício pelo qual a família pedia ao Senhor para ficar com o menino. Assim, ficavam encarregadas de cuidar dele, mas, ao mesmo tempo, prometiam que ele seria sempre consagrado a Deus (Cf. Ex 13, 2. 12. 15). Lucas não faz nenhuma alusão ao rito do resgate do primogênito. Portanto, conforme o evangelho, a família de Jesus nem o resgatou, isso é, nem legalmente podia ficar com ele, tê-lo como filho em casa. Desde o começo, Jesus é do povo, Jesus é da missão, Jesus é do Pai e do seu reino. 

No lugar de sublinhar os ritos próprios daquela cerimônia da apresentação no templo, o evangelho prefere centrar a sua narrativa em algo totalmente diferente: a profecia. Conforme Lucas, primeiramente Jesus é reconhecido como Salvador pelos pobres (os pastores de Belém). Agora, no templo, é reconhecido por um casal de profetas e idosos: Simeão e Ana. Conforme o evangelho, a profecia tem um jeito masculino com Simeão e um estilo feminino com Ana. 

Simeão profetiza que Israel pode alegrar-se porque deu Jesus à humanidade. Jesus será luz para todos os povos. É como a Igreja para fora que o papa Francisco propõe. É como se ao tomar o menino Jesus nos braços, Simeão proclama que a primeira aliança se abre ao novo testamento. 

Ana cumpre a profecia do louvor e de falar do menino a todos e todas. Esse casal de profetas representa também a importância dos mais velhos na comunidade. Em um mundo dominado pela produção e pelo dinheiro, muitas vezes, as pessoas mais velhas são marginalizadas, ao contrário, de caminhos espirituais como as religiões afro-brasileiras e indígenas, nas quais os mais velhos têm um papel preponderante.

Em algumas comunidades cristãs populares, mesmo se o rito do batismo ficar para mais tarde, o pai e a mãe apresentam a criança recém-nascida a Deus e à comunidade. É um gesto lindo e de significado comunitário. Ao mesmo tempo, resgata as etapas do catecumenato batismal, o que é sempre uma boa sabedoria na iniciação da fé. 

Neste momento, muitos jovens, rapazes e moças, e muita gente adulta espera de nós que como Simeão e Ana façamos da religião não apenas o culto do templo e sim a profecia e que a gente fale bem do Menino (como Ana) e não dê de Deus a imagem de um Deus mesquinho, truculento, insensível à humanidade e a seus sofrimentos. A Palavra de Deus se fez carne e armou sua tenda de amor em nós e no meio de nós. 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

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