Blog Aqui vamos conversar, refletir e de certa forma conviver.

A comunhão de Jesus contra um mundo de exclusão

X Domingo Comum – Mt 9, 9 - 13.

                           A Comunhão de Jesus, profecia de um mundo sem exclusões

 

Neste X Domingo comum do ano, o evangelho lido pelas comunidades nos traz uma das passagens do evangelho, que mais nos provocam e desafiam. Todas as palavras e as ações que os evangelhos contam de Jesus são proféticas e suscitam nas pessoas que as escutam posicionamento firme, a favor ou contra. Certamente, Jesus surpreendeu a sociedade religiosa e política do seu tempo ao chamar para o seu grupo de discípulos e discípulas, pessoas simples, como Pedro e André, Tiago e João, pescadores no lago da Galileia. Abriu sua comunidade a Simão, um homem que pertencia ao  grupo dos zelotas. E, provavelmente, foi o único profeta e rabino do seu tempo que incluiu em seu grupo mulheres como discípulas e elas o acompanharam até Jerusalém (Lc 8, 1- 4). Tudo isso, certamente, provocou espanto por parte de muita gente. No entanto, sem dúvida, o que mais escandalizou os religiosos da época, foi ter chamado um cobrador de impostos, aliado dos opressores romanos, para ser seu discípulo.  

O evangelho de hoje começa dizendo que,  ao passar, Jesus viu Mateus no posto de coletoria de impostos  e o chamou. Ao passar de onde e para onde? Ao escrever esse relato nos anos 80 do primeiro século da era cristã, a comunidade mostra como Jesus abre a sua comunidade a pessoas que outros grupos religiosos não quereriam receber. 

Conforme o evangelho, Jesus passava pelas aldeias e cidades da Galileia. Cafarnaum tinha sido antigamente "cidade de refúgio", ou seja, um lugar de pessoas, socialmente, marginalizadas e consideradas pecadoras. É nesse percurso que Jesus toma a iniciativa de chamar Mateus. 

Mateus é um nome hebraico que significa "dom de Deus" e o seu nome só aparece nos evangelhos nessa passagem e na lista dos apóstolos no capítulo 10. Comumente, o que mais chama a atenção nesse evangelho é que Jesus chama um rapaz considerado, publicamente, pecador para ser discípulo e janta em sua casa e com seus companheiros de pecado. No entanto,  ao chamar Mateus para abandonar o trabalho de coletor de impostos dos romanos, Jesus está deslegitimando o império, a partir de uma de suas bases mais importantes. Deve ter irritado muito aos romanos que eram chefes do trabalho de Mateus. Além de provocar a ira dos romanos ao tirar Mateus do seu trabalho, ele irrita também os religiosos da sinagoga, ao abrir a sua mesa a pessoas consideradas pecadoras. 

Esse evangelho de hoje diz que ele, Jesus, estava em casa em Cafarnaum e estava reclinado à mesa. Nessa ceia, recebeu cobradores de impostos, pecadores e gente considerada de vida errada. 

Nas sociedades que guardam as tradições mais humanizadas, comer junto é sinal de pertencer ao mesmo grupo ou estar na mesma linha de busca e de relações. Comer juntos é sinal de celebrar. Come-se junto para comemorar aniversário, casamento, ou, simplesmente, para assinalar a convivência. A esposa espera o marido voltar do trabalho para almoçar ou a mãe espera os filhos. Nas sociedades antigas, o costume era comer juntos,  na família ou com pessoas da mesma classe social. Era considerado como grave desrespeito, um empregado sentar-se à mesa do patrão. Era um escândalo alguém comer com pessoas de outro grupo social, principalmente, com alguém que a sociedade considerava pecador/a. Pois, era exatamente o que Jesus fez: comer com gente marginal da sociedade, comer com pecadores e gente de má fama. De toda a vida de Jesus, essa atitude de comer com gente de má fama foi o que mais escandalizou aos bem-pensantes. 

Até hoje, muitas vezes, as nossas Igrejas comportam-se de forma contrária a Jesus. Se um homem ou mulher vive uma situação de casamento que a lei da Igreja considera irregular, não pode ter funções na comunidade. Às vezes, padres e catequistas argumentam que mesmo que eles/elas aceitassem isso, "o povo não entenderia".  

Jesus nunca teve esse tipo de prudência, quando tratava-se de preconceito, ou discriminação contra alguém. De acordo com o evangelho, ele mesmo tomou a iniciativa e chamou Mateus. Simplesmente. E esse deixou o posto de coletoria e o seguiu. Aqui, Jesus cita um provérbio: “São os doentes que precisam de médico e não os sadios” e cita o profeta Oséias, ao afirmar a palavra de Deus: “Quero a misericórdia e não o sacrifício” e uma aplicação histórica: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores”. 

A misericórdia bíblica é o amor uterino de Deus que nos ama não somente como pai, mas como mãe que protege mais o filho problemático e carente do que os bons e sadios. É nessa perspectiva que Jesus pede aos religiosos que o julgam mal que voltem à sua tradição mais antiga. No próprio tempo de Jesus, as escolas judaicas citavam e comentavam: “O mundo subsiste por causa de três coisas: a lei, o culto do templo e as obras de misericórdia” (Rabino Simeão, o Justo, sec. II A.C.).

Para as comunidades atuais, o desafio que permanece é como retomar a prioridade que Jesus e a mística judaica deram à misericórdia nas nossas relações diárias e na forma de organizar a comunidade. É preciso que a humanidade perceba que Igrejas são comunidades de compaixão e misericórdia. Não podem ser, principalmente, instituições de culto, moral e disciplina.  

Ao chamar o publicano Mateus para ser discípulo, Jesus não justifica ou legitima uma Pastoral que se centra nos ricos. Mateus era um pobre alienado que servia ao império. Hoje muita gente pobre e enganada vota na extrema-direita e serve a essa como massa de manobra. Jesus nos chama a nos inserir, a dialogar com o povo pobre e a usar a compaixão solidária como remédio para curar esse mundo doente. É preciso evitar generalizações preconceituosas, como afirmar: os evangélicos são de direita, ou os pentecostais são alienados e outros preconceitos injustos. Na Igreja Católica, também há muitos grupos e pessoas que tomam posições sociais e políticas contrárias ao evangelho. Assim como Jesus fez, ao chamar Mateus para o seu grupo profético e ao cear, amigavelmente,  com publicanos e pecadores, a nossa missão é nos inserir, dialogar e abrir o coração e as portas de nossas vidas a todas as pessoas e grupos que aceitem caminhar conosco na direção da justiça ecossocial do Evangelho e do testemunho do projeto divino no mundo. 

Foi uma transexual, a deputada federal Érica Hilton, que, mesmo vindo com uma história de discriminação brutal, iniciou e liderou na Câmara Federal proposta para acabar com a escala 6 X 1, para que a classe trabalhadora possa trabalhar apenas 40 horas por semanais e ter dois dias por semana para descansar, conviver com a família e amigos/as, celebrar sua fé, participar de um movimento social... Afinal, diz o evangelho de Jesus Cristo: trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Enfim, se prestarmos bem atenção, veremos que as pessoas que são discriminadas e rejeitadas, muitas vezes, são as mais solidárias e comprometidas com lutas pelo bem comum. 

 

Marcelo Barros

Camaragibe, Pernambuco, Brazil

Sou monge beneditino, chamado a trabalhar pela unidade das Igrejas e das tradições religiosas. Adoro os movimentos populares e especialmente o MST. Gosto de escrever e de me comunicar.

Informações